A lição do vulcão

Daniele Andrews(*)

No dia 15 de janeiro de 2009 fiz uma escalada ao vulcão Villarica, que fica em Pucon, Chile. No total seriam 2.840 metros de caminhada e escalada. Um desafio que nunca havia vivenciado antes. Subi com o coração radiante de felicidade por poder ver de perto esta maravilha da natureza. Estar próxima a casa dos espíritos, como o vulcão é chamado pelos indígenas locais, mapuchos, seria um momento único e muito especial. A caminhada até os 2.000 metros foi árdua. O gelo escorrega muito e você tem que andar devagar, concentrada nos seus passos.

1º aprendizado: Concentre-se na sua caminhada de agora. Não olhe para o que ficou para trás. Já passou. Não se preocupe com o que esta por vir, com o que falta para você chegar. Isso só fará você ficar ansiosa.

2º aprendizado: Siga o seu ritmo. Preste atenção em você. Não preste atenção as outras pessoas e ande no seu passo. Não tente acompanhar o passo das outras pessoas. Isso fará com que você se canse rapidamente.

Os 840 metros finais seriam uma escalada muito íngreme e muito mais árdua que antes. Depois de duas paradas para descanso, continuamos subindo. Aos 2.500 metros minhas pernas já não respondiam. Estava completamente sem fôlego, sem ar. Os braços cansados de fincar a piole no gelo.

Tomei a decisão de abortar a escalada. Uma decisão muito difícil. O vulcão estava lá, bem perto de mim. Precisava vencer mais duas horas de escalada para chegar ao topo. Podia ver a fumaça saindo do topo. Ver pedaços de lava da última erupção em 1984 misturados no gelo. Sentei e chorei! Chorei como criança. Bem alto.

Se eu não chegar ao topo agora, quando é que terei a oportunidade de estar lá novamente?! Meu coração queria seguir de qualquer forma. Vamos continuar a escalada. Você dá conta!!! Não desista.

Racionalmente, sabia que precisava voltar. A parte mais difícil de uma escalada no gelo não é a subida, mas sim a decida. Eu precisava do restinho da força que tinha para descer em segurança. Fred, meu grande companheiro, não quis continuar sozinho. Preferiu descer comigo.

3º aprendizado: Antes de traçar seus objetivos, verifique se eles estão dentro das suas possibilidades. Às vezes, determinamos uma meta impossível de ser atingida e isso só nos traz frustrações.

4o aprendizado: Quando as coisas não estão saindo como o planejado é necessário PARAR. Você precisa de alguma forma parar. Dar um passo para trás. Recuar. Isso não significa, necessariamente, que você desistiu, que você fracassou. NÃO! Isso significa que você teve sabedoria suficiente para reavaliar os seus projetos, os seus objetivos e redirecioná-los para um novo rumo. Mais seguro, melhor para você. Este redirecionamento pode lhe salvar a vida. Acredite.

Eu tinha que abortar a escalada e descer. Se escurecesse eu não teria como descer em segurança, e um resgate seria muito complicado. Chorei! Chorei! Chorei! Chorei! Chorei! Chorei! Que decisão difícil!

Começamos a voltar. Eu estava muito triste e cansada. Mas entendi que não estava preparada para esta escalada. Não estou preparada para visitar a casa dos espíritos.

5o. aprendizado: What you don't have you don't need now. O que você não tem, você não precisa agora. Agora não é o momento, e se um dia tiver que acontecer, certamente a oportunidade aparecerá novamente.

A descida foi muito complicada. Sem forças, caí várias vezes. Em um dos tombos peguei muita velocidade e escorreguei geleira abaixo. Foi aterrorizante. Com muita dificuldade consegui fincar a piole no gelo e me segurar e assim parar a descida. Tinha que conseguir, senão acho que não teria como escrever este e-mail. Depois do susto, o nosso guia me “amarrou” em sua cintura e me ajudou a descer. Só assim consegui chegar ao carro. Fred seguia logo atrás de nós, carregando todo o nosso equipamento.

6o. aprendizado: Às vezes é preciso pedir ajuda e dar o comando para alguém ao lado que, com mais experiência, saberá conduzir com sabedoria as coisas para um plano melhor enquanto você descansa.

Fiquei um dia inteiro de cama com dores pelo corpo. Dei uma leve estendida no braço direito, mas nada que eu não vá sobreviver. Levei as runas, e a fita bordada estava no meu bolso o tempo todo para ativá-las no glaciar e no vulcão.

A minha viagem de carro pela Patagônia não foi apenas um período de férias. Posso dizer que foi um período de aprendizado, não apenas pela lição do vulcão, mas por outras coisas que fizemos e a viagem em si. Estou voltando para casa com algumas dores pelo corpo, mas muito feliz pelas lições vivenciadas a cada dia. Minha alma está renovada.

(*) Dani Andrews – Grupo Bifrost

A lição do vulcão

Dani, reli hj esse texto, depois de muito tempo e mais uma vez me emocionei muitíssimo com tudo isso.
Encanta-me seu aprendizado, seu espírito aventureiro, seu brilho, seu bom-humor e alto astral.
Que bom ser tecelã dessa teia junto com vc!