O jarro de Pandora – maldição ou bênção?

“Ao abrir a pesada tampa do seu jarro, Pandora soltou todos os males que afligem a humanidade. Assustada com o seu gesto, ela o fechou rapidamente, deixando aprisionada somente a Esperança. Persuadida a libertá-la, Pandora abriu novamente o jarro; foi assim que a esperança saiu voando para aliviar os sofrimentos dos homens”.
Theogonia – Hesíodo 700 BC


Mirella Faur

O mito descrito pelo historiador grego Hesíodo relata a criação de Pandora como o castigo dado à humanidade pelo Zeus, enfurecido com o gesto de Prometheus que tinha roubado dos deuses o fogo para dá-lo aos homens.

Zeus pediu a Hefáisto, o deus ferreiro, para misturar água e terra e modelar uma linda imagem de mulher, a qual deu voz e vida. Athena a vestiu, colocou-lhe um cinto bordado, cobriu-lhe a cabeça com um véu e coroou-a com uma guirlanda de flores e uma coroa de ouro. Ensinou-lhe depois como tecer e bordar. Afrodite, a deusa dourada deu-lhe encanto e o doce veneno da sedução, enquanto as Cárites (as Graças) deram-lhe graça e suavidade. Somente Hermes lhe deu atributos racionais, uma mente ardilosa e o dom de enganar. E Zeus nomeou-a Pandora e pediu a Hermes que a levasse a Epimetheus, o irmão bobo de Prometheus. Apesar de ter sido avisado por Prometheus (cujo nome significava “precognição”) para não receber nenhum presente de Zeus, Epimetheus (sinônimo de compreensão retardada) aceitou Pandora e por ela se apaixonou. Mas em lugar de dar-lhe felicidade, ela decidiu abrir o jarro e espalhou discórdia, doença, velhice e morte sobre a terra.

A semelhança deste mito com o de Eva é espantosa. Em ambos os mitos atribuíram-se a uma mulher a origem da desgraça, dos males e da mortalidade dos seres humanos. Analisando com mais atenção a lenda bíblica de Eva, percebe-se que uma das fontes que a inspiraram foi o mito pagão grego de Pandora. A sustentação filosófica para a luta entre o bem e o mal foi dada por Pitágoras, em cuja visão o mundo tinha sido formado por dez princípios, cada um constituído por duas forças contraditórias – luz e escuridão, masculino e feminino, movimento e inércia, reto e curvo, direita e esquerda, par e impar.

As qualidades positivas foram atribuídas ao princípio masculino enquanto a escuridão, a maldade, os aspectos tortuosos, ocultos e indefinidos foram considerados atributos femininos. Devido à desobediência da mulher (não comer da árvore do conhecimento; não abrir o jarro misterioso) a humanidade é castigada, ora por Yahve, ora por Zeus. E a existência da mulher passa a ser uma permanente lembrança do Paraíso perdido por sua causa, por ter desobedecido às ordens de Deus.

Retrocedendo aos mitos anteriores a essas versões patriarcais e analisando as raízes etimológicas podemos encontrar a origem verdadeira da sua história. Pan em grego significa “tudo”, Dora representa dons, e Pandora era o titulo da Mãe Doadora, Pandora Anesidora, aquela que detinha e distribuía todos os dons. O próprio ato da criação – um atributo exclusivamente feminino – foi transferido a Zeus e Hefaisto, que apesar de ser ferreiro, usou terra e água (elementos femininos primordiais na criação) para modelar “uma linda mulher”. Às deusas couberam somente as tarefas de vestir, embelezar e educar Pandora, mas foi o deus Hermes que lhe deu a capacidade mental (distorcida, claro, por ela ser mulher).

A definição original de “jarro” (pithos em grego) foi deturpada por Erasmo, escritor humanista cristão do século XV, que o transformou em pyxis, “caixa” (termo pejorativo para os órgãos sexuais femininos), banalizando assim o vaso primordial de criação, o ventre escuro e misterioso da Mãe Terra, doador da vida, porém também o receptáculo do corpo após a morte.

A própria idéia do jarro precede a versão do Hesíodo, aparecendo em um mito mais antigo que fala sobre uma mulher que tinha dois jarros fechados – um contendo o bem e o outro, o mal – que ela oferecia aos homens, deixando que eles escolhessem. A caixa aparece também no mito de Psique e Cupido, em que Psique não resiste à curiosidade e abre uma caixa fechada, desmaiando em seguida até ser socorrida por Cupido.

A inversão e distorção dos antigos mitos e valores das tradições centradas na Deusa foram usadas pelas sociedades e religiões patriarcais como um embasamento filosófico e moral para denegrir e diminuir a mulher. No século IV AD, João Crisóstomo, patriarca, orador e historiador cristão, define a mulher como “um mal necessário, uma tentação natural, uma calamidade desejável, um perigo doméstico, uma ameaça para a amizade, uma punição inevitável, uma criação má da natureza pintada com lindas cores”.

Neste momento em que presenciamos o ressurgimento de novos valores e manifestações do eterno e sagrado feminino, conhecer os mitos clássicos não é o suficiente. Precisamos ir além, voltando no tempo e no espaço para as verdades originais que foram desvirtuadas, invertidas ou escamoteadas nas versões patriarcais.
A mulher atual somente poderá trazer à tona a ampla gama dos seus recursos criativos e expressivos se reconhecer a riqueza dos dons que a Mãe Doadora lhe conferiu e que estão aguardando sua manifestação escondidos no misterioso jarro de Pandora. Desta maneira, ela se tornará responsável não mais pela difusão dos males inerentes à condição humana, mas por tornar a sua vida e a dos seus semelhantes mais belas, mais plenas e mais felizes.