Mãe Terra, Avó Lua

*publicada na revista Permacultura

Mulheres descobrem os absorventes ecológicos
e resgatam costume ancestral de doar sangue menstrual para a terra

Por Nina Rodrigues (*)

Não sou do tempo das toalhinhas de flanela. Soube delas pela minha avó materna, que nunca usou os absorventes industrializados, descartáveis e poluentes. Agora, me chega às mãos um artefato para ser usado durante a lua, que está sendo produzido em pequena escala no Brasil, inspirado no modelo utilizado pelas nossas ancestrais, mas com design moderno.
Feito de tecido 100% algodão, os chamados aBIOssorventes são anti-alérgicos e reutilizáveis. Tão higiênicos quanto uma calcinha, devem ser lavados com o mesmo cuidado. Duram entre 4 e 6 anos e absorvem muito bem o fluxo menstrual.
Os aBIOssorventes são compostos por um envelope com o mesmo formato de um absorvente com abas e por duas camadas internas, removíveis, de pano. O envelope é bem fininho (0,5cm) e o que vai deixá-lo com maior ou menor capacidade de absorção é a quantidade de camadas internas colocada dentro da capa.

Relembrar é tornar vivo novamente
A minha experiência com os aBIOssorventes nos últimos meses trouxe-me a possibilidade de estar mais consciente durante o meu ciclo menstrual e de me reconectar com a sacralidade atribuída à função fisiológica do sangramento mensal pelas tradições antigas. Notei que os famigerados sintomas da TPM diminuíram no segundo mês de uso, que meus sonhos foram enriquecidos com imagens femininas de grande poder revelador e que minha sensibilidade psíquica, normalmente acentuada durante a lua, foi ainda mais ampliada.
Contei tudo isso para uma amiga, a escritora Mirella Faur, que desenvolve um trabalho pioneiro no Brasil na divulgação e vivência dos princípios e práticas da sacralidade feminina. Mirella tem também formação em Farmácia e Química. Em seu livro “O Legado da Deusa – Ritos de passagem para mulheres”, ela conta que as antigas sociedades da Deusa consideravam que, além de rico em nutrientes, o sangue menstrual é detentor de potência mágica.
Nas palavras da escritora Brooke Medicine Eagle, citada por Mirella, “o sangue menstrual é extremamente nutridor e bioenergizador. Colocado nas plantas, elas tornam-se viçosas e saudáveis. Nas cerimônias nativas de plantio, as mulheres sentavam-se sobre a terra recém-arada e ofereciam seu sangue. Se as mulheres modernas recriam estas cerimônias antigas, elas vão renovar a terra desgastada e reforçar seus laços com a Natureza”.
Portanto, a prática sugerida pela fabricante dos aBIOssorventes, Diana Hirsch, de regar as plantas com o sangue que escorre dos aBIOssorventes durante a lavagem é, na verdade, um costume ancestral que fazia parte do ritual coletivo criado pelas mulheres para celebrar os mistérios do seu sangue.

A lua vermelha da menstruação
Nadia McLeod, coordenadora do site australiano sobre menstruação (www.menstruation.com.au), nos lembra que o ciclo menstrual é um grande presente em termos de flexibilidade, regeneração e criatividade. “É um instrumento poderoso para se viver autenticamente, com responsabilidade e consciência”.
Para Mirella Faur, o trabalho com mulheres mostrou que oferecer o sangue à terra desperta o sentimento de gratidão pela vida, a conexão com todas as suas manifestações e o respeito pela conservação de tudo quanto é vivo. “A mulher não mais se sente separada ou isolada da Natureza, ela interage com ela de uma maneira profunda e comovente, nutrindo o solo com seu sangue rico em hormônios e expressando assim sua gratidão pelo dom da vida”.

O fio invisível da esperança
Deixar de lado os absorventes descartáveis traz, portanto, muitos benefícios para nós, mulheres, e para o planeta. Ao mesmo tempo em que resguardamos nossas partes genitais da poluição com os agentes químicos que causam câncer de mama e deficiência imunológica, entre tantos outros males, contribuímos para a saúde do próprio bolso: enquanto um pacote de absorventes populares custa R$0,80 e os mais caros ultrapassam os R$3,00, o aBIOssorvente com um envelope e duas camadas internas custa R$5,00 e reintegra-se à natureza em menos de um ano. Os descartáveis, ao contrário, não se degradam, viram macro moléculas.
A idéia de lavar nossos aBIOssorventes e reutilizá-los na próxima lua é uma chance de interiorização e cultivo da feminilidade. Sugere-me o começo dos tempos em que a herança patriarcal do temor ao sangue menstrual dará lugar à reverência aos mistérios do sangue.

(*)Nina Rodrigues é jornalista em Brasília. (ninacrodrigues@yahoo.com.br).