A celebração da colheita


Mirella Faur

Os povos antigos acreditavam que a Natureza era a manifestação das forças criadoras divinas e que tudo o que existia no mundo era impregnado de energia espiritual. As leis que regiam a Natureza regiam também os demais seres, repetindo assim o eterno ciclo de geração, crescimento, amadurecimento, colheita, transição e renascimento.

Conheciam-se e celebravam-se os momentos de passagem de uma fase para outra, a mudança das estações, o início e o fim de cada ciclo. O sagrado fazia parte da vida cotidiana, pois os rituais e as cerimônias comemoravam esses momentos marcados pelo movimento do Sol, da Lua, dos planetas e estrelas e manifestados nos ciclos e mutações da própria Natureza.

As religiões modernas afastaram-se dessas práticas milenares, considerando-as pagãs, quando, na realidade, o verdadeiro significado da palavra latina paganus retratava exatamente sua origem, ou seja, “o morador do campo”, o homem em contato permanente com seu habitat – a Natureza.

O homem moderno, quando passou a viver no meio dos muros de concreto, longe do contato diário com o céu, a terra, as plantas e os animais, afastado e desligado dos ritmos e fenômenos naturais, perdeu também a vivência simples e cotidiana do sagrado.

As antigas civilizações e culturas atribuíram à Terra poderes espirituais, criaram sítios sagrados, mitificaram animais e plantas e festejaram as estações e os fenômenos naturais, reverenciando as forças criadoras representadas por inúmeros deuses e deusas. A vida do assim chamado homem “primitivo” dependia das forças da Natureza, de sua relação com o meio ambiente, de sua habilidade para saber quando e o quê plantar e para definir o momento certo de colher. Seu objetivo era viver em permanente contato com os princípios e poderes espirituais, invocando, pedindo ou agradecendo pela chuva, pelo Sol, pela fertilidade da Terra e pela abundância das colheitas.

Atualmente, a excessiva ênfase no pensamento racional, analítico e científico levou às atitudes antiecológicas, o que resultou na excessiva exploração e decorrente devastação da Natureza, na crescente poluição e falta de respeito pela vida e pelo equilíbrio do nosso planeta, comprometendo a própria sobrevivência (mineral, vegetal, animal e humana).

A Hipótese Gaia – que afirma ser o planeta um sistema complexo e vivo, cujas múltiplas formas de vida são interligadas e interdependentes com a atmosfera, o solo e os oceanos – renovou o interesse pelos antigos mitos e tradições centradas no culto à Grande Mãe. Progressivamente vêm sendo redescobertos os poderes das antigas cerimônias e rituais que honravam as mudanças e os ciclos da Natureza e da vida, em perfeita sintonia com as energias e faces mutáveis da Mãe Terra.

As mais variadas celebrações, oriundas das tradições nativas norte ou sul-americanas, européias, africanas, orientais ou australianas, reuniam e uniam pessoas em datas especiais, festejando com cantos, danças, orações e oferendas as dádivas e a beleza da Mãe Terra. Por intermédio desses rituais, criavam-se vórtices de energia coletiva que favoreciam a percepção sutil, ampliando a compreensão espiritual e a conexão com as forças, energias e seres da Natureza.

Os festivais originários das antigas tradições e sociedades não dependem de ideologias religiosas, mas da realidade ecológica. Os ritmos solares, lunares, naturais e planetários independem da cultura, da crença, fé, posição social ou capacidade intelectual do homem. Resgatar essas práticas e adaptar seu significado para a vida moderna ajuda a integração do homem com a Natureza, favorecendo o alinhamento pessoal, coletivo, global, universal.

Dos inúmeros festivais antigos que celebravam os solstícios, equinócios, ritmos solares, fases lunares ou ciclos das estações, uma festividade muito importante era a celebração da colheita. O respeito e a reverência pela energia sagrada dos grãos remontam aos primórdios da humanidade, os cereais estando associados a inúmeros mitos e lendas sobre a morte e o renascimento. Honrava-se a morte na imagem do grão colhido e moído (descrita metaforicamente nos mitos de numerosos Deuses, que se sacrificavam para assegurar a continuidade da vida humana) e celebrava-se o renascimento das sementes brotando da Terra (nas imagens das várias Deusas dando à luz seus divinos filhos).

Como o grão – moído e assado – representava o corpo do Deus sacrificado, o pão era preparado ritualisticamente a partir dos primeiros grãos colhidos, modelado na forma humana e assado enquanto as pessoas entoavam cânticos e orações. Da última espiga – de trigo ou de milho – era confeccionada uma boneca representando a “Mãe do Cereal” (Corn Mother), que era guardada, em lugar de honra no templo, até a próxima semeadura, quando era enterrada ritualisticamente na terra recém-arada para atrair a abundância para a nova colheita.

Nas celebrações, ao comer o pão da primeira colheita, evocavam-se os ancestrais em agradecimento pela perpetuação da semente humana, da mesma forma que o primeiro grão de cereal dado à humanidade pelos deuses originou todos os outros grãos. Através das oferendas, orações e agradecimentos, afirmava-se e agradecia-se pelo florescimento e crescimento dos campos recém-semeados, que guardavam os frutos das promessas e realizações do futuro.

Inspirados e integrados com estes conhecimentos sagrados dos nossos ancestrais, podemos assinalar também em nossa agitada vida moderna os momentos de semeadura, colheita, agradecimento e celebração.

Para isso, o mês de agosto reúne condições adequadas pela sintonia com as antigas celebrações das colheitas (o Sabbat celta Lammas e o Blot nórdico Freyfaxi ou Erntefest, festejados no primeiro dia de agosto), como também por ser um momento oportuno para avaliar as realizações dos meses anteriores e os meios disponíveis ou necessários para a concretização de metas até o final do ano.

Faça, portanto, sua auto-avaliação, colha os grãos maduros dos seus esforços, arranque as ervas daninhas dos erros ou fracassos, cuide dos elementos invasores e das interferências em sua colheita e adube as plantas frágeis de seus sonhos e aspirações com a energia de suas esperanças e a força sustentadora e vitalizante da Mãe Terra.