O Mito de Gerda e Frey

Mirella Faur

As gigantas são descritas nos mitos nórdicos como lindas e atraentes mulheres, corajosas e dotadas de poderes mágicos. Em razão de conhecerem o “wyrd” (o destino), algumas delas foram cultuadas com fervor mesmo depois da cristianização. A relação entre deuses e gigantes e seus eternos combates, pode ser vista como uma alegoria da conquista e da submissão da sociedade e dos valores matrifocais e geocêntricos pelos povos e deuses patriarcais e androcêntricos. Na Tradição Nórdica, a Terra era reverenciada como uma energia feminina, porém sempre disputada e conquistada, segundo contam todos os mitos que exaltam a vitória dos deuses sobre os gigantes e seu desejo pelas gigantas, cobiçadas por sua beleza, força física ou poder mágico. Muitas se tornaram amantes ou esposas dos deuses e algumas conquistaram seu status divino graças a essas alianças. Os deuses jamais subjugavam ou maltratavam as gigantas. Pelo contrário, elas eram respeitadas, desejadas e adoradas, e seus conselhos e auxílio eram muito valorizados.

Gerda (Gerd, Gerth, Gerdi) era filha dos gigantes Gymir e Aurboda e conhecida pela sua radiante beleza, pois quando caminhava, deixava um rastro de fagulhas e quando levantava seus braços irradiava uma luz brilhante sobre o céu, o mar e todos os mundos ao redor. A principal característica de Gerda era sua maneira reservada de se comportar e a sua firme recusa em se deixar coagir ou comprar com presentes. Como seu nome é também associado a local cercado, templo, a sua determinação em não ceder mostra o recolhimento no seu próprio espaço sagrado, simbolizando, assim, a preservação do self. Como giganta, Gerda tinha o potencial de manifestação do poder primal, caótico e destrutivo, que ela controlava e continha com maestria e domínio. Gerda não se deixava governar por impulsos e paixões, pois sabia como dominar o caos e por isso ensinava com o seu exemplo, o respeito e a manutenção dos limites. Apesar de pouco estudada e conhecida, Gerda pode representar um arquétipo do Sagrado Feminino para orientar na manutenção da integridade feminina, no fortalecimento da autoestima, na lealdade aos próprios valores e no recolhimento interior.

Frey (Freyr, Frodhi, Fro, Yngvi ou Ing), era “O Senhor”, “O Fértil”, filho de Nerthus e Njord, irmão gêmeo de Freyja e regente de Alfheim, o reino dos elfos claros, responsáveis pelo crescimento e florescimento da vegetação. Frey era deus da fertilidade, da abundância e da paz, também chamado de “O Senhor da Luz”, tendo uma simbologia solar. Ele era extremamente benéfico para a Natureza e a humanidade, sendo invocado para trazer tempo bom, calor, fertilidade, prosperidade e paz. Possuía um tesouro inestimável, uma espada flamejante que desferia golpes apenas com comandos de voz, mas ele a entregou para Gerda como dote para que ela aceitasse casar-se com ele. Frey era cultuado com procissões anuais, sua estátua sendo levada em uma carruagem para abençoar os campos, os animais e as pessoas. Em seus templos, não era permitida a entrada de homens armados e, durante as procissões, todas as batalhas e hostilidades deviam ser interrompidas. Do culto de Frey faziam parte os rituais de fertilidade, cujo objetivo era despertar a terra e incentivar fartas colheitas e a procriação dos animais.

O grande destaque da vida de Frey foi seu amor exaltado por Gerda, a linda filha do gigante Gymir. Durante uma das peregrinações de Odin pelos mundos, Frey aproveitou a ausência e sentou-se no seu trono – Hlidskjalf – de onde sua vista alcançava todos os recantos e esconderijos dos nove mundos de Yggdrasil. Perscrutando Jötunheim, o reino dos gigantes, Frey avistou uma linda donzela, que irradiava uma luz dourada ao seu redor e era tão bela e encantadora, que ele ficou perdidamente apaixonado. Sua paixão era tão avassaladora que ficou “doente de amor”, pensando incessantemente nos braços resplandecentes de Gerda. Confessou seu amor e a firme intenção de casar com ela ao seu pai Njord e o pai, sabendo que era filha de gigantes, incumbiu o fiel auxiliar de Frey a persuadi-la para aceitar o casamento. Skirnir, o assistente de Frey, foi procurar a jovem giganta e pediu-lhe que se casasse com seu amo, mas Gerda recusou terminantemente o pedido. Skirnir tentou convencê-la oferecendo-lhe uma dúzia de maçãs douradas da juventude guardadas pela deusa Idunna, depois o anel mágico Draupnir, um dos tesouros dos deuses Aesir, mas em vão, pois Gerda não queria se casar com um deus, mesmo sendo ele o belo e bondoso Frey.

Devido aos fracassos dos pedidos e dos presentes recusados por Gerda e preocupado com o estado de tristeza e inércia de Frey, Skirnir passou às ameaças, primeiro de violência física, e depois, do uso de encantamentos rúnicos. Ele ameaçou transformar Gerda em uma mulher feia, velha e devassa, obrigada a se casar com um gigante horrendo e com três cabeças, vivendo perto da entrada dos mortos no reino de Hel. Antes que Skirnir riscasse as runas de maldição, Gerda cedeu aterrorizada com os sombrios feitiços, mas pediu em troca um prazo de nove noites, a espada mágica e o cavalo de Frey, que ela entregou depois ao seu pai, primo do gigante Surt, que os usou no combate final de Ragnarök, lutando contra os deuses.

Frey conseguiu realizar o seu sonho de amor, mas perdeu a espada flamejante e o cavalo, o que o levou a lutar desarmado no Ragnarök contra os gigantes de fogo, portando apenas chifres de cervo, sendo por isso derrotado. A derrota possibilitou aos gigantes destruírem os Nove Mundos de Yggdrasil, conduzidos pelo triunfante Surt.

Antes de se casar, a giganta Gerda habitava uma casa simples de madeira, cercada de montanhas, em Jötunheim, de onde saiu para morar no faustoso palácio de Frey em Alfheim, adquirindo, pelo casamento, o status de deusa. Seu nome era associado com a terra, os lugares sagrados e os campos, e ela casou no bosque frondoso, onde estava latente o potencial criador da vegetação. O seu casamento foi a representação metafórica da união sagrada entre as forças geradoras celestes e a energia produtora da terra, do casamento sagrado entre o deus da fertilidade e a deusa da terra. Simbolizava-se assim o ciclo sazonal anual: a transformação da terra congelada e árida pelos rigores invernais sendo aquecida pelos raios solares e desabrochando na primavera. Este evento era celebrado anualmente no hemisfério norte, com o Sabbat celta Beltane e as comemorações nórdicas e teutônicas do dia 1º de maio (Maj fest).

A aparência radiante de Gerda, que iluminava o céu e o mar, e a presença de Skirnir, cujo apelido era “o brilhante”, sugerem uma conexão com a jornada diurna do Sol pelo céu, na carruagem dourada (puxada por dois cavalos e conduzida pela deusa Sunna) e a sua travessia noturna no barco conduzido por um peixe pelo mundo subterrâneo. O rito do casamento sagrado era uma exemplificação do eterno ciclo anual, da transformação da terra congelada pelo desabrochar da vegetação na primavera. O calor dos raios solares derretia o gelo e permitia o renascimento da Natureza, da mesma forma que o desejo ardente de Frey e a insistência de Skirnir derreteram a frieza de Gerda. Skirnir pode ser visto como a força dos raios solares que aqueceu a terra congelada nos meses de inverno (simbolismo das nove noites de espera) e Frey representa o vigor da fertilidade, que despertava o potencial criador da vegetação.

Visto sob outro ângulo, esse mito descreve a eterna luta entre deuses e gigantes, em que os deuses vencem, conseguem vantagens ou auxílio através das gigantas. Nesse caso, a giganta cobiçada por um deus foi conquistada através da astúcia e das ameaças, a conotação machista sendo suavizada pela presença do amor e da entrega de Frey, que não hesitou em abrir mão da sua espada e cavalo, símbolos preciosos e indispensáveis a qualquer guerreiro nórdico. Mesmo assim, é evidente a presença do conceito machista de conquistar a mulher à força ou pela astúcia, sem respeitar sua vontade.

A deusa Gerda pode ser invocada nas situações em que é preciso vencer a oposição ou a resistência de pessoas ou de circunstâncias e para ativar e reforçar novos projetos, bem como para aumentar a sensualidade e o poder de sedução. Como protetora das mulheres solteiras, Gerda lhes recomenda o respeito pela própria sacralidade feminina, para que assim abrissem seu “templo” apenas na ocasião própria, para o parceiro certo e com a necessária observação, avaliação e precaução. A autopreservação é uma qualidade importante que é conferida por Gerda àquelas que dela precisam, seja como proteção nas práticas mágicas e espirituais, seja nos relacionamentos familiares e afetivos. Ela protege contra a falsidade, as ilusões e as armadilhas emocionais ou sensoriais, evitando que as mulheres fiquem enfraquecidas pelas concessões ou submissões, recomendando-lhes a clara observação e a prudência nas escolhas e ações.

Gerda também ensina como fortalecer a hamingja (sorte, poder) pessoal e familiar e honrar os ancestrais, resgatando os vínculos com as energias sagradas da terra, dos ciclos e das estações, das pedras e das plantas. A sabedoria de Gerda recomenda paciência, autoestima e a reverência pela sacralidade dos espaços – seja o exterior (nas práticas espirituais), seja o interior (o templo do Eu Superior) -, onde deve ser procurado o silêncio e ouvido o sussurro da voz divina.