Sheela-na-Gig, guardiã celta do portal da vida e da morte

“Aqueles que enfrentam seus maiores medos, alcançam o domínio sobre a vida e a morte”.
The Sacred Whore. Maureen Concannon

“Eu abro a minha vulva para todos verem,
Eu a estico bem aberta, pois ela é o portal pelo qual todos entram para a vida.
Eu sou a abertura para este mundo, para os sábios e os ignorantes,
para os selvagens e os pacatos, para os corajosos e os mansos.
Eu sou a Anciã, Eu sou o portal da vida e lhe digo:
“entre pelo meu portal e abra-se, se tiver algo importante mostre, e assim todos podem ver”.

Goddess Oracle. Amy Sophia Marashinsky

Conhecida também como Sila na Geige, Sue ni Ghig, Sheelah ni Gig, Sheela-na- Gig era um arquétipo celta paradoxal e um tanto quanto nebuloso, representando o aspecto da Deusa como Mãe e Anciã. As suas esculturas figurativas foram encontradas na entrada de igrejas, castelos, portais, muralhas e edifícios na Irlanda (em maior número), Escócia e Grã-Bretanha; geralmente eram colocadas acima de portas, muros e janelas, supostamente para proteger estas aberturas contra os espíritos negativos. O nome sempre foi um enigma para os etimologistas por não se enquadrar nas línguas faladas nas ilhas britânicas e a sua descrição inclui elementos da deusa Cailleach, presente nos mitos irlandeses e escoceses.
Há pouca informação escrita a respeito das suas origens e muito do seu simbolismo foi perdido com a censura religiosa cristã, que ressaltou apenas a sua vulgaridade e obscenidade; devido à perseguição, muitas das suas imagens foram destruídas ou desfiguradas pelos fanáticos cristãos. As esculturas de Sheela na Gig retratam uma mulher velha, magra e nua, com tórax esquelético, seios pendentes e secos, a cabeça triangular e com pouco cabelo, a boca semi-aberta e mostrando os poucos dentes, agachada, com as pernas abertas e suas mãos puxando e expondo a sua vulva. Sheela era reverenciada como a “Guardiã do portal da vida e da morte”, a sua vulva – ou yoni- sendo a passagem para os mistérios da Deusa, assim como também é visto na tradição hindu, onde figuras parecidas com as de Sheela adornam a entrada dos templos. Os fiéis tocam na yoni da Deusa para ter sorte e receber sua proteção.
Apesar da rejeição acadêmica e religiosa, o simbolismo das estatuetas é complexo, indo além de representações da luxúria pecaminosa feminina e avisos contra os “pecados da carne”. Estudos e investigações comprovam a sua origem como vestígio de um culto pré-cristão de fertilidade ou da Deusa Mãe. Um antigo mito irlandês sobre a Deusa da Soberania relata a aparição na corte de um velho rei de uma feia anciã, que prometeu o domínio do reino àquele cavalheiro que fizesse sexo com ela. Todos recusaram, exceto um, que na noite de núpcias viu a bruxa se transformar em uma linda donzela, que lhe outorgou a coroa e fez a terra árida florescer. No folclore, se atribuíam às representações de Sheela o poder de afastar o mal e elas eram chamadas de Evil Eye Stones (“pedras contra mau olhado”); existia também uma crença de que os demônios podiam ser repelidos à vista de uma vulva de mulher.
Afirma-se que as imagens de Sheela foram talhadas na França e Espanha no século 11 e chegaram a Grã-Bretanha, Escócia e Irlanda no século 12; porém alguns achados e estudos antropológicos comprovam que elas são originárias de épocas muito mais antigas. Uma descoberta arqueológica rara é uma figura talhada em teixo (árvore sagrada celta), encontrada perto de uma colina usada para cerimônias do Sabbat Lammas e datada entre 1098-906 a.C. Infelizmente, muitas delas foram retiradas e destruídas nos séculos 18 e 19 d.C. A maior parte delas está atualmente nos museus e poucas permanecem esculpidas nas paredes das portas e janelas de igrejas ou castelos medievais. Algumas das figuras têm expressões misteriosas ou amedrontadoras, outras sorriem e apontam com as mãos para a sua vulva, tendo incisões, buracos, marcas e entalhes nos seus corpos. Muitas têm nomes locais associados ao lugar onde foram encontradas. Porém, todas têm como traço característico o corpo esquelético e a vulva exposta, indicando sua função como guardiãs da porta primordial, da passagem misteriosa entre a vida e a morte. Os escritos cristãos as consideram “feias, repelentes, imorais e licenciosas”, porém elas foram encontradas inexplicavelmente nos nichos e portais das igrejas, bem como símbolos de proteção sobre menires, muros medievais, monumentos e pontes.
Algumas dúvidas existem ainda em relação à sua existência: se elas eram vestígios da Deusa celta da criação e destruição, por que a igreja católica da Irlanda permitiu que elas continuassem como gárgulas em evidência nas igrejas e não as destruísse ou retirasse por completo? A arqueóloga e escritora Margaret Murray aponta a conexão entre Sheela e Baubo, a deusa grega representada como um corpo feminino sem cabeça e sem membros, seus genitais formando uma boca aberta e seus seios aparecendo como enormes olhos. Para devolver a alegria à deusa Deméter enlutada pela desaparição da sua filha Perséfone, Baubo levantou a saia e expôs sua vulva para fazer Deméter rir. A mesma cena aparece no mito japonês da deusa solar Amaterassu e da brincalhona Uzume. A palavra gig ou gigue significa “genitais femininos” e a escritora Barbara Walker interpretou o nome Sheela na Gig como “mulher vulva”. Sheela ou Sila significa “abrigo, escudo, origem, semente”; Gig também é “barco pequeno” e Gigh “cócoras”. Muitos barcos tem a forma de uma vulva e eles são um símbolo de “atravessar a água”, seja no nascimento físico, seja na viagem espiritual para o Outro Mundo.
Na interpretação metafísica, Sheela é um aspecto da deusa Cailleach como a manifestação do “portal oculto que se abre nos tempos e locais das transições”: alvorada/crepúsculo, terra/mar, nascimento/morte, Beltane/Samhain. Ela aparece quando as energias opostas se encontram – no limite do céu, terra, mar, no centro sagrado do silêncio cerimonial, na meditação e oração quando a voz do espírito se faz ouvir, no “olho do furacão”, no momento em que a alma entra ou sai do corpo físico. Sheela é a condutora dos ritos de passagem e a guardiã do ciclo eterno de vida /morte/renascimento. Ela pode ser invocada para a limpeza das energias estagnadas, retirando a negatividade física, emocional e espiritual. Sheela pode remover as doenças físicas arraigadas nos órgãos femininos (útero, ovários, seios), limpar as feridas e ajuda lidar com lutos e perdas. Depois de um período de recolhimento, harmonização e silêncio, Sheela auxilia na expansão e na abertura, com segurança e confiança para iniciar um novo ciclo. Como guardiã do portal misterioso do “Outro Mundo”, Sheela orienta as escolhas “no mar das possibilidades” e assiste a manifestação no mundo das formas, se a buscadora estiver harmoniosamente alinhada e conectada com ela. Quando invocada nos rituais, ela proporciona a sensação de “estar entre os mundos”, o espaço energeticamente ativado, onde se pode escolher a direção ou a destinação a seguir.
A atuação e presença de Sheela são extremamente importantes como medidas de proteção dos limites entre o plano físico e o astral, evitando a passagem ou presença de seres espirituais dissonantes ou perturbadores. O seu domínio é na zona liminar – portal, centro, margens – onde é possível parar, silenciar, se centrar antes de atravessar. Equilibrar o entrelaçamento do nível físico e espiritual é o desafio e a missão de Sheela na Gig. Auxílios mágicos nesta tarefa são: galhos de bétula, salgueiro ou sorveria, pedras com orifícios naturais, seus animais sagrados (garça, cegonha), símbolos de proteção (triskelion, pentagrama, cruz celta, runas), sua imagem. As garças eram associadas com o mundo dos mortos e a cegonha aparece no folclore europeu “trazendo os bebês” para suas mães. Ambos os pássaros são guias e guardiões entre os mundos. Suas dádivas invocadas em rituais são: proteção, abertura (para a vida, criatividade), poder pessoal, acesso aos mistérios femininos, fertilidade (do corpo ou da mente), ritos de passagem (gravidez, parto, menopausa, morte, nascimento), visão psíquica (na bola de cristal, espelho, taça ou caldeirão com água), percepção sutil, meditação.
Sheela na Gig “sobreviveu” misteriosamente no cristianismo e sua colocação na entrada das igrejas era um aviso - não intencional dos padres – e a repetição de um costume ancestral de que “entrar no espaço sagrado do templo significava voltar para o ventre da Deusa, o caldeirão da morte e renascimento”, onde se encontrava o desafio da entrega, dissolução, transmutação e renovação. A vulva de Sheela era o portal materno para a entrada do espírito no mundo ancestral material e o da sua saída e volta para o plano espiritual. A Deusa tanto era a protetora e nutridora durante a vida, quanto a Ceifadora no final dela, que propiciava o descarte do supérfluo, até que a alma encontrasse sua verdadeira essência. Ninguém sabe o que lhe esperava do outro lado do portal, por isso a passagem para o desconhecido devia ser feita com a confiança e fé na entrega.
A presença das figuras de Sheela nos mosteiros e igrejas cristãs se explica pelo fato delas serem erguidas sobre os antigos locais dos cultos pagãos, a madeira dos bosques sagrados de carvalhos tendo sido usada na sua construção. Este costume visava aproveitar a antiga egrégora, sobrepor e impor os novos rituais cristãos para apagar a tradição pagã ancestral. Com a pressão crescente das autoridades religiosas cristãs, as imagens das Sheelas - existentes em diversos lugares - foram escondidas ou destruídas e seu simbolismo modificado. Em lugar de reverenciar as imagens de Sheela como representações divinas, elas passaram a ser vistas como alertas e punição contra o pecado da sexualidade. A porta da igreja passou a simbolizar a transformação do fiel ao entrar no espaço da Mãe Igreja e as imagens de Sheela – que tinham sido encastoadas nas paredes e não podiam ser retiradas – foram cercadas de símbolos cristãos e os fiéis não mais podiam tocá-las como era feito antigamente. Elas passaram a servir como alertas contra a cobiça e a luxúria, emblemas de proteção contra invasores e inimigos nos castelos e muralhas das cidades e foram denominadas de gárgulas (detalhes arquitetônicos medievais com figuras grotescas, destinadas para “afastar o mal”).
Como o aspecto escuro da Grande Mãe foi retirado das religiões atuais, é difícil compreender de imediato a sua função psicológica e terapêutica. Os aspectos desafiadores ou raivosos da Deusa não são manifestações da sua hostilidade, mas a afirmação do seu lado escuro, coexistente e complementar do lado luminoso. Sheela inspira medo, mas ela prenuncia mudança, transformação e renovação. Através da aceitação e compreensão do seu arquétipo, os guerreiros celtas não temiam a morte, pois a viam como um descanso no ventre da Grande Mãe, à espera da sua regeneração. Apenas pela desintegração do velho que a reintegração para um nível mais elevado podia acontecer. E Sheela era o portal que conduzia para esta transformação, assim como a deusa hindu Kali, que é semelhante a ela.
Sheela representa o poderoso processo de transformação, a morte do velho e o nascimento do novo, lembrando-nos que a morte não é o fim, pois uma nova vida emerge da semente enterrada. Este arquétipo poderoso - da Deusa Criadora que é também A Destruidora – está faltando na nossa cultura e religião nos últimos 3000 anos; quando ele foi removido das religiões patriarcais, um aspecto importante da natureza humana também foi removido da consciência coletiva. O resultado foi o medo da mudança e transformação, o terror perante a morte e a denigração da mulher, vista como um ser inferior e propiciador da luxúria e pecado. Sheela - como um símbolo da Deusa Escura - pode nós auxiliar em restaurar os valores sacros femininos e planetários e restabelecer assim o equilíbrio perdido do ser humano.
Uso ritualístico e mágico do arquétipo de Sheela na Gig.
Sheela representa o poderoso processo de transformação, com a morte de um ciclo ultrapassado e o começo de um novo, a metáfora da vida que emerge das sementes enterradas na terra. Ela é a Destruidora das ilusões, dos medos e bloqueios e a Criadora de novas possibilidades, ideias e projetos. Sheela pode nós auxiliar para vencer o medo da mudança e transformação, da opressão e inferiorização por ser mulher, dos bloqueios ligados a sexo e prazer, da incerteza dos próprios valores, possibilidades e dons. Como aspecto escuro da Deusa, Sheela auxilia restabelecer o equilíbrio psíquico do ser humano, tornando conscientes os antigos valores do sagrado feminino. É necessário entrar em contato com os cantos escuros e obscuros da própria psique, reconhecer nossos desejos, medos, culpas, bloqueios e dependências. Readquirir a consciência da nossa sacralidade como mulheres e integrando corpo, mente, coração e espírito irá abrir o caminho da autoaceitação e do amor por nós mesmas.
Um antigo texto gnóstico, usado como tema para vários arquétipos femininos, pode servir como a manifestação da voz da Deusa da Sabedoria, nos ajudando na nossa integração e cura: “Eu sou a primeira e a última, a honrada e a humilhada, sou a santa e a prostituta, a esposa e a virgem, a mãe e a filha. Eu sou a estéril e aquela que tem muitos filhos, o silêncio incompreensível e a ideia cuja lembrança é frequente. Eu sou a voz cujo som é multiplicado e a palavra que aparece em múltiplas formas, pois Eu sou a expressão do meu nome”.