O chamado de Gaia

Mirella Faur (*)

Hoje, mais do que nunca, é bom lembrarmos as comoventes e famosas palavras do Chefe Seattle em sua memorável carta escrita em 1852 ao Presidente dos Estados Unidos. Dizia ele:
“Somos parte da Terra e Ela é parte de nós. A Terra não pertence ao homem, o homem é que pertence à Terra. Todas as coisas são interligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a teia da vida, é apenas um de seus fios. O que quer que ele faça à teia, fará a si mesmo.”

Neste século e meio que transcorreu desde esse profético alerta, a Mãe Terra foi levada aos limites da sua resistência. O caos da nossa civilização atual é a conseqüência do desgaste da ordem patriarcal, que nos seus 8 mil anos da supremacia dos sistemas simbólicos masculinos provocou maior destruição da Natureza, se comparada aos outros dois milhões de anos que os antecederam.

São mais do que conhecidos os problemas que estamos presenciando, que teremos de enfrentar e solucionar antes de esgotar completamente os recursos da Terra e comprometer o futuro das gerações vindouras. Assuntos como a superpopulação e a fome, o aquecimento global, a destruição da camada de ozônio, a diminuição das calotas polares, as crises de energia, a escassez da água, o desmatamento acelerado, a crescente poluição dos rios e do solo, a contaminação do ar, o envenenamento da flora e fauna, a exterminação de espécies de seres vivos – são mais do que divulgados e conhecidos.

O equilíbrio físico, químico, biológico e ecológico do planeta é colocado em risco ascendente e a destruição da biosfera está se tornando uma realidade, ameaçando a sobrevivência da humanidade. Isso sem contar com os problemas sociais, o descuido com as crianças, pobres, idosos, mulheres e doentes, o aumento da violência e da miséria, os conflitos entre pessoas e nações, a selvagem competição entre os homens. Essa destruição globalizada é conseqüência do predomínio das sociedades, culturas e valores patriarcais que instauraram a dominação do homem sobre a Natureza e sobre a mulher.

Desde a mais remota antiguidade, a Natureza – e principalmente a Terra - era considerada como a expressão máxima do princípio sagrado feminino, Deusa e Mãe dadivosa, criadora, geradora, nutridora e mantenedora da vida e de todos os seres da criação. As antigas religiões perceberam a íntima conexão existente entre a Deusa, a Terra e a mulher e interpretavam o mistério da vida e da morte como um ciclo natural e eterno, visível nos ritmos e padrões cósmicos, na dança das estações e na Roda das reencarnações.

Segundo o historiador e escritor romêno Mircea Eliade, o mito do “eterno retorno” (título de um dos seus livros) era personificado no ciclo biológico de todas as mulheres, em cada gravidez que produzia uma nova vida, em cada menstruação que a negava. A Terra reproduzia no seu relevo as formas femininas e o corpo da mulher era honrado e respeitado pelos povos antigos como um receptáculo sagrado. Identificando a mulher com a Terra e honrando esta como uma divindade, nossos ancestrais concluíram que o poder divino que presidia a criação, que nutria e sustentava a vida, era feminino.
Segundo os mais recentes estudos de antropologia, arqueologia e sociologia, concluiu-se que “Deus era mulher” durante pelo menos os últimos 30 mil anos, conforme atestam as milhares de estatuetas e gravuras representando mulheres grávidas, dando a luz ou amamentando, oriundas dos períodos paleolítico e neolítico. Foram encontradas em grutas, locais sagrados ou túmulos, junto com ossadas pintadas de vermelho e em posição fetal, para assim representar o seu renascimento, do sagrado sangue da Mãe Terra.

A Fonte Criadora nas culturas matrifocais era a Grande Mãe primordial, chamada por inúmeros nomes e venerada pela multiplicidade dos seus aspectos e atributos como a Mãe Terra, a Senhora dos animais, vegetais e frutos, a Mãe das montanhas, dos rios e da chuva, das pedras e das colheitas, do Sol, da Lua e das estrelas, da noite e do dia, das nuvens, dos raios e dos ventos, Padroeira da vida e Regente de todos os seres vivos, como vemos nesta canção nativa da Colômbia: “A Mãe das Canções”, a mãe de toda a semente, gerou a todos nós no início.Ela é a mãe de todas as raças dos homens e de todas as tribos.

Ela é a mãe do trovão, a mãe dos rios e da chuva, a mãe das árvores, a mãe de todas as coisas. Ela é a mãe das canções e das danças. Ela é a mãe do mundo e de todas as velhas irmãs pedras. Ela é a mãe dos frutos da terra, dos animais e de toda a Via Láctea. Ela, somente ela, é a mãe de todas as coisas, nossa única Mãe.

Mas Ela também era a Mãe Terrível, a Grande Fiandeira e Tecelã, que tramava a vida humana, animal e vegetal, bem como os destinos do mundo na sua tessitura de luz e escuridão, começo, meio e fim, nascimento, vida e morte, como Senhora do Tempo e dos Destinos. A mudança dos ciclos e das estações, a ascensão e o declínio, o nascimento e a morte, a transformação e a renovação eram subordinados à onipotente vontade da Grande Mãe em um grande círculo, o verdadeiro Ouroboros Cósmico. Como “Mãe Negra” a Deusa é a própria Terra, que tudo acolhe e recolhe, em cuja escuridão e silêncio as coisas mortas se decompõem, para onde os mortos vão à espera de cura, repouso e regeneração.

O homem nascia do ventre da mulher (o portal da vida), concebido do seu sangue menstrual e alimentado com seu leite, e retornava para o ventre da Mãe Terra (o portal da morte) para aguardar o seu renascimento, na eterna Roda das encarnações. O ciclo da vida e morte era visto como a peregrinação da alma, da sua mãe terrena de volta à Fonte Criadora, a Grande Mãe.

As antigas sociedades tribais eram matrifocais, geocêntricas, pacifistas e igualitárias, agindo em parceria e igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres, em permanente contato e reverência à vida e à Natureza.Mas, com o passar do tempo vieram as invasões que mudaram o pacífico cenário do antigo mundo. Tribos nômades e conquistadores trouxeram consigo o “poder letal da espada”, que substituiu o ”poder doador de vida do cálice”.

Cultos de deuses guerreiros, senhores do céu, dos raios e trovões, das batalhas e conquistas se instauraram aos poucos em lugar da veneração à Terra, à Mãe Divina e à reverência dos seus poderes fertilizadores e mantenedores da vida. Sociedades e culturas patriarcais prevaleceram sobre a orientação matrifocal e geocêntrica, a violência e a supremacia dos mais fortes levando à criação de religiões e estados patrifocais, hierárquicos e dominadores.

Os mitos e as lendas foram revistas para refletir uma dualidade antes desconhecida: Sol e Céu opostos à Lua e Terra, luz à escuridão, o masculino ao feminino. Antes desta distorção de conceitos e valores tudo fazia parte da Grande Mãe, tudo tinha um aspecto positivo ou negativo, não se falava em Bem e Mal, dia ou noite, claro ou escuro, masculino ou feminino, pois os polos existiam em tudo e se complementavam e integravam harmoniosamente na totalidade da criação. Por ter sido decretado que a criação original tinha sido a obra de um Pai solitário, tudo que estava relacionado ou associado à Terra ou à mulher tornou-se sinônimo de impuro, maléfico, selvagem ou perigoso, devendo ser conquistado ou subjugado, o único dono digno sendo o homem, feito à semelhança do Criador.

Tanto a Natureza quanto a mulher poderiam ser dominadas e exploradas, em nome de leis injustas impostas em nome de um Deus masculino, que personificava a razão suprema e o poder absoluto que criava e governava o mundo. Em lugar de a terra pertencer a todos como antigamente, apareceu a propriedade particular, a supremacia dos mais fortes substituiu a divisão igualitária de bens, a competição, ganância e violência predominaram sobre os valores do convívio pacifico e de parceria, as guerras e a inferiorização da mulher tornaram-se coordenadas e regras da nova civilização.

Nestes momentos difíceis e incertos que presenciamos, em que paira sobre a Terra a possibilidade de sua destruição, precisamos relembrar os antigos valores ancestrais e regatar o respeito à vida e preservação da Terra, nossa Mãe primordial e nosso único lar. Somos todos filhos e filhas da Mãe Terra, formamos uma só unidade, complexa, variada e diversificada, mas em que não existe separação, pois somos totalmente dependentes da natureza que nos abriga, nutre e sustenta. Ao trocar os modelos naturais pelos mecanicistas a ciência nos afastou da nossa Mãe e origem verdadeira e em lugar da unidade surgiu a fragmentação. Porém, continuamos fazendo parte de Gaia, suas feridas são nossas também e ao destruirmos nosso habitat estaremos contribuindo para a nossa extinção.

No entanto, como reflexos da memória de Gaia, do seu potencial criativo, curador e regenerador, temos a responsabilidade e as possibilidades de curar os males por nós mesmos provocados. Como solução, surgiu no planeta um movimento de conscientização cuja missão é a ressacralização da Terra e da mulher. Chamado de “Consciência de Gaia” ou “Gaianismo” apareceu após a divulgação das imagens da Terra vista do espaço. Assim como os primeiros astronautas, pessoas do mundo inteiro contemplaram, maravilhadas, o lindo planeta azul, cuja beleza e vulnerabilidade tocou os corações de todos.

Percebendo-o como uma única estrutura complexa e variada, em que não se distinguiam diferenças entre raças e povos, pobres e ricos, homens e mulheres, manifestou-se a vontade de cuidar dele e a esperança de preservar suas riquezas, lembrando a sabedoria destas canções dos índios norte-americanos: “A Terra é nossa mãe, devemos cuidar dela” e “Somos um com o espírito da Terra”.

Em 1979, o cientista James Lovelock e a microbiologista Lynn Margulis lançaram a “Hipótese Gaia”, que afirma a interdependência de todas as formas de vida, considerando a Terra um sistema complexo, inteligente e auto-regulável, em que todos os seres, junto com o solo, os oceanos e a atmosfera formam um ser vivo. Gaia ou Gea (significando “terra grande”) era a deusa grega criadora e regente da Terra ( chamada de Tellus Mater pelos romanos, Pacha Mama pelos incas), representando a terra agreste ou cultivada, que não podia ser violentada ou depredada, pois iria se vingar através de furacões, inundações, terremotos, secas, geadas ou vulcões.

Ao escolher o nome de Gaia e considerar – novamente – a Terra como um ser vivo, a teoria científica expressou a mesma verdade que os antigos mitos postulavam. A hipótese de Lovelock e a “Consciência de Gaia” atuaram como catalisadores para a emergência de uma nova mentalidade e filosofia de vida (“ecosofia”), apontando a responsabilidade da humanidade em preservar o planeta, para a sua própria sobrevivência.

“Gaia está nos chamando” é um alerta que se manifesta de formas cada vez mais visíveis e perceptíveis; ela precisa de nossa participação para restabelecer sua homeostase, para curar suas feridas físicas e químicas, para elevar a freqüência vibratória da humanidade, evitando assim novas ações nocivas, destruições e agressões. Para isso, devemos restabelecer a nossa conexão atávica com a Terra e com todos os nossos irmãos da criação e usar os conhecimentos e meios tecnológicos para influenciar o meio ambiente de forma pacífica, benéfica e construtiva.

Porém, apenas as tecnologias modernas e sofisticadas não são suficientes para solucionar ou evitar as agressões ao delicado equilíbrio natural e à tessitura energética de Gaia. Precisamos desenvolver novos valores humanos que proporcionem a expansão da consciência, reconhecendo a sacralidade de todas as formas de vida, abolindo atitudes e atos violentos e as ações destrutivas motivadas por ganância e competição. Devemos buscar o nosso equilíbrio e a nossa paz interior para poder promover e conseguir a convivência pacifica entre pessoas e a natureza. Não podemos mudar o mundo de uma vez, mas pequenos atos de conservação, responsabilidade e cuidado com o Todo, que, ao se tornarem parte do nosso cotidiano, poderão levar à uma sinergia global e à modificação paulatina da egrégora planetária.

Para uma mudança global é necessário um acúmulo progressivo de ações individuais contínuas, sem desistir nem desanimar se os resultados não aparecerem de imediato. Devemos ter em mente as palavras do Dalai Lama: “A decisão sobre a preservação do meio ambiente deve vir do coração humano. O ponto central é ter um verdadeiro senso de responsabilidade universal, baseado em amor, compaixão e percepção clara”. Ou como disse Krishnamurti: “Somente há beleza e paz interior se você sente amor verdadeiro pelas pessoas e por tudo que existe na Terra. Com este amor vem um tremendo senso de consideração, paciência, responsabilidade e cuidado”.

Muito mais eficiente e benéfico do que o lema: ”salvar a Terra” é “cuidar da Terra”, seguindo a sabedoria nativa que mostra nossa responsabilidade em preservar a Terra e seus tesouros para as próximas sete gerações. Em lugar de “lutar pela paz” seria melhor “criar a paz”, dentro de nós e ao nosso redor. Somos partes do Todo e harmonizando o nosso ser iremos refletir esta harmonia para as nossas relações, ações e tudo o que nos cerca. Para colocar em prática este conceito de “cuidar da Terra” precisamos de uma nova filosofia de vida, baseada em novos valores e prioridades, que leve em consideração o bem estar e a interação do indivíduo, da comunidade e do planeta, em uma sinergia de respeito, idoneidade, parceria, solidariedade e paz.

1. No nível individual devemos cuidar do nosso ser, em todos os aspectos e planos (físico, psíquico, mental, emocional e espiritual). Como o corpo é a morada da nossa alma e o veículo que nos permite as experiências da jornada terrestre, somos responsáveis pelo seu bem estar e também pelos males e danos que lhe causamos. Cuidar do corpo significa um processo complexo envolvendo alimentação natural, repouso e atividade física, equilíbrio mental e emocional através de relaxamento e meditação, constante fortalecimento espiritual, seguindo um caminho ou práticas de autoconhecimento e transformação, o uso de métodos naturais de cura, abolir poluentes e “venenos” (internos e externos), praticar uma ”higiene mágica” (purificação da aura e dos ambientes, o controle dos pensamentos negativos e das emoções prejudiciais, a conscientização e libertação dos comportamentos nocivos).

No nível comportamental devemos colocar em prática novos conceitos, valores e prioridades em nosso benefício, dos nossos semelhantes e de Gaia. Empenhar-nos em diminuir os excessos e gastos (água, eletricidade, combustível, papel, comida), resistir aos apelos do consumismo e da propaganda, praticar a “simplicidade voluntária”, reciclar, recuperar, renovar, doar, não acumular. Não poluir, não destruir o meio ambiente, não desperdiçar os recursos de Gaia, preservar a biodiversidade, ser consciente dos seus atos e responsável pelas conseqüências. Levar uma vida natural, ecologicamente correta, sensibilizando outras pessoas a fazerem o mesmo. Policiar suas atitudes, livrando-se de palavras agressivas e atos violentos ou egoístas, praticando gestos de gentileza e bondade.

Criar um espaço e reservar um tempo para se conectar com as energias de Gaia, ouvir o seu chamado, perceber e seguir suas mensagens. Caminhar descalço, passar tempo ao ar livre, perceber qual dos elementos naturais está em excesso ou falta no seu ser e na sua vida. Compensá-los e equilibrar-se com visualizações ou meios físicos (o Sol, meditar olhando uma vela ou perto da fogueira, sentir a brisa, tomar banho de mar ou cachoeira, trabalhar com argila, usar ervas medicinais para sua cura). Procurar seu centramento e alinhamento energético com exercícios respiratórios e posturais, criar um altar ou ponto de poder para suas meditações, orações ou rituais. Conectar-se com os seres das outras dimensões e níveis de consciência, pedindo sua proteção e ajuda, sejam eles espíritos da natureza, ancestrais, mestres, guias, Devas, Orixás, Anjos ou Divindades. Orar, agradecer as dádivas recebidas, aceitar e compreender os desafios e lições dolorosas, sabendo que são etapas importantes para o seu crescimento.

Abençoar-se e abençoar os amigos e familiares, perdoar os inimigos, viver em paz consigo e com os outros, irradiar esta paz para o mundo. Para as mulheres é vital sua conexão com as fases lunares e ritmos cósmicos, o uso de métodos naturais de cura, a compreensão e celebração das transições e mudanças nos seus ciclos biológicos e pessoais. Reconhecer-se como Filhas de Gaia e resgatar os vínculos sagrados com a Mãe Terra são passos importantes que contribuem para o fortalecimento interior. Conscientizar-se da sacralidade dos seus corpos e do direito de impor suas necessidades e respeitar seus limites, não mais permitindo abusos ou violências, seja físicos, psicológicos ou morais. A mulher é mais receptiva às energias telúricas e cósmicas, sentindo de forma mais intensa as agressões cometidas contra a Terra e os seres vivos. Por isso, poderá se empenhar melhor no seu combate, assumindo maior responsabilidade e participação nos movimentos ecológicos, feministas ou da emergência da espiritualidade feminina.

2. No nível coletivo requer-se uma maneira mais amorosa, solidária e tolerante na interação e colaboração. Para isso, é necessário estar disponível para ouvir, compreender, auxiliar, aconselhar, de acordo com suas possibilidades pessoais, praticando a aceitação da diversidade e a tolerância às diferenças de crenças, opções e posturas individuais. Apoiar ações em benefício dos menos favorecidos, atividades filantrópicas ou comunitárias, participar em projetos ecológicos, de preservação do meio ambiente, educativos ou sociais, são iniciativas que, a longo prazo, com perseverança e paciência podem mudar a atual mentalidade de separatividade, elitismo e egoísmo. Praticar o “ativismo mágico”, ou seja aliar às ações rituais de reverência e gratidão à Gaia em suas múltiplas manifestações, “retribuindo” com pequenos gestos como plantar árvores, cuidar de animais abandonados, participar de campanhas contra a violência e a favor da paz, evitar queimadas, não se omitir, nem se isolar, alertar as pessoas sobre as coisas erradas, empenhar-se na divulgação dos conceitos de idoneidade, moral e ética, são tantos outros recursos que podem contribuir para a formação de uma nova mentalidade.

Uma excelente forma de cooperação e solidariedade é a criação dos círculos. O círculo é um padrão energético natural e fundamental, que coleciona, concentra e redireciona energias. Representa um espaço para falar com sinceridade, ouvir com compaixão, receber conforto e orientação, celebrar, cantar, dançar, interagir, buscar orientação ou apoio emocional ou espiritual, assumir compromisso consigo mesmo ou com os outros. Podem – ou não – ter uma filiação religiosa ou algum objetivo específico (espiritual, de estudo ou ensino, artístico, artesanal, recreativo). Os círculos podem ser formados nas casas particulares, em templos, igrejas, centros comunitários, algum lugar na natureza ou mesmo pela internet, funcionando como micro-comunidades, verdadeiros receptáculos de energia, cujo objetivo é distribuir ajuda, conhecimentos, apoio, luz, amor e paz para o mundo.

Neste momento global, social e planetário, as mulheres têm uma grande responsabilidade para contribuir à mudança dos paradigmas e conceitos relacionados ao habitual modo de viver e interagir com todas as formas de vida de Gaia. O sagrado feminino está reemergindo após milênios de repressão e negação, a Deusa Mãe é o símbolo atual e essencial para a cura da Terra e das mulheres e para o surgimento de uma espiritualidade centrada na Terra. O planeta precisa, para a sua sobrevivência, desenvolver qualidades e valores femininos. Os movimentos da espiritualidade feminina (como os que cultuam a Deusa, os grupos xamânicos, neopagãos, wicca, de ecofeminismo, “gaianismo”, ou o recém constituído Gather the Women (“juntar as mulheres”) não se constituem em religião organizada ou hierárquica, eles tem em comum a reverência à força vital imanente no mundo natural, manifestada como divindades ou seres da natureza e o resgate de práticas e celebrações ancestrais, cujo foco é o respeito à vida e a crença na sua interdependência e unidade.

3. No nível global a definição das diretrizes para uma nova estratégia de sustentabilidade da vida foi dada em 1991, na “Carta da Terra”:
- Construir uma sociedade sustentável.
- Respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos.
- Melhorar a qualidade da vida humana.
- Conservar a vitalidade e diversidade do planeta Terra.
- Permanecer nos limites da capacidade de suporte da Terra.- Modificar atitudes e práticas pessoais.
- Permitir que as comunidades cuidem do seu próprio meio ambiente.
- Gerar uma estrutura nacional para integrar desenvolvimento e conservação.
- Constituir uma aliança global.

Se colocarmos em prática esses princípios essenciais de cuidados para a preservação da Terra e se nos empenharmos para conviver de uma forma mais pacífica e fraterna, poderemos unir nossos corações em uma só esperança e orar pela Mãe Terra, como os essênios faziam:

Abençoado seja o filho da luz que conhece a sua mãe terra,
Pois é ela a doadora da vida.
Sabes que a tua mãe terra está em ti e tu estás nela.
Foi ela que te gerou e te deu a vida,
E te deu este corpo que um dia tu lhe devolverás.
Sabes que o sangue que corre nas tuas veias
Nasceu do sangue de tua mãe terra.
O sangue dela cai das nuvens, jorra do ventre dela
Borbulha nos riachos das montanhas,
Flui abundantemente nos rios das planícies.
Sabes que o ar que respiras nasce da respiração da tua mãe terra,
O alento dela é o azul-celeste das alturas do céu
E os sussurros das folhas da floresta.
Sabes que a dureza dos teus ossos foi criada dos ossos da tua mãe terra,
Sabes que a maciez da tua carne nasceu da carne da tua mãe terra.
A luz dos teus olhos, o alcance dos teus ouvidos
Nasceram das cores e dos sons da tua mãe terra
Que te rodeiam feito as ondas do mar cercando o peixinho
Como o ar tremelicante sustenta o pássaro
Em verdade te digo: tu és um com a tua mãe terra
Ela está em ti e tu estás nela
Dela tu nasceste, nela tu vives e para ela voltarás
Novamente.
Segue, portanto, as suas leis,
Pois teu alento é o alento dela,
Teu sangue o sangue dela,
Teus ossos os ossos dela,
Tua carne a carne dela,
Teus olhos e teus ouvidos são dela também.
Aquele que encontrou a paz na sua mãe terra
Não morrerá jamais.
Conhece esta paz na tua mente.
Deseja esta paz ao teu coração.
Realiza esta paz com o teu corpo.

(*) Palestra proferida no Festival Internacional da Paz de Florianópolis, em setembro de 2006.