Doze dias brancos, treze noites sagradas

Mirella Faur

A aproximação do final do ano encena o período mítico de transição do caos para a criação, encontrado em vários mitos. O intervalo entre o solstício de inverno e o Ano Novo era celebrado em várias culturas antigas do hemisfério Norte, desde a Babilônia, como “os doze dias brancos”, caracterizados pela ambigüidade, representando um conflito entre caos e ordem, bem e mal, fim e recomeço, festas e recolhimento.

Os romanos celebravam Saturnalia, festejos populares que invertiam as regras sociais, aboliam as leis morais e as diferenças de classe e enalteciam o lazer e o prazer. Após purificações, o último dia - 25 de dezembro - chamado Juvenalia, era dedicado às crianças, com brincadeiras e presentes, por elas representarem o potencial do novo ciclo.

Nos países nórdicos simbolizava-se a parada da Roda do Ano no solstício (quando por três dias o Sol parece que está “parado”), cessando o trabalho, retirando as rodas dos veículos e decorando-as com galhos de pinheiros e velas. Durante os ”doze dias” as deusas Holda, Berchta ou Perchta (as “Senhoras Brancas”) conduziam suas carruagens de vento e neve, envoltas em neblina branca, abençoando e ativando a fertilidade da terra, presenteando trabalhadores e punindo preguiçosos.

Lendas e contos de fada germânicos descrevem as Weisse Frauen como elfos vestidos de branco, criaturas lindas e encantadoras, que apareciam durante dias ensolarados, penteando seus longos cabelos dourados e conferindo riquezas aos merecedores.As “Senhoras Brancas” ou “Mulheres Elfo” são resquícios dos antigos arquétipos das deusas, que, por terem sido proibidos pelo cristianismo foram esquecidos, sobrevivendo apenas no folclore. Nos países saxões e eslavos, as últimas reminiscências das bênçãos antigas eram representadas por procissões (Perchtenlauf) entre Natal e Epifania, de pessoas com máscaras brancas e pretas, representando Perchten ou Perchta Baba (espíritos bons e maus), para atrair a sorte, afastar azares e despertar a terra.

Nos tempos antigos as mulheres não trabalhavam nos doze dias, mas depois podiam parar apenas no dia de Santa Luzia (13/12) e de Santa Catarina (25/12). Ambas as santas são versões cristãs de antigas deusas romanas. Lucina era a deusa da luz, que aparecia vestida de branco, com uma coroa de velas na cabeça, trazendo comida e calor para os pobres nos meses de inverno. Santa Catarina é a versão cristã de Feronia, a deusa do fogo e da energia vital, celebrada com procissões sobre brasas acesas, para purificação e cura.

Nas antigas tradições da Deusa os “doze dias” eram originariamente ”treze noites sagradas”, celebradas apenas por mulheres, com rituais iniciados na lua negra que antecedia o solstício ou na sua véspera, no auge da escuridão. Era um período mágico de recolhimento e fortalecimento feminino, comparável aos mistérios da Lua Negra, ao retiro nas Tendas Vermelhas, às horas misteriosas que antecedem o nascer do Sol, ao momento da morte ou do nascimento. Neste tempo mágico e poderoso “sementes” de novas possibilidades eram semeadas, no silêncio e na introspecção da escuridão.

Mesmo que o nosso apressado ritmo moderno e urbano não nos permite um dia de reclusão, podemos dedicar algumas horas para um curto retiro do mundo real. Apagar luzes, desligar telefones, ficar em silêncio e escuridão, meditando e orando, nos proporciona a atmosfera mágica para refletir sobre o ano que passou e traçar planos futuros. Após rever o passado e descartar aquilo que não nos serve mais, podemos consultar um oráculo e preparar uma lista dos nossos projetos, desejos e aspirações para nossa vida afetiva, profissional e espiritual. No antigo México as mulheres preparavam nesta data miniaturas daquilo que esperavam realizar, criando o “altar dos desejos”, orando diariamente na sua frente. Podemos nos inspirar neste antigo costume e criar mandalas com sementes, contas, conchas, penas, desenhos, colagens, argila.

Para representar o limiar de um ciclo para outro pode ser escolhida outra data em lugar do tradicional Ano Novo, como a Lua negra ou cheia de dezembro, o solstício, o primeiro dia de janeiro, ou a antiga comemoração da deusa Befana (5 de janeiro, atual Epifania), que marcava a última noite das antigas Treze Noites Sagradas.

O importante é reconhecer e honrar o giro da Roda do Ano, na sua dimensão sagrada, agradecendo e se despedindo das realizações, aprendizados, alegrias e dores do ciclo que se finalizou, visualizando e agradecendo antecipadamente a manifestação dos novos projetos, possibilidades, desejos e idéias do ano que se inicia.