Lucina, deusa, e Lucia, santa, as padroeiras da luz

Mirella Faur

Lucina - ou Lucetia - era a deusa luminosa dos sabinos (povo montanhês da Itália), reverenciada em um imponente templo (erguido na colina Esquiline em 735 a.C.) e representada como uma jovem cercada de luz, segurando nas mãos uma tocha e um prato de oferendas (patera). Posteriormente foi considerada um aspecto da deusa Juno e honrada como a padroeira dos partos por propiciar o ato de “dar à luz”. Com o passar do tempo, outro aspecto de Juno - Eileithia, cultuada em Creta - assumiu esta regência nos seus aspectos de Natio, padroeira dos nascimentos e Lucina, deusa da luz. O culto de uma deusa padroeira da luz solar é muito antigo, oriundo dos países nórdicos e bálticos, que celebravam no solstício de inverno o nascimento da criança solar e honravam sua parteira, a Mãe da Luz.

Apesar da destruição do seu antigo templo e de suas relíquias pelos fanáticos cristãos (que arrancaram os olhos de pedras preciosas da imagem e quebraram com marteladas a sua pesada estátua), não foi possível extinguir o culto da deusa Lucina. Como solução, a igreja católica transferiu a adoração do povo para uma figura cristã, Lucia ou Luzia, colocando um manto de castidade na imagem complexa da Deusa. Lucia foi considerada padroeira das doenças dos olhos e benfeitora dos pobres, a quem a santa teria lhes doado seus bens (uma clara alusão e incentivo aos fieis para fazerem doações à igreja).

As comemorações da deusa solar nos países nórdicos também foram substituídas pelas da Santa Lucia, festejada em 13 de dezembro, a data do solstício de inverno no antigo calendário Juliano. A comemoração de Lucia ou Luzia se espalhou pela Europa, tornando-se uma das santas medievais mais populares; ela era considerada virgem e mártir, uma jovem piedosa que preferiu arrancar seus lindos olhos a ceder aos avanços de um pretendente. Lucia aparecia vestida de branco e segurando seus olhos sobre um prato, antiga imagem da patera com oferendas (bolinhos) da deusa Lucina.

Seja deusa ou santa, o culto da padroeira dos partos continuou durante séculos, sendo também invocada nas bênçãos dos recém nascidos e na cura das mulheres. Na Itália as curandeiras de Toscana usaram até o século XIX um dos antigos encantamentos da Deusa, uma guirlanda de galhos de arruda com fitas vermelhas contra mau-olhado e benziam as crianças e os doentes com água impregnada de energia solar. Até hoje na Itália e Sicilia são feitas procissões com tochas e velas (lembrando a antiga lenda da Doadora da Luz) e compartilhados os biscotti - que reproduzem os olhos da santa - e os arancine, bolinhos dourados de batatas ou arroz e coloridos com açafrão, para lembrar o Sol. Em Palermo um prato tradicional das festas de Lucia é cuccia, preparado com trigo em grão, mel, açafrão e ricota, enquanto nos países nórdicos confeccionam-se bolos como “rodas douradas” ou bolinhos “olhos de gato”, encantamentos para atrair a abundância e as bênçãos da deusa solar.

Na Suécia, a celebração atual de Santa Lucia preserva elementos tradicionais e antigos e reveste-se de alegria por reverenciar e prenunciar o aumento da luz solar, tão desejada após os longos meses de inverno. No dia 13 de dezembro, as filhas mais jovens chamadas Lussibruden - noivas da luz - acordam de madrugada e preparam um desjejum especial para os familiares. Elas se vestem de branco e usam uma coroa de folhas de azevinho, fitas vermelhas, com 4, 7 ou 9 velas. Passando de um quarto para outro elas oferecem os tradicionais Lussekatter (“gatos de luz da Lucia”), bolinhos típicos coloridos com açafrão, biscoitos especiais de gengibre e glogg, uma bebida quente com vinho e especiarias. No decorrer do dia nas ruas tem procissões com moças vestidas de noivas, com purpurina dourada nos cabelos e rapazes com camisas brancas e chapéus salpicados de estrelas prateadas, enquanto outros personificam trolls e anões. Esse cortejo acompanha uma moça representando a Santa Lucia, que usa a coroa com oito velas representando a Roda do Ano e que distribui presentes para a multidão.

O renascimento do Sol no solstício de inverno era associado ao processo de vida/morte/renascimento e simbolizado no uso de coníferas (árvores sempre verdes) decoradas com luzes. Antigamente, cada família possuía uma árvore a quem davam presentes e pediam abundância e boa sorte. No topo da árvore colocava-se a representação da deusa solar, substituída depois por um anjo ou pássaro dourado. Para “ajudar” o retorno do Sol, neste dia faziam-se procissões com tochas, danças circulares que reproduziam a roda solar e se pediam bênçãos para o novo ano, que se iniciava com o retorno do Sol, renascido no auge da escuridão, na noite mais longa e fria do ano.

Mesmo vivendo no hemisfério Sul e seguindo outro calendário e religião, em que a antiga e sagrada celebração do solstício foi esquecida e substituída por profanas e consumistas festas natalinas, podemos reservar alguns momentos e refletir sobre a expressão da luz, a nossa própria e a que estamos buscando e celebrando. Após identificar o que obstrui, diminui ou obscurece o brilho genuíno da nossa individualidade, podemos acender uma vela e, olhando fixamente para sua chama, meditar e invocar a deusa Lucina. Com reverência e devoção Lhe pediremos visão clara, assertividade, coragem, segurança, proteção e a expressão correta do nosso poder e brilho pessoal, em todas as circunstâncias e situações, porém sem tentar ignorar ou ofuscar a luz alheia.