Kwanzaa, uma celebração diferente para o fim do ano

Mirella Faur

Em 1966, o antropólogo americano Dr. Maulena Karenga criou Kwanzaa, uma celebração natalina centrada em valores culturais africanos, como tentativa de escapar dos aspectos consumistas e comerciais que tomaram conta do verdadeiro significado do Natal, adaptação cristã das antigas comemorações pagãs do solstício de inverno no hemisfério Norte. Kwanzaa era uma antiga comemoração africana em que se cultuavam os 7 princípios comunitários ancestrais, e cujo centro festivo das reuniões eram as crianças e a troca de presentes simples, criados pelos próprios participantes.

Aos poucos, pessoas de outras religiões e nacionalidades foram aderindo a este costume e adotando os princípios e procedimentos de Kwanzaa, para encontrar um simbolismo mais profundo e espiritual desta data e reforçar os laços familiares e comunitários. Assim Kwanzaa se tornou uma festividade multi-étnica, em franca ascensão e que mobiliza anualmente em torno de 20 milhões de descendentes ou simpatizantes do legado cultural africano. Na língua swahili, Kwanzaa significa “primeiros frutos” e era um antigo festival de colheita das tribos do Leste africano. Sem interferir, divergir ou destoar das práticas ou crenças variadas dos participantes, Kwanzaa representa uma oportunidade para unir pessoas de caminhos espirituais diferentes em uma celebração comunitária da vida e da união de pessoas.

A celebração é baseada no reconhecimento, discussão e assimilação de sete princípios e símbolos que representam conceitos, valores, deveres e objetivos intrínsecos ao povo africano, mas que podem ser adotados como metas por toda a humanidade, promovendo assim uma nova mentalidade que honre a sabedoria ancestral. O número sete é sagrado e representa os dias da duração da antiga festa da colheita, que começa na noite do dia 26 de dezembro e se estende até 1º de janeiro.

Para a comemoração são necessárias poucas coisas: um castiçal para 7 velas (3 verdes, 3 vermelhas, 1 preta ou marrom), uma esteira de palha para cobrir a mesa, um cálice ou taça, vinho ou suco de uvas, uma cesta com frutas e espigas de milho, além de objetos, enfeites e roupas com motivos africanos. Os participantes se reúnem ao redor da mesa, mãos dadas, oram em silêncio, depois sentam e meditam sobre o princípio do dia, previamente divulgado. O dirigente ou a pessoa mais idosa acende a vela, começando pela preta, no primeiro dia, e seguindo uma seqüência em que se alternam as cores, até acender a última no sétimo dia. No final da reunião as pessoas brindam oferecendo o primeiro gole para os ancestrais,derramando um pouco da bebida na terra ou no chão. Podem seguir cânticos, danças, práticas para reforçar os vínculos entre os jovens e seus familiares e no final confraterniza-se com um prato típico africano.

Os sete princípios são resumidos a seguir:
1.Umoja – a unidade da família, comunidade, entre os povos, nações, raças e religiões.
2.Kujichagulla – a auto-determinação, pensar e agir por si mesmo assumindo a responsabilidade e as conseqüências das escolhas e ações.
3.Ujima – trabalho e responsabilidade coletiva, colaborar para ajudar os outros viverem melhor e resolverem seus problemas.
4.Ujama – economia cooperativa, solidariedade e ajuda para criar e manter negócios e
oportunidades para todos.
5.Nia – propósito – cuidar além dos interesses pessoais do bem estar geral e coletivo.
6.Kuumba – criatividade – usar todos os recursos mentais e manuais para criar novas coisas e melhorar a comunidade.
7.Imani – confiança – acreditar e confiar em si mesmo, nos familiares, dirigentes, mestre espirituais e no futuro.

Na última noite de Kwanzaa, o primeiro dia do Ano Novo, oferece-se bebida aos ancestrais, colocando-a na terra e abrem-se os presentes para as crianças. Seguem danças, cantos, visualização e afirmação do sucesso de novos projetos e orações para as Sete Vibrações ou Forças Espirituais Originais, que na tradição ioruba - existente no Brasil - são os Orixás: Obatalá, Iemanjá, Oyá, Oxum, Xangô, Ogum e Elegbá.