Sob a sombra das mangueiras

Helena Maltez(*)

Acabo de voltar de uma visita à terra onde passei parte de minha infância e adolescência, Belém do Pará. Cidade das famosas mangueiras graças às quais é possível andar a qualquer hora do dia pelas ruas sem torrar ao sol tropical fulminante. Mas as mangueiras não eram mais as mesmas de minha infância. Assim como eu, envelheceram. Até viveriam melhor e mais longamente se não estivessem submetidas a tanto estresse – barulho, poluição, solo morto e cimento apertando suas raízes, solidão. Assim como acontece com os seres humanos. A sensação que tive foi a de que elas estão em processo de senescência, envelhecimento fatal e inevitável. Comentei isso com um amigo belenense e ele ficou espantado: “uau... eu nunca tinha pensado nisso... que essas árvores morreriam”.

Lembrei-me então que, se para grande parte das pessoas, os animais não são seres vivos tanto quanto os humanos, imaginem só as plantas! Para muitos, são objetos, seres inanimados, meras esculturas da natureza. Perdeu-se a comunicação que a convivência permite. Talvez por não ter conhecido “Aquela que fala com todos os seres”, a Mãe do Clã Original* que nos ensina a entrar em contato profundo com todos os seres até que possamos ouvi-los tão nitidamente quanto ouvimos a fala de uma pessoa da nossa própria espécie.

Pois é, senti que as mangueiras estão próximas do final do seu ciclo. Isso não me deixaria triste se houvesse outras para substituí-las, assim como acontece em uma floresta, como acontece conosco, que seremos substituídos pelas próximas gerações. Acontece que não vi uma única muda, nenhuma única arvoreta jovem a sombrear a cidade no futuro. Quando as monumentais mangueiras morrerem, não haverá quem as substitua, não haverá sombra sob o sol escaldante do futuro. Belém será, provavelmente, uma cidade difícil de se viver. Maneja-se a arborização urbana como se as árvores vivessem para sempre. Será por serem percebidos apenas como objetos inanimados ou será a dificuldade em aceitar o ciclo natural de vida-morte-vida.

Essa vivência trouxe à minha memória um artigo de jornal que li há muitos anos atrás no qual se buscava uma explicação e solução para a morte das árvores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O artigo ressaltava a grande preocupação de especialistas e gestores do Jardim Botânico. Árvores centenárias estavam sendo atacadas por cupins... e várias sugestões eram feitas para salvá-las dessa terrível praga, como se fosse possível evitar a morte. Terrível praga? Os cupins estavam cumprindo exatamente a sua função, que é a de retornar ao solo os nutrientes necessários para o prosseguimento da vida... Da vida das novas árvores que ali deveriam se desenvolver dando seqüência ao processo de sucessão de vida da floresta.

Entretanto, o que os especialistas sugeriam era destruir a terrível praga e manter as árvores centenárias vivas! Bem na frente do seu nariz, o ciclo da vida se completando e os especialistas fazendo todos os esforços para evitar... Talvez por não terem pensado que isso aconteceria, não previram o plantio das novas árvores do futuro. Como nós, tantas vezes, fazendo de tudo para evitar as mortes necessárias para que o novo venha, sem conseguir ver o que está bem na frente do nosso nariz... No mundo dos seres vivos, o nascimento já contém em si a morte inevitável para que um novo ciclo recomece. E quando compreendemos e honramos esses ciclos, vem a nítida sensação de que tudo está no seu devido lugar, exatamente como deveria estar.

(*) Helena Maltez – Grupo Bifrost

Sob a sombra das mangueiras

Um dos trabalhos mais importantes para a maturação espiritual é compreender a morte, entender o fim que não é fim, e abraçar a totalidade da vida!
Abençoada seja a "passagem" das mangueiras!
Bjos