Dança

Brigid, Deusa e Santa

BRIGID, DEUSA E SANTA.

“Brigid, mulher excelente, chama espontânea dourada e flamejante, brilho do sol radiante, conduza-nos para o reino divino”.
Do hino irlandês Brigid be Bithmaith

Não há como duvidar do extenso culto – antigo e atual – dedicado a Brigid. Ela é um arquétipo poderoso no mundo contemporâneo, que ultrapassa barreiras religiosas ou filosóficas. Seu poder alcança tanto os adeptos do neopaganismo (druidismo, Wicca, seguidores da Tradição da Deusa) que a cultuam no Sabbat Imbolc como uma Deusa Tríplice, padroeira das artes, cura e magia, bem como os cristãos, que a reconhecem como uma mulher real, santificada e venerada, cujos milagres continuam a acontecer até hoje.

A deusa Brigid foi descrita em mitos, lendas, biografias e histórias como uma mulher extraordinária, poderosa, amorosa e enérgica, com traços contraditórios, mesclando fogo e água, determinação e compaixão, cura e combate, virgindade e maternidade, centrada e dedicada na sua missão de proteger e cuidar do seu povo. Para os seus seguidores pagãos, ela é a Deusa Tríplice, padroeira da arte, cura e magia, Senhora do fogo sagrado e das fontes curativas. Para os cristãos, ela é Santa Brigid, uma mulher simples, mas que pela sua vida pura, sua fé e a doação irrestrita para auxiliar doentes e pobres, pode vir a alcançar a santidade. Para os poetas e artistas, ela é a Musa, que os inspira e conduz para a fonte da criatividade. Para os camponeses, ela era a protetora dos rebanhos e da fertilidade da terra, regente da prosperidade, associada às colheitas e ao gado.

A data exata do início do seu culto pagão é desconhecida, acredita-se que foi há milênios, sendo uma das deusas mais antigas, “contemporânea” com Inanna, Ishtar, Ísis, Hera, Gaia, Freyja. A Irlanda pagã foi formada por uma amalgamação de povos indígenas, os construtores dos monumentos neolíticos e as tribos celtas, que chegaram em várias ondas migratórias entre o século VII a.C. e o primeiro d.C. Não se sabe ao certo qual é a sua verdadeira origem, nem a antiguidade do seu culto. Porém, independentemente das suas raízes históricas ou geográficas, seu culto floresceu na Irlanda, Escócia e Bretanha e seu nome imortalizado em várias fontes na França, Espanha, Suécia. Adaptado para a figura cristã da santa, este culto persiste até hoje e centenas de lugares e pessoas na Irlanda guardam seu nome e seus costumes.

A tradição oral celta preservou muitos mitos, lendas e poemas, mas com o passar do tempo e as contínuas guerras, muito do legado ancestral foi perdido. Suas lendas permaneceram ao longo de gerações, transmitidas pelos bardos e poetas (filid) e, mesmo truncadas ou distorcidas pelos monges e historiadores cristãos, preservaram fragmentos da sua esquecida sabedoria e poder. Muitas das lendas da Santa são compilações dos mitos da Deusa, mescladas com elementos cristãos, com o propósito de atrair os pagãos celtas para o cristianismo. Referências escritas apareceram apenas séculos depois da sua morte, reunindo histórias confusas sobre sua suposta identidade, considerando-a ora como a parteira e madrinha de Jesus (que nasceu séculos após) e invocada pelas parturientes, ora a própria Maria. A Deusa foi transformada em Santa a fim de legitimar e promover a conversão para a nova religião, um passo importante para estabelecer a mudança de costumes. O antigo templo de fogo de Kildare da deusa na Irlanda, destruído pelas guerras e os saques, foi recuperado e transformado em catedral da santa. A sua chama sagrada, depois de extinta pela perseguição reformista, foi acesa novamente e continua sendo mantida até hoje pelas freiras da ordem Brigidina.

Os inúmeros nomes da deusa Brigid originaram-se nos vários lugares do seu culto, assim como suas representações: Breo Saighit, a “Flecha Ardente” celta (o nome que melhor representa o poder da sua chama sagrada), a escocesa Bride, a irlandesa Brigid , Brighd ou Bhrid, a gaélica Brighid (pronuncia-se Breed), a inglesa Brigantia, cultuada nas terras do Norte da Inglaterra e parte da França e Espanha (o seu aspecto de Guerreira, com flecha e cetro, mas também mediadora da paz), Brigandu na Gália, Bridget na Suécia, Briid ou Brede na Ilha de Man, Ffraid no País de Gales e Mary of the Gael nos poemas.  Tão diversos quanto os nomes são os seus títulos, que descrevem seus atributos: Brigid, a Vitoriosa, Guerreira imortal, Rainha do Povo das Fadas, Mãe das canções e poesias, Senhora das fontes, Chama do coração das mulheres, Fogo que arde sem deixar cinzas, Mãe da sabedoria, A mais elevada, Deusa da cura com manto verde e cabelos vermelhos.

Em algumas lendas Brigid aparece como filha dos deuses arcaicos da terra Dagda e Danu (ou Boann), fazendo parte do povo sagrado Tuatha de Dannan. Em outros mitos é considerada consorte de Dagda ou de Bres, o “Lindo Guerreiro” (descendente dos Fomorians, a raça que regeu a Irlanda antes dos Tuatha de Danaan), ou sendo “Senhora do mar”, filha do deus do oceano Lir. Da sua união com Bres teria tido um filho - Ruadan- que representava a mescla das energias dos seus genitores: Danaan e Fomorian. Na maioria dos mitos prevalecem, no entanto, suas características de deusa virgem, guardiã da tocha e da lareira, protetora das mulheres e dos caminhos, sua energia sendo ígnea, direta, rápida, iluminadora e vitalizadora.

Brigid é o raio do relâmpago ou a chama do fogo que ilumina a terra, deixando atrás um rastro de luz ou clareza nas mentes e corações humanos. Às vezes é vista como a face jovem da Deusa, Danu ou Cerridwen sendo a Mãe e Cailleach a Anciã, que cede seu lugar para Brigid no Sabbat Imbolc, substituindo o frio do inverno pelas promessas da primavera, trocando o cetro de gelo pelo ramo verde. O seu aspecto de regente das fontes permaneceu no culto da deusa Sulis, adotada pelos romanos como Sulis Minerva e cultuada nas antigas termas de Aquae Sulis, atual cidade inglesa de Bath, onde a energia dela ainda pode ser percebida na fonte subterrânea, repleta de oferendas dos visitantes.

Brigid foi equiparada a várias deusas: com Juno pela tribo dos Brigantes, com Minerva, Hécate, Héstia, Vesta, Ártemis, Diana, Tanit e Sulis pelos romanos. Existem semelhanças entre o mito de Brigid e os de algumas deusas solares como Lucina, a padroeira romana da luz, a báltica Saule e a nórdica Sunna. Algumas lendas celtas atribuem a Brigid uma dupla apresentação: donzela e anciã, Brigid e Cailleach, primavera e inverno, dualidade semelhante às gregas Perséfone e Deméter. Como uma Tuatha de Danaan ela era ligada aos Sidhe, o “Povo das Fadas”, sendo a sua rainha; ela usava como emblema um manto verde, um cinto mágico e uma coroa de ouro. Foi ela quem implantou o keening, os lamentos das vigílias irlandesas que pranteavam os mortos. Nas lendas arturianas, Brigid é descrita como a Guardiã da macieira sagrada de Tir nan Gog, “a terra das mulheres ou da juventude” e a maga artesã que forjou a espada Excalibur. Ela era descrita como doadora da vida e parteira, poeta e artesã, curadora e guerreira, fada e soberana, maga e profetisa, uma figura mítica e multifacetada, que transita entre realidade e fantasia. O arquétipo complexo e múltiplo de Brigid - a mais cultuada das deusas celtas – também amalgamou vários aspectos das antigas deusas irlandesas como Boann, Danu, Macha, Morrigan. Mas ela é uma divindade tão intensamente relacionada com a sacralidade feminina, que a nenhum homem era permitido ultrapassar a cerca ao redor do seu santuário.

Deusa soberana e provedora da terra, guardiã do fogo celeste e telúrico, regente das fontes e ervas curativas, ficou mais conhecida como uma “Deusa Tríplice”, regente das artes (poesia, canto, artesanato, tecelagem, metalurgia, joalheria), da cura, fertilidade, purificação e renovação pela água (pelas fontes e os mistérios das ervas), da magia, oráculos e profecia. Como “Senhora do Fogo Tríplice” ela regia a inspiração (sendo a Musa), a forja (padroeira da metalurgia e das artes marciais), a tocha e a lareira (protetora das casas, das mulheres, famílias e dos viajantes). Nas imagens, Brigid aparece como uma jovem com cabelos ruivos, segurando uma chama, junto de seus animais totêmicos (vaca branca com orelhas vermelhas, cisne, peixe, ovelha, javali ou serpente) ou perto de uma fonte. Outra apresentação é como uma tríade de deusas, cada uma segurando o símbolo dos seus dons (tocha ou chama, ferramentas, cálice cercado com serpentes entrelaçadas ou ervas curativas).

Brigid era honrada como “Senhora dos Bardos” pelos seus dons de inspiração, criatividade, encantamento, fluidez e graça. Para os antigos celtas o fogo era a fonte da inspiração, a iluminação divina procurada pelos poetas, bardos e magos. As suas criações – poemas, canções, histórias, lendas - eram compartilhadas com os demais ao redor de fogueiras, para assim lembrar e honrar os antigos caminhos, mantendo viva a memória da tribo e a reverência dos ancestrais. No fim do inverno, a família ou o clã se reunia próximo ao fogo ou à lareira (buscando o aconchego da chama de Brigid, deusa mãe e protetora do lar), quando o músico, poeta ou o contador de histórias reanimava as pessoas enfraquecidas pelo frio com canções, poemas, relatos e sagas de heróis. Por serem faladas e não escritas, estas histórias eram transitórias na sua natureza e assim como o fogo, não podiam ser dominadas por aqueles que não tinham preparo; o uso das palavras exigia reverência e competência, habilidades além do alcance dos não iniciados. Por isso Brigid foi associada com as propriedades etéreas de todos os tipos de fogo (Imbas) - da forja, da lareira e fogueira, do sol, da transmutação, da cura e do sopro mágico. O fogo era visto pelos celtas como uma energia espiritual latente em todas as coisas e inerente a certos processos cognitivos do intelecto humano, bem como a alguns estados emocionais como paixão, caridade, amor, etc.

A inspiração e a poesia eram associadas pelos celtas também com a água, outro domínio de Brigid, reverenciada como “Senhora das fontes sagradas”, que uniam simbolicamente o mundo subterrâneo, mediano e o superior, por nascerem na escuridão da terra, fluírem para a superfície e refletirem a luz do céu. Da mesma forma, as ideias e visões ocultas do subconsciente podiam ser reveladas pela inspiração e intuição, energias sutis que fluíam livremente para a mente consciente e racional.

Uma composição de personagens dos mitos irlandeses e galeses deu origem à Santa, cujo principal título era ”Brigid, a santa do manto verde e cabelos de ouro (ou fogo)”, traços marcantes das imagens da Deusa. Ela supostamente nasceu entre 439-452 e morreu entre 518-525 da nossa era,  sendo filha de um druida e uma escrava pagã. Seu nascimento foi cercado de fenômenos estranhos (a presença de dois sois no céu) e aconteceu quando sua mãe passava pela soleira da casa, trazendo a ideia dos limiares e fronteiras, considerados lugares sagrados para os celtas. Os que presenciaram o nascimento deste bebê de mística beleza puderam relatar que da sua cabeça surgiam chamas de cor vibrante, como se fosse uma coroa de raios solares.  Alguns dias depois, os vizinhos alarmados viram labaredas saindo da casa em que os pais de Brigid moravam; mas chegando lá, encontraram a menina dormindo tranquila no seu berço e sem nenhuma marca do fogo. Enquanto criança, Brigid recusava qualquer tipo de comida além do leite de uma vaca branca com orelhas vermelhas (cores atribuídas aos animais do “povo das fadas”). Quando jovem ela era uma moça generosa, doando seus pertences e comida aos pobres, sem se interessar em namorar ou casar, almejando apenas a vida religiosa. Era amiga e seguidora dos ensinamentos de São Patrício (o missionário que cristianizou Irlanda). Quando o seu pai permitiu que se dedicasse à vida monástica, foi consagrada diretamente como abadessa em lugar de ser ordenada como simples freira, devido a uma falha inexplicável do oficiante, que recitou o juramento errado (sendo vista nesta hora uma coroa de chamas cercando a cabeça de Brigid).

Brigid se empenhou em criar uma comunidade de mulheres, junto com outras dezenove noviças em Cill Dara, “a igreja de carvalho” (atual Kildare), na Irlanda, que foi crescendo até se transformar em um grande mosteiro, o primeiro centro irlandês de estudos e artes, que incluía trabalhos com metais e ilustração dos manuscritos antigos. Lá, as mulheres dos arredores aprendiam como cuidar de pobres e doentes, auxiliar as gestantes e parturientes, curar com ervas e a energia das mãos, fiar, tecer, bordar, abençoar, fazer encantamentos e predições. A vida de Brigid foi repleta de milagres como: a cura de doenças com o toque das suas mãos, a multiplicação da comida (leite, manteiga, grãos, cerveja), o encontro de animais extraviados e a descoberta dos ladrões; o mais famoso fato mágico foi quando pendurou seu manto molhado sobre um raio de sol. Quando Brigid foi pedir mais terra para sua comunidade ao rei, ele lhe concedeu uma área que o seu manto pudesse cobrir. Brigid tirou seu manto e quando o estendeu, ele cobriu uma enorme área ao redor, que lhe foi depois concedida pelo rei, impressionado com este milagre. Como ferrenha defensora das mulheres, Brigid educava as jovens para seguirem uma profissão, libertava escravas, incentivava esposas maltratadas para pedirem divórcio, auxiliava nos partos ou abortos. Todos estes atos de poder reproduziam os atributos da Deusa: fertilidade, abundância, cura, comunicação com animais, auxílio permanente dado às mulheres e parturientes, aos pobres e doentes.

Após a sua morte, o fogo do seu templo continuou aceso, guardado cada dia por uma das dezenove sacerdotisas ou freiras da sua ordem; na vigésima noite era a própria Brigid que o cuidava. O fogo requeria muita lenha, porém as cinzas dele não aumentavam jamais. A preservação da chama sagrada de Brigid foi mantida pelas freiras até que o seu culto foi proibido mil anos depois. Ela foi enterrada num caixão de ouro e prata em Kildare, mas depois, devido aos saques das incursões Vikings, seus ossos foram levados para o túmulo do Santo Patrício, porém despareceram algum tempo depois. Algumas das suas relíquias ainda existem em igrejas e museus como seu manto verde na Bélgica, seus sapatos no museu de Dublin e outros objetos em lugares mais distantes, que a santa viva jamais percorreu. Santa Brigid é padroeira da Irlanda (junto com São Patrício), das ordens das freiras irlandesas e de Nova Zelândia. Mesmo como santa, ela continua sendo - assim como a deusa - protetora dos agricultores, fazendeiros e criadores de gado, ferreiros, curandeiras e parteiras, crianças e mulheres, poetas, artistas e escritores (que começavam seus escritos com a frase gaélica Adjuva Brigitta, “ajude Brigid”).

A sua representação como Santa tem elementos reais e míticos, alguns historiadores negam a sua real existência, mas foi através dela que a Igreja cristã celta permitiu a perpetuação - de maneira velada e modificada–do culto da deusa Brigid, que, por não poder ser erradicado, foi readaptado pela igreja e transformado para a reverência atual da Santa. Na Irlanda, 1500 anos depois da morte de Brigid, sua memória permanece viva nos corações dos seus fiéis e seus símbolos continuam sendo confeccionados e usados, mesmo que nem todos os que os confeccionam e usam conheçam seu significado sagrado. Tendo feito a transição da condição de Deusa para Santa, preservando o nome, os símbolos e costumes antigos, a figura de Brigid representa uma ponte (bridge em inglês) entre paganismo e cristianismo, continuando como guardiã da sacralidade feminina.

O Sabbat Imbolc da Roda do Ano celta se originou de um antigo ritual de bênção da terra (honrada como ”o ventre da deusa”), feito na chegada da primavera, antes do campo ser semeado, para propiciar fertilidade e proteção. Grãos e espigas da colheita anterior eram usados como oferendas nesta celebração e depois de abençoados com água de uma fonte sagrada, eram misturados com as sementes destinadas ao próximo plantio. Imagens de Brigid eram levadas em procissão para abençoar os campos e atrair a fertilidade, costume preservado mesmo após a cristianização e perpetuado até hoje pelos padres cristãos. Atualmente inúmeros peregrinos buscam as bênçãos de Brigid nos seus lugares sagrados como: Kildare (onde ainda existe sua antiga fonte, a catedral e uma nova igreja), Faughart (o lugar onde ela nasceu e onde vários locais são a ela associados), ambos na Irlanda e as Ilhas Hébridas (cujo nome é associado à Deusa). Glastonbury - na Inglaterra - é um lugar sagrado muito ligado ao arquétipo de Brigid, a forma do seu relevo topográfico parece um cisne (animal sagrado da Deusa), enquanto a pequena colina de Bride’s Mount e a gravura da Deusa (ao lado da sua vaca) sobre o portal da igreja na colina do Tor lembram a estadia da Santa durante algum tempo na cidade. Na fonte sacra de Chalice Well sacerdotisas do Goddess Temple realizam rituais e bênçãos no Sabbat Imbolc. Existem inúmeras fontes (chamadas Tobar Brighde e Clootie Wells) na Irlanda, Escócia, Grã-Bretanha, onde colares, rosários, tranças de fitas, cruzes de palha e pedaços de roupas dos doentes amarrados nas árvores ao redor, comprovam a continuidade do culto de Brigid, como Deusa e Santa, até hoje.

A conexão com Brigid no Sabbat Imbolc pode ser feita individualmente nas margens de um rio, cachoeira, córrego ou simplesmente em casa perto de uma fonte usada na decoração; visualiza-se a purificação pelo poder da água e pede-se à deusa a cura para algum problema específico (seu ou de familiares). Antigamente, as mulheres abriam as portas e janelas das casas pedindo para que Brigid entrasse e as abençoasse, o que pode ser feito também agora. No final da meditação, após agradecer à Deusa pela ajuda recebida, deve-se abençoar-se com água, riscando o símbolo sagrado de triskelion sobre si mesma. Uma antiga tradição irlandesa recomenda deixar um pedaço de pano de algodão (branco ou verde) perto da sua imagem no dia dedicado à celebração do Sabbat Imbolc (primeiro de fevereiro) pedindo à deusa para impregnar o pano com suas energias curadores. Guarda-se depois o pano envolvido em papel de seda para usá-lo quando precisar, colocando-o sobre a parte doente do corpo.

Um símbolo tradicional de Brigid pode ser confeccionado com palha seca ou espigas de trigo em forma de triskelion ou cruz de Brigid (Cros Bhrid), cujos modelos e técnicas de trançar se encontram na internet. Um antigo costume irlandês recomenda confeccionar uma figura feminina de palha para representar a Bhrid Doll. Esta boneca, feita tradicionalmente com as últimas espigas (de trigo
ou aveia) colhidas, era colocada perto da lareira na véspera de Imbolc, em uma cama de palha ou lã de ovelhas, junto com um bastão enfeitado com fitas, tudo cercado por velas acesas. Convidava-se assim a presença da Deusa para abençoar a casa e seus moradores. Antigamente esta boneca era depois enterrada junto com as sementes durante o plantio, mas atualmente, em Glastonbury, as mulheres que reverenciam e celebram Brigid guardam as bonecas por elas confeccionadas (Bride Doll) no Goddess Temple depois de abençoá-las na fonte sagrada de Chalice Well. A fileira de Bride Doll mostra as diversas representações  da inspiração e sabedoria femininas.

Nos grupos e círculos de mulheres Brigid é invocada para conferir criatividade, inspiração, poder mágico e a capacidade de manifestar ideias no mundo material. Para honrá-la, ou pedir sua ajuda ou proteção, usam-se velas laranja, que devem ficar acesas durante dezenove dias, reservando em cada dia um tempo para orar e visualizar seu projeto, sendo então abençoado por Brigid. Durante a meditação, podem aparecer visões e mensagens de Brigid; no final deste período deve ser feita uma oferenda de gratidão para ela (grãos, sementes, pão, mingau de aveia, mel, manteiga, leite, cerveja).

Os círculos de mulheres que seguem a Tradição da Deusa costumam realizar seus rituais de dedicação e iniciação na senda da sacralidade feminina em torno da data de Imbolc (conforme descrito no livro Círculos sagrados para mulheres contemporâneas).  Esta data representa um tempo propício para o plantio de novas sementes: da criatividade, dos novos projetos e realizações, de cura e renovação energética, de atração ou mudanças nos relacionamentos e das bênçãos nos caminhos espirituais. Podem ser abençoadas nesta data dezenas de velas para usar durante o ano, preparados altares com a imagem da Deusa, uma vela de cera, um cálice ou fonte com água, ervas aromáticas ou incenso, um pote com terra, símbolos (lua, cruzes solares, triskelion, pentagrama), objetos associados com a sua profissão, vocação e projetos futuros, oferendas de pão, grãos, leite, manteiga, mel e cerveja. Invoca-se Brigid na sua qualidade de protetora com esta simples oração, que pode ser repetida diariamente:

Brigid, deusa vitoriosa da luz,
Cubra-me com teu manto sagrado,
Vigie-me sempre com teus olhos,
Proteja-me com teu cajado,
De manhã e até anoitecer,
Por onde eu andar ou estiver,
De dia ou de noite, que eu seja sempre protegida,
Honrada, acolhida e favorecida,
Brigid, Deusa poderosa e protetora,
Fique ao meu lado e seja a minha companheira,
Minha conselheira, guardiã e defensora!

A Naoimh Bhrid Gui Orainn
(pronuncia-se A Nem Brid Gui Orin que significa “Santa Brigid ore por nós”!)

A dança da Lua ao longo do ano

in


Mirella Faur

Desde a antiguidade a Lua exerceu um profundo fascínio sobre a mente e a imaginação humanas e tornou-se o principal assunto de inúmeros mitos, lendas, poemas, canções e obras de arte. Considerada por várias tradições e culturas como o símbolo celeste do princípio feminino, a Lua era a própria Mãe Divina, invocada em cultos e rituais para promover a fertilidade e assegurar o crescimento e a nutrição vegetal, animal e humana.

Apesar de a Lua ser comumente considerada um mero satélite da Terra, a relação Lua-Terra funciona como um sistema planetário binário, no qual a Lua, do ponto de vista esotérico, exerce um duplo papel. Enquanto uma face está voltada para o Sol - desta forma conduzindo a luz espiritual, a outra é atraída pela Terra, pela sua dimensão física e material, sendo assim um símbolo do dilema e do desafio do ser humano em se equilibrar entre o espírito e a matéria. A Lua desempenha, portanto, seu papel de mediadora reagindo às energias do Sol e da Terra e ocasionando entre nós os ciclos de transformações naturais, biológicas e humanas.

O padrão rítmico da Lua foi o modelo primordial dos calendários em uso pelos povos primitivos e era relacionado ao ciclo menstrual da mulher e ao movimento das marés. Um dos primeiros calendários astrológicos conhecidos foi criado pelos babilônios, baseado no ciclo das lunações e chamado “As casas da Lua”, sendo o zodíaco considerado o cinturão da Deusa Ishtar. Em inúmeras tradições e mitos são enumeradas e descritas as fases lunares como personificações da Deusa lunar, em seu aspecto de Donzela (lua crescente), Mãe (lua cheia) e Anciã (lua minguante). A própria criação do Universo foi atribuída pelos gregos à dança da deusa Eurynome, cujos movimentos separaram a luz da escuridão, e o mar, do céu.

O padrão energético lunar é o primeiro a ser absorvido pelo filho na hora do nascimento, sendo depois ativado pelo contato com a mãe física e pelas condições do mundo exterior. A partir do primeiro alento, a influência da Lua natal irá permear todas as experiências da vida da pessoa, definindo a estruturação e o desenvolvimento da personalidade.

Enquanto o Sol astrológico representa a individualidade, a Lua revela a personalidade - a máscara social - e a maneira de responder às experiências e aos estímulos externos. O processo de autoconhecimento inclui explorar as profundezas da Lua (da personalidade) para encontrar a luz do Sol (a individualidade central). Quando o Sol e a Lua estão em equilíbrio, a combinação das suas energias permite a integração das frações divididas da psique, estabelecendo uma união harmônica das polaridades.

A Lua atua como um receptor seletivo das impressões do mundo exterior, colocando em evidência e selecionando aquelas às quais vamos responder conscientemente. Observamos a influência da Lua na mutabilidade das nossas reações às vivências cotidianas, pois ela nos protege e guia, ativando ou modificando nossos padrões habituais de comportamento. Pela posição da Lua no mapa natal identificam-se os padrões emocionais, o tipo e a qualidade dos relacionamentos, a maneira de responder às necessidades próprias e as dos outros, bem como a expressão ou o bloqueio de talentos naturais como intuição, inspiração e criatividade.

O elemento do signo astrológico em que a Lua estiver situada no mapa natal indica a capacidade de autonutrição, os padrões costumeiros da reação instintiva e o tipo de energia necessária para a adaptação às situações e aos ambientes. A maioria das pessoas conhece seu signo solar, ou seja, aquele signo do Zodíaco em que o Sol estava “passando” na data do seu nascimento. No entanto, muitos poucos sabem qual é o seu signo lunar, importante dado astrológico, principalmente para as mulheres, cuja energia e ciclos fluem em função dos ritmos lunares.

A mulher que conhece seu signo lunar e que acompanha o movimento da Lua através de seus signos e fases poderá perceber não apenas suas flutuações de humor e seus ciclos biológicos, mas também o aumento de sua percepção psíquica e o aguçamento de sua sensibilidade. Ela poderá assim tirar proveito destas características, ou ao contrário, proteger sua vulnerabilidade.

Enquanto o Sol gasta um ano para percorrer a Roda do Zodíaco, a Lua a percorre em um mês, permanecendo em cada signo aproximadamente dois dias e meio. A passagem da Lua pelo signo solar individual reforça as características do nativo, aumentando assim o seu poder pessoal. Pedidos, orações, rituais, afirmações e encantamentos, feitos no dia em que a Lua está no signo solar natal, serão potencializados e sua realização será facilitada.

A Lua nos signos de fogo propicia uma resposta rápida, entusiasta e uma visão otimista perante a vida, podendo fluir com as mudanças, sem se apegar aos esquemas e à rotina. O desafio é representado pela impaciência, as ações impulsivas e precipitadas, as atitudes egocêntricas e hedonistas.

A Lua nos signos de terra incentiva a busca da segurança e da estabilidade, do enraizamento e da praticidade. Atitudes, convicções e valores dependem das percepções sensoriais e do contato com o mundo tangível. Deve ser avaliada e vencida a insegurança em relação aos sentimentos, às emoções e à aceitação social e pessoal. Pode ser percebida uma resistência às mudanças e a permanente preocupação com a realização profissional.

A Lua em signos de ar intelectualiza os sentimentos e as emoções, colocando em primeiro plano o intelecto e reprimindo ou negligenciando os sentimentos. É necessário incentivar a expressão e a comunicação, tanto mental quanto emocional, para conseguir evitar uma dicotomia e um conseqüente desequilíbrio interior.

A Lua nos signos de água enfatiza a necessidade de vivenciar e lidar com emoções e sentimentos, procurando evitar a vulnerabilidade afetiva e a hipersensibilidade. A vida é percebida por um filtro emocional, fato que exacerba a empatia e dificulta a adaptação às mudanças.

Existem outros pontos lunares “de poder” ao longo do ano. Anualmente, cada pessoa terá uma lua cheia e uma lua nova no seu signo solar. A lua nova representa um convite para a introspecção, contemplação e alinhamento espiritual. Como acontece geralmente próximo ao aniversário, esta fase pode ser usada como uma preparação para o seu retorno solar (o novo ciclo que se estende de um aniversário até o próximo).

Já a lua cheia convida para uma celebração e colheita das realizações e conquistas, bem como uma oportunidade de direcionar a criatividade ampliada para novas metas. Como a Lua passa por todas as suas fases em todos os signos zodiacais, é importante também saber quando acontecerão a lua crescente e a minguante no seu signo solar.

A lua crescente é propícia para iniciar um projeto, mudança ou viagem, enquanto a minguante representa um momento de reflexão e avaliação das experiências e dos aprendizados, favorecendo o desapego ritualístico das perdas, decepções, mágoas e dores.

Círculos de Mulheres

“Círculos de Mulheres podem ser vistos como um movimento evolucionário e revolucionário que está escondido por trás de uma imagem aparente : parece ser apenas um grupo de mulheres reunidas, mas cada mulher e cada Círculo está contribuindo para algo muito maior.”

Jean Shinoda Bolen em O Milionésimo Círculo


Círculos Lunares - estudo das divindades femininas de diferentes panteões, tradições e culturas e (re)conexão com a sacralidade feminina e seus ritos de passagem. Os encontros são mensais, com iniciações anuais e incluem o aprendizado de mitologia, oráculos, práticas xamânicas e danças circulares.
Os grupos seguem a Programação Iniciática e os planos de estudo existentes, percorridos e testados com sucesso pelos grupos anteriores. No entanto, as dirigentes têm a plena liberdade para acrescentar seus próprios conhecimentos, novos temas ou práticas complementares, adequar e expandir idéias e intuições, inovar nas atividades criativas, práticas mágicas ou meditativas, trabalhos corporais, etc.
A dirigente de cada grupo será responsável pela preparação, organização e realização dos rituais de Iniciação deste grupo, envolvendo também as integrantes com tarefas e atividades previamente planejadas.
Atualmente a Teia de Thea mantém quatro Círculos Lunares em Brasília, dirigidos por sacerdotisas iniciadas e orientadas por Mirella Faur.

Melissas - encontros semanais de integrantes da Teia de Thea para estudo do canto como prática espiritual. A pesquisa inclui a organização e criação de versões de cantos da tradição da Deusa.

Workshops - jornadas xamânicas ou encontros para contato com a natureza e aprofundamento dos temas relacionados à sacralidade feminina; com práticas meditativas, rituais e abordagem teórica. Acontecem uma ou duas vezes por ano em local próximo a Brasília.