Deusa

Aine, Deusa Solar Irlandesa, Rainha do Povo das Fadas

Mirella Faur

   “O povo das fadas” (chamado em gaélico de Sidhe), conhecido das lendas e mitos celtas é remanescente dos primitivos povos pré-celtas, que habitavam as Ilhas Britânicas desde a Idade de Bronze. Eles eram descendentes dos Tuatha de Danann, o “Povo da deusa Danu”, misteriosos seres míticos de natureza sutil, que conquistaram a Irlanda após vencerem os primeiros colonizadores- Fir Bolg, e que depois foram vencidos pelos Milesianos. Com a mudança das crenças religiosas e espirituais, os Tuatha de Danann não mais recebiam a sustentação da sua egrégora pelo reconhecimento e a gratidão dos seres humanos perante os seus dons e se afastaram cada vez mais da dimensão material, tecendo um véu de invisibilidade ao redor do seu mundo. Para se protegerem da violência das guerras - sendo eles seres pacíficos - se retiraram para outra dimensão, sutil, a ilha mágica Tyr na n’Og, “A terra debaixo das águas”, situada no Oeste da Irlanda e invisível aos homens. Uma parte deles se refugiou nas montanhas, colinas, florestas e grutas e as repartiu entre si, sendo conhecidos como “O velho povo, Os bons vizinhos, O povo das colinas”, Fairy people ou Fay e suas moradas (barrows) nas colinas ou elevações de terra chamadas de side ou sidhe (pronuncia-se “chee”), nome que aos poucos passou a ser confundido com os próprios seres.
   A comprovação deste fato encontra-se na crença comum entre as diversas nações celtas sobre a existência de uma raça de seres sutis, obrigada pelas tribos invasoras a se retirar para o “Outro mundo”, descrito como uma dimensão subterrânea, dentro das colinas ou câmaras subterrâneas neolíticas (burial chamber), ou que tinham ido “além-mar”. Pelo fato que os Sidhe moravam nas câmaras subterrâneas – que eram usadas para o enterro dos reis - ao longo dos tempos eles passaram a serem confundidos com os espíritos ancestrais e denominados de Bean-sidhe ou Banshee, que anunciavam a morte de parentes e apareciam nas suas vigílias pranteando.
   Os Sidhe eram formados por vários grupos ou ordens, distintas umas das outras, mas que funcionavam como uma coletividade. As terras ocupadas pelos seres feéricos foram chamadas de Fairyland, “a terra das fadas” e seus caminhos e trilhas, imbuídos de energia mágica e telúrica, ficaram conhecidos como ley lines, as linhas de energia da terra, sobre as quais não deveriam ser construídas edificações humanas sob o perigo de eclodirem acontecimentos estranhos ou perniciosos à saúde. Os locais sagrados dos sidhe eram marcados por círculos de pedras, de grama mais verde ou de cogumelos e deviam ser respeitados e evitados pelos seres humanos. No nível mágico, os Sidhe conheciam e manipulavam os poderes dos elementos e por isso, com o passar do tempo e o esquecimento da sua verdadeira origem e poder, eles foram reduzidos às figuras elementais com nomes diferentes em função do elemento em que habitavam ou regiam. Nos contos de fadas lhes foi atribuído o papel de “fadas madrinhas”, conselheiras e protetoras individuais.
   Sidhe para os irlandeses representa o estado intermediário entre um mundo real e o sobrenatural, povoado por seres sutis, etéreos, dificilmente visíveis pelos seres humanos, devido às vibrações densas do mundo material. Com o advento do cristianismo e sua perseguição e proibição, eles esmaeceram na memória do povo, sendo denominados fadas, duendes e representações malignas do folclore, que viviam em outras dimensões entre o mundo material e espiritual. Contudo, seu fundamento psicológico nunca se perdeu e os mistérios ocultos nos contos de fadas e nas crenças populares conservam as reminiscências do antigo culto.
   Aos poucos, as fadas ficaram restritas ao folclore anglo-saxão e celta, conhecidas como protetoras e guardiãs das árvores, flores ou jardins, confundindo-se depois com outras entidades sobrenaturais e, às vezes, sendo consideradas magas e feiticeiras. Foram descritos muitos tipos, desde as belas fadas das flores, árvores, lagos e rios, os simpáticos gnomos protetores das moradias, até as entidades perigosas com dentes pontiagudos e garras afiadas. Presentes em todas as formas e manifestações da natureza, as fadas fizeram parte das lendas e do folclore de vários países, mas nenhum povo como o irlandês conseguiu captar, conhecer e compreender tão bem os Fays, provavelmente por serem seus descendentes. O mundo feérico das fadas ainda vive nas crenças e rituais dos camponeses da Irlanda, País de Gales, Escócia, Inglaterra e Bretanha e conta-se que vários mortais tiveram contato com o povo das fadas, aprendendo delas a arte da poesia, música, dança, metalurgia, tecelagem, magia e cura. A Irlanda até hoje é habitada por duas raças: a visível, dos celtas, e a invisível dos Sidhe, mas que podia ser vista e “visitada” pelos clarividentes e magos. As divindades mais conhecidas, consideradas o “Rei” e a “Rainha das Fadas” são a deusa Aine (pronuncia-se Onyá ou Oine), a regente da fertilidade e o deus Gwynn Ap Nudd (pronuncia-se guin ap niid), o “Senhor do Outro Mundo”.
   Aine é uma deusa arcaica da Irlanda, originariamente uma deusa solar, soberana da luz, da fertilidade da terra e do amor, cujo nome significava “prazer, alegria, esplendor”, celebrada no Solstício de Verão e que sobreviveu às perseguições cristãs ao ser transformada nas lendas em uma “Fada Rainha”. Apesar de deusa tutelar da província de Munster do Sudeste da Irlanda, muito pouco foi preservado das suas lendas; mesmo assim o seu culto perdurou até o século 20 mas ela jamais foi santificada ou mencionada pela igreja cristã. Os costumes a ela associados continuaram até 1970, preservando sua autêntica essência pagã, os camponeses caminhando com tochas acesas pelos campos plantados invocando o calor e a luz de Aine para a abundância das colheitas. As mulheres idosas queimavam ervas aromáticas para purificar as casas e afastar as doenças.
   Aine é irmã gêmea de Grian, a “Rainha dos Elfos” e também foi considerada como um dos aspectos da Deusa Mãe celta Ana, Anu, Danu ou Don. Grian e Aine alternavam-se na regência do ciclo solar na Roda do Ano, trocando de lugar a cada solstício. Aine foi mencionada pela primeira vez em 890-910 no dicionário Sanas Cormaic com explicações em latim da etimologia dos termos irlandeses. Mais tarde, apareceram menções no século XII no livro Táin Bó Cúailnge e no século XV em Cath Finntrágha sobre a relação da Deusa com os cairns e resquícios neolíticos encontrados em duas colinas, perto de Lough Gur, consagradas à Deusa, onde ainda hoje ocorrem ritos em honra à deusa Aine. Uma colina, a três milhas a sudoeste do lago é chamada Knockaine (em homenagem à deusa) e lá se encontra uma pedra que confere inspiração poética a seus devotos merecedores e leva à loucura àqueles que forem punidos pela falta de respeito com os lugares sagrados. Do topo da colina podem ser avistados inúmeros locais associados com seres míticos, detalhes topográficos do mito de Aine (como os castelos dos reis) e das batalhas reais entre conquistadores e nativos.
   Existem muitas controvérsias a respeito da sua origem, alguns pesquisadores a consideram filha de Eogabail, um rei dos seres míticos Tuatha de Dannan, que teria sido o filho adotivo do deus do mar Manannan Mac Lir, outras vezes como sendo esposa e algumas vezes filha dele. Como Rainha dos reinos encantados Aine pertencia aos Tuatha de Dannann e aos Sidhe e era conhecida como Lenan Sidhe, a amada ou Ain Cliar, a luminosa. Inúmeros lugares eram dedicados a Aine na Irlanda como Knoc Áine (Condado de Limerick), Tobar Áine (Condado de Tyrone), Dun Áine (Condado de Louth), Lios Áine (Condado de Derry). Com o nome de Aine Marine e Aine of Knockaine, ela é associada com Knoc Aine/Knockaine, a sua colina em Munster. Na literatura ela foi descrita como uma “Rainha das Fadas”, a mais famosa sendo Titânia, da peça “O sonho de uma noite de verão” de Shakespeare.
   Assim como outras deusas celtas, Aine tem diversos aspectos associados a diferentes coisas e atributos, sendo regente do Sol, junto com suas irmãs Fenne e Grainne e também das fases lunares. Como deusa tríplice, sua face de Donzela era tanto generosa, quanto vingativa, recompensando os devotos com o presente da inspiração poética ou os punindo com a loucura, se tivesse sido ofendida ou menosprezada. Ela era invocada geralmente para ajudar, mas se fosse desrespeitada, a sua vingança não tardava. Como Mãe, era associada aos lagos e poços sagrados, cujos mananciais possuem poderes curativos, a fonte dedicada a ela Tobar-na-Aine era renomada pelos poderes curativos. A sua intensa sexualidade a tornou inimiga da igreja cristã, sendo vista como uma ameaça ao matrimônio e à castidade. Mesmo que o simbolismo relacionado com a Deusa Mãe tenha sido esquecido quase por completo desde que começaram os ritos cristãos nas igrejas, o ato de invocação da vida nunca enfraqueceu e ela era reverenciada como protetora da gravidez e das mulheres, punindo aqueles que as tivessem ofendido, agredido, perseguido ou violentado. Como Deusa Escura e regente do teixo, Aine era considerada a “Anciã de Knockaine”, caridosa com aqueles que lhe pediam ajuda, mas vingativa com quem a explorava pela má fé. Por ser uma deusa detentora do poder da vida e da morte, Aine podia aparecer para os homens como uma mulher sábia de rara beleza, qualificada como sidhe leannan, ou seja, “uma amante-fada-fatal” que exercia tal atração sobre os homens, que eles sucumbiam aos seus encantos e muitas vezes não sobreviviam. As mais dramáticas e poéticas histórias do folclore celta são as que relatam o amor entre mortais e os seres sobrenaturais, mas que não perduram devido a certos tabus, maldições, diferenças de vibrações e costumes. Acredita-se que a “amante-fada-fatal” ainda se manifesta nos dias de hoje e quando escolhe um homem mortal, este está fadado à morte certa, pois esta é a única maneira viável para que os dois possam ficar juntos e concretizar seu grande amor.
   Existem muitas lendas sobre as escapadas amorosas de Aine, às vezes ela casava com jovens vigorosos e tinha filhos “encantados”, que dela recebiam o poder de ver o “Povo das Fadas” com a ajuda de um anel mágico. Quando ela se apaixonou pelo jovem e belo herói Fionn, ela jurou que jamais iria amar um homem com cabelos grisalhos. Mas uma das suas irmãs também amava Fionn e através de um encantamento conseguiu que seus cabelos ficassem grisalhos, mesmo ele continuando jovem. Fiel à sua geasa (promessa mágica) Aine afastou o herói. Segundo outra, entre tantas lendas, conta que Aine estava sentada nas margens do lago Lough Gur, penteando seus longos cabelos dourados, quando Gerold, o Conde de Desmond, a viu e sentindo-se fortemente atraído por ela, roubou-lhe o manto dourado e só o devolveu, quando ela concordou em casar-se com ele. Desta união nasceu Geroid Iarla ou Earl Gerald, denominado "O Mago"; após o nascimento do menino, Aine impôs ao Conde Desmond, um tabu que o impedia expressar surpresa a qualquer coisa que o filho fizesse. Entretanto, ele quebrou tal tabu, exclamando alto quando viu o filho entrando e saindo de um frasco, fato que desfez o encanto e Aine recuperou sua liberdade. Aine dirigiu-se para a colina de Knockaine, transformando-se em um cisne; dizem que é lá que ela ainda reside em seu castelo encantado, cercada por Fadas. Em outra versão, ela se recolheu na ilha Garrod no lago Lough Gur no condado de Limerick e Gerald depois transformou-se em um ganso selvagem que voou alto seguindo o rio Lough, encontrando repouso no castelo da mãe. Lough Gur era um antigo sitio sagrado pré-histórico, com reminiscências de câmaras subterrâneas, grutas e círculos de pedras do período neolítico ao seu redor, onde foram encontrados restos de oferendas votivas e grãos.
   Outra lenda descreve como Gerald vivia abaixo das águas do lago, de onde saia cada sete anos cavalgando ao redor do lago até gastar as ferraduras de prata do seu cavalo, dia em que ele voltará para expulsar estrangeiros e malfeitores da Irlanda. Dizia-se também que de sete em sete anos ele emergia das águas como um fantasma montado em um cavalo branco; o lago sumia dentro da terra aparecendo no seu lugar uma árvore sobrenatural, coberta com tecidos verdes e guardada por uma anciã, que tinha o poder de elevar as águas do lago se a árvore corresse perigo.
   Em outra lenda, o rei Ailill matou Egbal, o pai de Aine e a violentou, mas ela relutou e arrancou sua orelha, o que lhe ocasionou o apelido de Ailill-sem-orelha. Aine jurou se vingar e após um tempo, Ailill foi morto por ela com uma poderosa magia, da mesma forma como se vingou de outro rei, que também a ofendeu. Seu filho Egan - que nasceu após ela ser violentada por Aillil - se tornou rei de Munster e fundador de uma famosa dinastia. Muitas famílias de Munster com o sobrenome de O'Corra ainda acreditam que são descendentes de Aine, por eles venerada como a melhor e mais bondosa deusa. Existem muitas situações que se repetem ao longo da história celta, em que uma deusa ou rainha é violentada e conquistada por um rei, simbolizando o domínio dos invasores sobre a população nativa e a decorrente vingança da terra quando maltratada ou destruída. Em todas estas lendas percebe-se como a determinação, engenhosidade e paciência de Aine ou de outras deusas ou rainhas, as ajudaram se libertar das imposições patriarcais.
   Aine tinha o poder de metamorfose, se transformando tanto em um cisne branco, quanto em uma égua vermelha de nome Lair Derg, e que ninguém conseguia alcançá-la. Acreditava-se que na noite do Solstício de Verão, moças virgens, que pernoitassem na colina de Knockaine, poderiam ver a Rainha das Fadas passando com toda a sua comitiva. O mundo das fadas só se tornava visível pelos portais mágicos, chamados “anéis de fada”, círculos marcados na grama ou no meio de árvores, que eram indicados pela própria Aine. Uma gruta de Knockaddon supunha-se ser ligada a Tir na n’og (o “Outro Mundo” celta) e de lá Aine chegava no Lammas para dar à luz a um feixe de grãos, o seu filho Eithne (o termo gaélico para grãos). Três dias no ano eram dedicados à ela: a primeira sexta-feira, sábado e domingo após o Sabbat de Lammas. Era nestes dias que ela retornava como uma mulher sábia, que ensinava aos homens como caminhar em união e amor sobre a terra, domínio da sua mãe, a deusa Danu. No Sabbat Samhain dizia-se que Aine saia das suas colinas cavalgando um touro vermelho e era reverenciada com fogueiras acesas em todas as colinas sagradas. Sendo associada com os Sabbats, Aine podia se manifestar como a Donzela da primavera, a Mãe das colheitas e a Anciã do mundo subterrâneo. Como Donzela aparecia também como uma sereia, que penteava seus longos cabelos com um pente de ouro na margem do lago, continuando a fazer isso até o pente ia ser gasto e seu cabelos ficando brancos. Nos dias dedicados a Aine era proibido derramar sangue, para que a centelha vital não se esvaísse do corpo de outros animais ou doentes. Às vezes ela era vista numa barco junto com seu pai Manannan ajudando os marinheiros perdidos. Durante a grande fome ocasionada pela crise irlandesa das batatas, Aine aparecia no topo da sua colina entregando comida para os famintos.
   Aine era invocada no Solstício de verão na colina de Knockaine para ritos de amor, fertilidade e abundância das colheitas, prosperidade das pessoas, separações e desfechos dolorosos nas relações amorosas. Ela ampliava a visão e podia facilitar o contato com o mundo das Fadas, potencializando os poderes mágicos e extrassensoriais. Os camponeses saiam em procissão após acenderem as fogueiras na sua colina e caminhavam pelos campos com tochas acesas, feitas com feixes de palhas e ervas solares amarrados em postes. Eles purificavam os campos e o gado com as chamas, pedindo proteção e fertilidade e esperavam que Aine e os Sidhe aparecessem para eles, abrindo um portal para o Outro Mundo. As cinzas das fogueiras eram espalhadas depois nos campos para atrair fertilidade. Nas noites de lua cheia, os doentes eram levados para se banharem no Lough Gur; se até o nono dia eles não se curavam, as pessoas sabiam que em breve iriam ouvir o canto das ancestrais Banshee, prenunciando-lhes um sono profundo e sem dor, durante qual iam passar para o reino dos Sidhe. Após a sua passagem, havia uma vigília prolongada, quando os familiares se reuniam entoando os cantos de lamento chamados keenings, dádiva das banshees.
   As mulheres idosas honram ainda Aine no Samhain e Litha e queimam ervas aromáticas para purificar as casas e afastar as doenças. Elas acreditam que foi Aine que impregnou o aroma nas flores e frutos e que seu brilho aquece os corpos e ilumina as almas. Apesar da sua memoria ter se perdido na bruma dos tempos, os velhos costumes e tradições guardados no folclore são resgatados por pesquisadores e adeptos atuais das tradições celtas. Cada ano, um número maior de pessoas se reúne no solstício de verão na colina Knockaine, saúda o nascer do sol e homenageia Aine, “A Brilhante” com canções, orações e oferendas de flores, grãos e leite.
   A mensagem que Aine traz para as mulheres atuais é acreditar no seu próprio poder, firme e forte, mas envolto na cor diáfana da suavidade amorosa. Ela nutre o corpo e o espírito com calor e luz, sendo protetora da natureza vegetal, animal e humana. Aine confere fertilidade física, mental e espiritual, apoia e incentiva o alcance dos sonhos e ambições com palavras que poderiam ser resumidas nesta frase: ”arrisque-se e coloque o desejo do seu coração em ação!”. Mesmo quando os planos iniciais não se concretizaram, a mulher deve seguir adiante, com coragem e confiança, sem permitir que opiniões e movimentos alheios impeçam a busca dos seus objetivos. Ficar parada ou lamentar perdas e fracassos não leva a nada e o tempo passa sem perceber, deixando para trás lamentos, remorsos e inação. São as perdas e fracassos do passado que nos ensinam a viver melhor, não se pode julgar uma decisão passada com o discernimento do presente, pois as decisões são tomadas com a consciência do momento. É importante saber qual é a missão que a mulher veio realizar no mundo e se empenhar para cumpri-la, com todas as suas forças. “Confiar, se preparar e agir” é o legado deixado por Aine para as mulheres; após ter refletido, tomado uma decisão e estabelecido um plano de ação, deve ser dado inicio ao caminho escolhido, com pequenos e cautelosos passos, sem parar, titubear ou recuar. Com a ajuda de Aine, as mulheres podem resgatar, diversificar e expressar o ilimitado potencial da natureza e essência feminina.
   Aine pode ser invocada em ritos de amor, fertilidade, na gravidez, magia natural com a ajuda das fadas, abundância, prosperidade, separação dolorosa, para punir traições e ofensas das mulheres por homens, quebras de promessas e exploração da terra. Ela amplia nossa visão e pode facilitar o contato com os mundos sutis; por dominar as artes mágicas, Aine auxilia a potencializar os dons mágicos e extrassensoriais, sendo-lhe atribuído o poder da energia vital, a centelha sagrada que sustenta os seres vivos.
   Seus símbolos mágicos são: égua vermelha, lebre, gado, ganso selvagem, cisne, plantações férteis, bastão, sinos, flores, trevo de três folhas, madressilva, angélica, amoras, sabugueiro, linho, alho, artemísia, lavanda, urtiga, hera, visco, azevinho, bétula, freixo, teixo, carvalho, fitas multicoloridas e harpa.

A seguir algumas invocações tradicionais para Aine:

Senhora das Colinas, Filha do mar, Rainha radiante das Fadas,
Linda Aine Brilhante, Aine Chlair, que rege o calor do verão,
Venha a nós, estenda teu manto dourado e nos abençoe.
Deusa que ilumina os caminhos e orienta nossos passos
Traga alegria e harmonia para nossos corações,
Lavaremos nossos rostos com nove raios do sol
Encontraremos a paz envoltas pelo manto dourado de Aine,
Seremos abençoados ao acordar e quando deitar.
Durante o dia e à noite, quando chegarmos e sairmos,
A luz estará na nossa frente, atrás de nós, dentro de nós e fora de nós,
Pois o manto dourado de Aine Cil sempre nos envolverá.
Senhora da Luz, nós te louvamos,
Te reverenciamos e sempre respeitaremos o teu legado!

Aine, Grande Deusa da Irlanda
Deusa da Lua, do amor
Encorajadora da paixão no coração dos homens
Invoco o teu poder, vem até mim
Rainha das Fadas de Munster
Tu que governas a agricultura, a fertilidade, as colheitas e os animais
Sol dourado que se transforma em Lair Derg,
A égua vermelha que ninguém pode domar,
Me ensina teus mistérios, compartilha comigo tua sabedoria
Tu que és a Mãe, mostrando tua face curadora nos lagos e fontes
Tu que és a Anciã, Leannan Sidhe, que aparece aos mortais com tua grande beleza
Para levá-los ao Outro Mundo.

Eu te invoco Aine, Grande Mãe
Toque a cabeça dos meus filhos para crescerem fortes
Deixe teu pó dourado cobrir meus lábios
Para atrair os beijos do meu amado
Pare a mão daqueles que cortam as árvores,
Ajude-os a descobrir como tornar a terra verde
Fortalece a mão de quem planta sementes
Nos campos e terras áridas.
Ajuda as flores a se transformarem em frutos
Que sejam degustados por todos com gratidão por Ti
Faça ouvir teu canto suave até os cantos remotos da Terra
Nutra as águas da minha alma
Toque-me com Tua sabedoria
Ao despertar em cada dia
Para que a luz do teu brilho
Desperte a minha luz interior
Abençoada sejas
Aine Deusa dourada!

Brigid, Deusa e Santa

BRIGID, DEUSA E SANTA.

“Brigid, mulher excelente, chama espontânea dourada e flamejante, brilho do sol radiante, conduza-nos para o reino divino”.
Do hino irlandês Brigid be Bithmaith

Não há como duvidar do extenso culto – antigo e atual – dedicado a Brigid. Ela é um arquétipo poderoso no mundo contemporâneo, que ultrapassa barreiras religiosas ou filosóficas. Seu poder alcança tanto os adeptos do neopaganismo (druidismo, Wicca, seguidores da Tradição da Deusa) que a cultuam no Sabbat Imbolc como uma Deusa Tríplice, padroeira das artes, cura e magia, bem como os cristãos, que a reconhecem como uma mulher real, santificada e venerada, cujos milagres continuam a acontecer até hoje.

A deusa Brigid foi descrita em mitos, lendas, biografias e histórias como uma mulher extraordinária, poderosa, amorosa e enérgica, com traços contraditórios, mesclando fogo e água, determinação e compaixão, cura e combate, virgindade e maternidade, centrada e dedicada na sua missão de proteger e cuidar do seu povo. Para os seus seguidores pagãos, ela é a Deusa Tríplice, padroeira da arte, cura e magia, Senhora do fogo sagrado e das fontes curativas. Para os cristãos, ela é Santa Brigid, uma mulher simples, mas que pela sua vida pura, sua fé e a doação irrestrita para auxiliar doentes e pobres, pode vir a alcançar a santidade. Para os poetas e artistas, ela é a Musa, que os inspira e conduz para a fonte da criatividade. Para os camponeses, ela era a protetora dos rebanhos e da fertilidade da terra, regente da prosperidade, associada às colheitas e ao gado.

A data exata do início do seu culto pagão é desconhecida, acredita-se que foi há milênios, sendo uma das deusas mais antigas, “contemporânea” com Inanna, Ishtar, Ísis, Hera, Gaia, Freyja. A Irlanda pagã foi formada por uma amalgamação de povos indígenas, os construtores dos monumentos neolíticos e as tribos celtas, que chegaram em várias ondas migratórias entre o século VII a.C. e o primeiro d.C. Não se sabe ao certo qual é a sua verdadeira origem, nem a antiguidade do seu culto. Porém, independentemente das suas raízes históricas ou geográficas, seu culto floresceu na Irlanda, Escócia e Bretanha e seu nome imortalizado em várias fontes na França, Espanha, Suécia. Adaptado para a figura cristã da santa, este culto persiste até hoje e centenas de lugares e pessoas na Irlanda guardam seu nome e seus costumes.

A tradição oral celta preservou muitos mitos, lendas e poemas, mas com o passar do tempo e as contínuas guerras, muito do legado ancestral foi perdido. Suas lendas permaneceram ao longo de gerações, transmitidas pelos bardos e poetas (filid) e, mesmo truncadas ou distorcidas pelos monges e historiadores cristãos, preservaram fragmentos da sua esquecida sabedoria e poder. Muitas das lendas da Santa são compilações dos mitos da Deusa, mescladas com elementos cristãos, com o propósito de atrair os pagãos celtas para o cristianismo. Referências escritas apareceram apenas séculos depois da sua morte, reunindo histórias confusas sobre sua suposta identidade, considerando-a ora como a parteira e madrinha de Jesus (que nasceu séculos após) e invocada pelas parturientes, ora a própria Maria. A Deusa foi transformada em Santa a fim de legitimar e promover a conversão para a nova religião, um passo importante para estabelecer a mudança de costumes. O antigo templo de fogo de Kildare da deusa na Irlanda, destruído pelas guerras e os saques, foi recuperado e transformado em catedral da santa. A sua chama sagrada, depois de extinta pela perseguição reformista, foi acesa novamente e continua sendo mantida até hoje pelas freiras da ordem Brigidina.

Os inúmeros nomes da deusa Brigid originaram-se nos vários lugares do seu culto, assim como suas representações: Breo Saighit, a “Flecha Ardente” celta (o nome que melhor representa o poder da sua chama sagrada), a escocesa Bride, a irlandesa Brigid , Brighd ou Bhrid, a gaélica Brighid (pronuncia-se Breed), a inglesa Brigantia, cultuada nas terras do Norte da Inglaterra e parte da França e Espanha (o seu aspecto de Guerreira, com flecha e cetro, mas também mediadora da paz), Brigandu na Gália, Bridget na Suécia, Briid ou Brede na Ilha de Man, Ffraid no País de Gales e Mary of the Gael nos poemas.  Tão diversos quanto os nomes são os seus títulos, que descrevem seus atributos: Brigid, a Vitoriosa, Guerreira imortal, Rainha do Povo das Fadas, Mãe das canções e poesias, Senhora das fontes, Chama do coração das mulheres, Fogo que arde sem deixar cinzas, Mãe da sabedoria, A mais elevada, Deusa da cura com manto verde e cabelos vermelhos.

Em algumas lendas Brigid aparece como filha dos deuses arcaicos da terra Dagda e Danu (ou Boann), fazendo parte do povo sagrado Tuatha de Dannan. Em outros mitos é considerada consorte de Dagda ou de Bres, o “Lindo Guerreiro” (descendente dos Fomorians, a raça que regeu a Irlanda antes dos Tuatha de Danaan), ou sendo “Senhora do mar”, filha do deus do oceano Lir. Da sua união com Bres teria tido um filho - Ruadan- que representava a mescla das energias dos seus genitores: Danaan e Fomorian. Na maioria dos mitos prevalecem, no entanto, suas características de deusa virgem, guardiã da tocha e da lareira, protetora das mulheres e dos caminhos, sua energia sendo ígnea, direta, rápida, iluminadora e vitalizadora.

Brigid é o raio do relâmpago ou a chama do fogo que ilumina a terra, deixando atrás um rastro de luz ou clareza nas mentes e corações humanos. Às vezes é vista como a face jovem da Deusa, Danu ou Cerridwen sendo a Mãe e Cailleach a Anciã, que cede seu lugar para Brigid no Sabbat Imbolc, substituindo o frio do inverno pelas promessas da primavera, trocando o cetro de gelo pelo ramo verde. O seu aspecto de regente das fontes permaneceu no culto da deusa Sulis, adotada pelos romanos como Sulis Minerva e cultuada nas antigas termas de Aquae Sulis, atual cidade inglesa de Bath, onde a energia dela ainda pode ser percebida na fonte subterrânea, repleta de oferendas dos visitantes.

Brigid foi equiparada a várias deusas: com Juno pela tribo dos Brigantes, com Minerva, Hécate, Héstia, Vesta, Ártemis, Diana, Tanit e Sulis pelos romanos. Existem semelhanças entre o mito de Brigid e os de algumas deusas solares como Lucina, a padroeira romana da luz, a báltica Saule e a nórdica Sunna. Algumas lendas celtas atribuem a Brigid uma dupla apresentação: donzela e anciã, Brigid e Cailleach, primavera e inverno, dualidade semelhante às gregas Perséfone e Deméter. Como uma Tuatha de Danaan ela era ligada aos Sidhe, o “Povo das Fadas”, sendo a sua rainha; ela usava como emblema um manto verde, um cinto mágico e uma coroa de ouro. Foi ela quem implantou o keening, os lamentos das vigílias irlandesas que pranteavam os mortos. Nas lendas arturianas, Brigid é descrita como a Guardiã da macieira sagrada de Tir nan Gog, “a terra das mulheres ou da juventude” e a maga artesã que forjou a espada Excalibur. Ela era descrita como doadora da vida e parteira, poeta e artesã, curadora e guerreira, fada e soberana, maga e profetisa, uma figura mítica e multifacetada, que transita entre realidade e fantasia. O arquétipo complexo e múltiplo de Brigid - a mais cultuada das deusas celtas – também amalgamou vários aspectos das antigas deusas irlandesas como Boann, Danu, Macha, Morrigan. Mas ela é uma divindade tão intensamente relacionada com a sacralidade feminina, que a nenhum homem era permitido ultrapassar a cerca ao redor do seu santuário.

Deusa soberana e provedora da terra, guardiã do fogo celeste e telúrico, regente das fontes e ervas curativas, ficou mais conhecida como uma “Deusa Tríplice”, regente das artes (poesia, canto, artesanato, tecelagem, metalurgia, joalheria), da cura, fertilidade, purificação e renovação pela água (pelas fontes e os mistérios das ervas), da magia, oráculos e profecia. Como “Senhora do Fogo Tríplice” ela regia a inspiração (sendo a Musa), a forja (padroeira da metalurgia e das artes marciais), a tocha e a lareira (protetora das casas, das mulheres, famílias e dos viajantes). Nas imagens, Brigid aparece como uma jovem com cabelos ruivos, segurando uma chama, junto de seus animais totêmicos (vaca branca com orelhas vermelhas, cisne, peixe, ovelha, javali ou serpente) ou perto de uma fonte. Outra apresentação é como uma tríade de deusas, cada uma segurando o símbolo dos seus dons (tocha ou chama, ferramentas, cálice cercado com serpentes entrelaçadas ou ervas curativas).

Brigid era honrada como “Senhora dos Bardos” pelos seus dons de inspiração, criatividade, encantamento, fluidez e graça. Para os antigos celtas o fogo era a fonte da inspiração, a iluminação divina procurada pelos poetas, bardos e magos. As suas criações – poemas, canções, histórias, lendas - eram compartilhadas com os demais ao redor de fogueiras, para assim lembrar e honrar os antigos caminhos, mantendo viva a memória da tribo e a reverência dos ancestrais. No fim do inverno, a família ou o clã se reunia próximo ao fogo ou à lareira (buscando o aconchego da chama de Brigid, deusa mãe e protetora do lar), quando o músico, poeta ou o contador de histórias reanimava as pessoas enfraquecidas pelo frio com canções, poemas, relatos e sagas de heróis. Por serem faladas e não escritas, estas histórias eram transitórias na sua natureza e assim como o fogo, não podiam ser dominadas por aqueles que não tinham preparo; o uso das palavras exigia reverência e competência, habilidades além do alcance dos não iniciados. Por isso Brigid foi associada com as propriedades etéreas de todos os tipos de fogo (Imbas) - da forja, da lareira e fogueira, do sol, da transmutação, da cura e do sopro mágico. O fogo era visto pelos celtas como uma energia espiritual latente em todas as coisas e inerente a certos processos cognitivos do intelecto humano, bem como a alguns estados emocionais como paixão, caridade, amor, etc.

A inspiração e a poesia eram associadas pelos celtas também com a água, outro domínio de Brigid, reverenciada como “Senhora das fontes sagradas”, que uniam simbolicamente o mundo subterrâneo, mediano e o superior, por nascerem na escuridão da terra, fluírem para a superfície e refletirem a luz do céu. Da mesma forma, as ideias e visões ocultas do subconsciente podiam ser reveladas pela inspiração e intuição, energias sutis que fluíam livremente para a mente consciente e racional.

Uma composição de personagens dos mitos irlandeses e galeses deu origem à Santa, cujo principal título era ”Brigid, a santa do manto verde e cabelos de ouro (ou fogo)”, traços marcantes das imagens da Deusa. Ela supostamente nasceu entre 439-452 e morreu entre 518-525 da nossa era,  sendo filha de um druida e uma escrava pagã. Seu nascimento foi cercado de fenômenos estranhos (a presença de dois sois no céu) e aconteceu quando sua mãe passava pela soleira da casa, trazendo a ideia dos limiares e fronteiras, considerados lugares sagrados para os celtas. Os que presenciaram o nascimento deste bebê de mística beleza puderam relatar que da sua cabeça surgiam chamas de cor vibrante, como se fosse uma coroa de raios solares.  Alguns dias depois, os vizinhos alarmados viram labaredas saindo da casa em que os pais de Brigid moravam; mas chegando lá, encontraram a menina dormindo tranquila no seu berço e sem nenhuma marca do fogo. Enquanto criança, Brigid recusava qualquer tipo de comida além do leite de uma vaca branca com orelhas vermelhas (cores atribuídas aos animais do “povo das fadas”). Quando jovem ela era uma moça generosa, doando seus pertences e comida aos pobres, sem se interessar em namorar ou casar, almejando apenas a vida religiosa. Era amiga e seguidora dos ensinamentos de São Patrício (o missionário que cristianizou Irlanda). Quando o seu pai permitiu que se dedicasse à vida monástica, foi consagrada diretamente como abadessa em lugar de ser ordenada como simples freira, devido a uma falha inexplicável do oficiante, que recitou o juramento errado (sendo vista nesta hora uma coroa de chamas cercando a cabeça de Brigid).

Brigid se empenhou em criar uma comunidade de mulheres, junto com outras dezenove noviças em Cill Dara, “a igreja de carvalho” (atual Kildare), na Irlanda, que foi crescendo até se transformar em um grande mosteiro, o primeiro centro irlandês de estudos e artes, que incluía trabalhos com metais e ilustração dos manuscritos antigos. Lá, as mulheres dos arredores aprendiam como cuidar de pobres e doentes, auxiliar as gestantes e parturientes, curar com ervas e a energia das mãos, fiar, tecer, bordar, abençoar, fazer encantamentos e predições. A vida de Brigid foi repleta de milagres como: a cura de doenças com o toque das suas mãos, a multiplicação da comida (leite, manteiga, grãos, cerveja), o encontro de animais extraviados e a descoberta dos ladrões; o mais famoso fato mágico foi quando pendurou seu manto molhado sobre um raio de sol. Quando Brigid foi pedir mais terra para sua comunidade ao rei, ele lhe concedeu uma área que o seu manto pudesse cobrir. Brigid tirou seu manto e quando o estendeu, ele cobriu uma enorme área ao redor, que lhe foi depois concedida pelo rei, impressionado com este milagre. Como ferrenha defensora das mulheres, Brigid educava as jovens para seguirem uma profissão, libertava escravas, incentivava esposas maltratadas para pedirem divórcio, auxiliava nos partos ou abortos. Todos estes atos de poder reproduziam os atributos da Deusa: fertilidade, abundância, cura, comunicação com animais, auxílio permanente dado às mulheres e parturientes, aos pobres e doentes.

Após a sua morte, o fogo do seu templo continuou aceso, guardado cada dia por uma das dezenove sacerdotisas ou freiras da sua ordem; na vigésima noite era a própria Brigid que o cuidava. O fogo requeria muita lenha, porém as cinzas dele não aumentavam jamais. A preservação da chama sagrada de Brigid foi mantida pelas freiras até que o seu culto foi proibido mil anos depois. Ela foi enterrada num caixão de ouro e prata em Kildare, mas depois, devido aos saques das incursões Vikings, seus ossos foram levados para o túmulo do Santo Patrício, porém despareceram algum tempo depois. Algumas das suas relíquias ainda existem em igrejas e museus como seu manto verde na Bélgica, seus sapatos no museu de Dublin e outros objetos em lugares mais distantes, que a santa viva jamais percorreu. Santa Brigid é padroeira da Irlanda (junto com São Patrício), das ordens das freiras irlandesas e de Nova Zelândia. Mesmo como santa, ela continua sendo - assim como a deusa - protetora dos agricultores, fazendeiros e criadores de gado, ferreiros, curandeiras e parteiras, crianças e mulheres, poetas, artistas e escritores (que começavam seus escritos com a frase gaélica Adjuva Brigitta, “ajude Brigid”).

A sua representação como Santa tem elementos reais e míticos, alguns historiadores negam a sua real existência, mas foi através dela que a Igreja cristã celta permitiu a perpetuação - de maneira velada e modificada–do culto da deusa Brigid, que, por não poder ser erradicado, foi readaptado pela igreja e transformado para a reverência atual da Santa. Na Irlanda, 1500 anos depois da morte de Brigid, sua memória permanece viva nos corações dos seus fiéis e seus símbolos continuam sendo confeccionados e usados, mesmo que nem todos os que os confeccionam e usam conheçam seu significado sagrado. Tendo feito a transição da condição de Deusa para Santa, preservando o nome, os símbolos e costumes antigos, a figura de Brigid representa uma ponte (bridge em inglês) entre paganismo e cristianismo, continuando como guardiã da sacralidade feminina.

O Sabbat Imbolc da Roda do Ano celta se originou de um antigo ritual de bênção da terra (honrada como ”o ventre da deusa”), feito na chegada da primavera, antes do campo ser semeado, para propiciar fertilidade e proteção. Grãos e espigas da colheita anterior eram usados como oferendas nesta celebração e depois de abençoados com água de uma fonte sagrada, eram misturados com as sementes destinadas ao próximo plantio. Imagens de Brigid eram levadas em procissão para abençoar os campos e atrair a fertilidade, costume preservado mesmo após a cristianização e perpetuado até hoje pelos padres cristãos. Atualmente inúmeros peregrinos buscam as bênçãos de Brigid nos seus lugares sagrados como: Kildare (onde ainda existe sua antiga fonte, a catedral e uma nova igreja), Faughart (o lugar onde ela nasceu e onde vários locais são a ela associados), ambos na Irlanda e as Ilhas Hébridas (cujo nome é associado à Deusa). Glastonbury - na Inglaterra - é um lugar sagrado muito ligado ao arquétipo de Brigid, a forma do seu relevo topográfico parece um cisne (animal sagrado da Deusa), enquanto a pequena colina de Bride’s Mount e a gravura da Deusa (ao lado da sua vaca) sobre o portal da igreja na colina do Tor lembram a estadia da Santa durante algum tempo na cidade. Na fonte sacra de Chalice Well sacerdotisas do Goddess Temple realizam rituais e bênçãos no Sabbat Imbolc. Existem inúmeras fontes (chamadas Tobar Brighde e Clootie Wells) na Irlanda, Escócia, Grã-Bretanha, onde colares, rosários, tranças de fitas, cruzes de palha e pedaços de roupas dos doentes amarrados nas árvores ao redor, comprovam a continuidade do culto de Brigid, como Deusa e Santa, até hoje.

A conexão com Brigid no Sabbat Imbolc pode ser feita individualmente nas margens de um rio, cachoeira, córrego ou simplesmente em casa perto de uma fonte usada na decoração; visualiza-se a purificação pelo poder da água e pede-se à deusa a cura para algum problema específico (seu ou de familiares). Antigamente, as mulheres abriam as portas e janelas das casas pedindo para que Brigid entrasse e as abençoasse, o que pode ser feito também agora. No final da meditação, após agradecer à Deusa pela ajuda recebida, deve-se abençoar-se com água, riscando o símbolo sagrado de triskelion sobre si mesma. Uma antiga tradição irlandesa recomenda deixar um pedaço de pano de algodão (branco ou verde) perto da sua imagem no dia dedicado à celebração do Sabbat Imbolc (primeiro de fevereiro) pedindo à deusa para impregnar o pano com suas energias curadores. Guarda-se depois o pano envolvido em papel de seda para usá-lo quando precisar, colocando-o sobre a parte doente do corpo.

Um símbolo tradicional de Brigid pode ser confeccionado com palha seca ou espigas de trigo em forma de triskelion ou cruz de Brigid (Cros Bhrid), cujos modelos e técnicas de trançar se encontram na internet. Um antigo costume irlandês recomenda confeccionar uma figura feminina de palha para representar a Bhrid Doll. Esta boneca, feita tradicionalmente com as últimas espigas (de trigo
ou aveia) colhidas, era colocada perto da lareira na véspera de Imbolc, em uma cama de palha ou lã de ovelhas, junto com um bastão enfeitado com fitas, tudo cercado por velas acesas. Convidava-se assim a presença da Deusa para abençoar a casa e seus moradores. Antigamente esta boneca era depois enterrada junto com as sementes durante o plantio, mas atualmente, em Glastonbury, as mulheres que reverenciam e celebram Brigid guardam as bonecas por elas confeccionadas (Bride Doll) no Goddess Temple depois de abençoá-las na fonte sagrada de Chalice Well. A fileira de Bride Doll mostra as diversas representações  da inspiração e sabedoria femininas.

Nos grupos e círculos de mulheres Brigid é invocada para conferir criatividade, inspiração, poder mágico e a capacidade de manifestar ideias no mundo material. Para honrá-la, ou pedir sua ajuda ou proteção, usam-se velas laranja, que devem ficar acesas durante dezenove dias, reservando em cada dia um tempo para orar e visualizar seu projeto, sendo então abençoado por Brigid. Durante a meditação, podem aparecer visões e mensagens de Brigid; no final deste período deve ser feita uma oferenda de gratidão para ela (grãos, sementes, pão, mingau de aveia, mel, manteiga, leite, cerveja).

Os círculos de mulheres que seguem a Tradição da Deusa costumam realizar seus rituais de dedicação e iniciação na senda da sacralidade feminina em torno da data de Imbolc (conforme descrito no livro Círculos sagrados para mulheres contemporâneas).  Esta data representa um tempo propício para o plantio de novas sementes: da criatividade, dos novos projetos e realizações, de cura e renovação energética, de atração ou mudanças nos relacionamentos e das bênçãos nos caminhos espirituais. Podem ser abençoadas nesta data dezenas de velas para usar durante o ano, preparados altares com a imagem da Deusa, uma vela de cera, um cálice ou fonte com água, ervas aromáticas ou incenso, um pote com terra, símbolos (lua, cruzes solares, triskelion, pentagrama), objetos associados com a sua profissão, vocação e projetos futuros, oferendas de pão, grãos, leite, manteiga, mel e cerveja. Invoca-se Brigid na sua qualidade de protetora com esta simples oração, que pode ser repetida diariamente:

Brigid, deusa vitoriosa da luz,
Cubra-me com teu manto sagrado,
Vigie-me sempre com teus olhos,
Proteja-me com teu cajado,
De manhã e até anoitecer,
Por onde eu andar ou estiver,
De dia ou de noite, que eu seja sempre protegida,
Honrada, acolhida e favorecida,
Brigid, Deusa poderosa e protetora,
Fique ao meu lado e seja a minha companheira,
Minha conselheira, guardiã e defensora!

A Naoimh Bhrid Gui Orainn
(pronuncia-se A Nem Brid Gui Orin que significa “Santa Brigid ore por nós”!)

A Grande Mãe brasileira

Mirella Faur

O Brasil é o país que concentra o maior número de pessoas a cultuarem uma das manifestações da Grande Mãe como Iemanjá, a deusa ancestral das águas, Senhora do Mar. Só perde para a Índia, onde inúmeras deusas são cultuadas até hoje.

Anualmente, às vésperas do Ano Novo e no dia 2 de fevereiro, milhões de pessoas levam suas oferendas e orações para as praias brasileiras, ou saem em procissões marítimas ou fluviais, similares às antigas cerimônias egípcias e romanas – Navigium Isidi – dedicadas a Ísis, Deusa Mãe protetora dos viajantes e das embarcações.

Apesar da devoção brasileira a Iemanjá, seu culto não é nativo - ele foi trazido ao Brasil no século XIII pelos escravos da nação ioruba. Yemojá ou YéYé Omo Ejá, a “Mãe cujos filhos são peixes”, era o orixá dos Egbá, a nação ioruba estabelecida outrora perto do rio Yemojá, no antigo reino de Benin. Devido a guerras, os Egbá migraram e se instalaram às margens do rio Ogun, de onde o culto a Iemanjá foi trazido pelos escravos para o Brasil, Cuba e Haiti.

Nesses países, Iemanjá passou a ser venerada como a “Rainha do Mar”, orixá das águas salgadas, apesar de sua origem ter sido “o rio que corre para o mar”, sua saudação sendo Odo-Yiá, que significa “Mãe do Rio”.

Analisando os nomes Ya / man / Ya e Ye / Omo / Ejá conforme a “Lei de Pemba” – a grafia sagrada dos orixás, postulada pela Umbanda Esotérica, encontram-se os mesmos vocábulos sagrados que significam “Mãe das águas, Mãe dos filhos da água (peixes) e Mãe Natureza”.

Iemanjá é considerada pela Umbanda Esotérica como uma das sete Vibrações Originais, o princípio gerador receptivo, a matriz dos poderes da água, a representação do eterno e Sagrado Feminino. Portanto, Iemanjá personifica os atributos lunares e aquáticos da Grande Mãe, de padroeira da fecundidade e da gestação, inspiradora dos sonhos e das visões, protetora e nutridora, mãe primeva que sustenta, acalenta e mitiga o sofrimento dos seus filhos de fé.

No entanto, por mais que Iemanjá seja reconhecida e venerada no Brasil, ela não representa a Mãe Ancestral nativa, que tenha sido cultuada pelas tribos indígenas antes da colonização e da chegada dos escravos.

Infelizmente, muito pouco se sabe a respeito das divindades e dos mitos tupi-guarani. A cristianização forçada e a proibição pelos jesuítas de qualquer manifestação pagã, destruiu ou deturpou os vestígios de Tuyabaé-cuáa, a antiga tradição indígena, a sabedoria dos velhos payés.

Segundo o escritor umbandista W.W. da Matta e Silva e seus discípulos Rivas Neto e Itaoman, a raça vermelha original tinha alcançado, em uma determinada época distante, um altíssimo patamar evolutivo, expresso em um elaborado sistema religioso e filosófico, preservado na língua-raiz chamada Abanheengá, da qual surgiu Nheengatu, a “lingua boa”, origem dos vocábulos sagrados dos dialetos indígenas.

Com o passar do tempo, a raça vermelha entrou em decadência e, após várias cisões, seus remanescentes se dispersaram em diversas direções. Deles se originaram os tupi-nambá e os tupi-guarani, que se estabeleceram em vários locais na América do Sul.

As concepções do tronco tupi eram monoteístas, postulando a existência de uma divindade suprema, um divino poder criador (às vezes chamado de Tupã) que se manifestava por intermédio de Guaracy (o Sol) e Yacy (a Lua) que, juntos, geraram Rudá (o amor) e, por extensão, a humanidade. O culto a Guaracy era reservado aos homens, que usavam os tembetá, amuletos labiais em forma de T, enquanto as mulheres veneravam Yacy e Muyrakitã, uma deusa das águas, e usavam os amuletos em forma de batráquios e felinos, pendurados no pescoço ou nas orelhas.

Guaracy era a manifestação visível e física do poder criador representado pelo Sol. Apesar deste astro ser considerado o princípio masculino na visão dualista atual, a análise dos vocábulos nheengatu do seu nome revela sentido diferente. Guará significa “vivente”, e cy é “mãe”, o que formaria a “Mãe dos seres viventes”, a força vital que anima todas as criaturas da natureza, a luz que cria a vida animal e vegetal. Também em outras tradições e culturas (japonesa, nórdica, eslava, báltica, australiana e nativa americana), o Sol era considerado uma Deusa, o que nos faz deduzir que, para os tupi, a vida e a luz solar provinham de uma Mãe - Cy - que só mais tarde foi transformada em Pai.

Yacy era a própria Mãe Natureza, seu nome sendo composto de Ya (senhora) e Cy (mãe), a senhora Mãe, fonte de tudo, manifestada nos atributos da Lua, da água, da natureza, das mulheres e das fêmeas.

Cy - ou Ci - representa, portanto, a origem de todas as criaturas, animadas ou não, pois tudo o que existe foi gerado por uma mãe que cuida da sua preservação, do nascimento até a morte. Sem Cy (mãe), não há nem perdura a vida, pois ela é a Mãe Natureza, o principio gerador e nutridor da vida.

Na língua tupi existem váris nomes que especificam as qualidades maternas: Yacy, a Mãe Lua; Amanacy, a mãe da chuva; Aracy, a mãe do dia, a origem dos pássaros; Iracy, a mãe do mel; Yara, a mãe da água; Yacyara, a mãe do luar; Yaucacy, a mãe do céu; Acima Ci, a mãe dos peixes; Ceiuci, a mãe das estrelas; Amanayara, a senhora da chuva; Itaycy, mãe do rio da pedra, e tantas outras mães – do frio e do calor, do fogo e do ouro, do mato, do mangue e da praia, das canções e do silêncio.

As tribos indígenas conheciam e honravam todas as mães e acreditavam que elas geravam seus filhos sozinhas, sem a necessidade do elemento masculino, atribuindo-lhes a virgindade - o que também em outras culturas simbolizava sua independência e autossuficiência. Em alguns mitos e lendas, as virgens eram fecundadas por energias numinosas em forma de animais (serpente, pássaro, boto), forças da natureza (chuva, vento, raios), seres ancestrais ou divindades.

A explicação da omissão, na mitologia indígena, do elemento masculino na criação era o desconhecimento do papel do homem na geração da criança, além do profundo respeito e reverência pelo sangue menstrual que, ao cessar “milagrosamente”, se transformava em um filho. Somente pela interferência dos colonizadores europeus e pela maciça catequese jesuíta que, na criação do homem, o Pai assumiu um papel preponderante, o Filho tornou-se o segundo na hierarquia, salvador da humanidade - como Jurupary, e à Mãe coube apenas a condição de virgem (como Chiucy).

Porém, apesar do zelo dos missionários para erradicar os vestígios dos cultos nativos da cultura indígena e dos escravos, muitas de suas tradições sobrevivem nas lendas, nos costumes folclóricos, nas práticas da pajelança e encantaria que estão ressurgindo, cada vez mais atuantes, saindo do seu ostracismo secular.

Outro arquétipo da Mãe Ancestral é descrito no mito amazônico da Boiúna, a Cobra Grande, dona das águas dos rios e dos mistérios da noite. Apresentada como um monstro terrível que vive escondido nas águas escuras do fundo do rio e ataca as embarcações e pescadores, a Boiúna ou Cobra Maria é, na verdade, a Face Escura da Deusa, a Mãe Terrível, a Ceifadora, que tanto gera a vida no lodo como traz a morte, no eterno ciclo da criação, destruição, decomposição e transformação.

Outro aspecto da Mãe Escura é Caamanha, a “Mãe do Mato”, que protege as florestas e os animais silvestres, e pune, portanto, os desmatamentos, as queimadas e a violência contra a Natureza. Pouco conhecida, ela foi transformada em dois personagens lendários: Curupira e Caapora. Descritos como seres fantasmagóricos, peludos, com os pés voltados para trás, às vezes com um aspecto feminino, são os guardiões das florestas, que levavam os caçadores e invasores do seu habitat a se perderem nas matas, punindo-os com chicotadas, pesadelos ou até mesmo a morte.

Nas lendas guarani relata-se a aparição da “Mãe do Ouro”, que surge como uma bola de fogo ou manifesta-se nos trovões, raios e ventos, mostrando a direção da mudança do tempo. Em sua representação antropomórfica, ela torna-se uma linda mulher que reside em uma gruta no rio, rodeada pelos peixes e de onde se estende nos ares como raios luminosos, ou então surge na forma de uma serpente de fogo, punindo os destruidores das pradarias.

Em sua versão original, ela era considerada a guardiã das minas de ouro, que seduzia os homens com seu brilho luminoso, afastando-os das jazidas. Seu mito confunde-se com o do Boitatá, uma serpente de contornos fluídicos, plasmada em luz com dois imensos olhos, guardando tesouros escondidos, reminiscência dos aspectos punitivos da Mãe Natureza, defendendo e protegendo suas riquezas. A deturpação cristã do mito punitivo pode ser vista na figura da “Mula sem Cabeça”, metamorfose da concubina de padre, que assombra os viajantes nas noites de sexta-feira (dia dedicado, nas culturas pagãs, às deusas do amor, como Astarte, Afrodite, Vênus, Freyja) e do Teiniágua, lagarto encantado que se transforma em uma linda moça para seduzir os homens, desviando-os dos seus objetivos.

Quanto ao significado esotérico de Muyrakitã, devemos decompor seu nome em vocábulos para compreender sua simbologia feminina: Mura - mar, água; Yara - senhora, deusa; Kitã - flor. Podemos então interpretá-lo como “A deusa que floriu das águas” ou “A Senhora que nasceu do mar”. Esta divindade aquática, considerada a filha de Yacy, era reverenciada pelas mulheres que usavam amuletos mágicos chamados ita-obymbaé, confeccionados com argila verde, colhida nas noites de Lua Cheia no fundo do lago sagrado Yacy-Uaruá (“Espelho da Lua”), morada de Muyrakitã. Esses preciosos amuletos só podiam ser preparados pelas ikanyabas ou cunhãtay, moças virgens escolhidas desde a infância como sacerdotisas do culto de Muyrakitã - vetado, portanto, aos homens.

Nas noites de Lua Cheia, as cunhãtay, devidamente preparadas, esperavam que Yacy espalhasse sua luz sobre a superfície do lago e, então, mergulhavam à procura da argila verde. A preparação das virgens incluía jejum, cânticos e sons especiais (para invocar os poderes magnéticos da Lua), além da mastigação de folhas de jurema, uma árvore sagrada que contém um tipo de narcótico que facilitava as visões. Enquanto as cunhãs mergulhavam, as outras mulheres ficavam nas margens do lago entoando cânticos rítmicos ao som dos mbaracás (chocalhos). Depois de “recebida” a argila das mãos da própria Muyrakitã, ela era modelada em discos com formato de animais, sendo deixado um pequeno orifício no centro. Em seguida, todas as mulheres realizavam encantamentos mágicos, invocando as bênçãos de Muyrakitã e Yacy sobre os amuletos, até que Guaracy, o Sol, nascia, solidificando a argila com seus raios.

Esses amuletos, que ficaram conhecidos com o nome de muiraquitã, tinham cor verde, azul ou cor de azeitona e eram usados no pescoço ou na orelha esquerda das mulheres. Acreditava-se que eles conferiam proteção material e espiritual e que podiam ser utilizados para prever o futuro, nas noites de Lua Cheia, depois de submersos na água do mesmo lago e colocados na testa das cunhãs, invocando-se as bênçãos de Yacy e Muyrakitã.

No nível exotérico, profano, o muiraquitã é conhecido como um talismã zoomorfo, geralmente em forma de sapo, peixe, serpente, tartaruga ou de felinos, talhado em pedra (nefrita, esteatita, jadeíta ou quartzito), bem polido, ao qual se atribuíam poderes mágicos e curativos. Foram encontrados vários deles na área do baixo Amazonas, entre as bacias dos rios Trombetas e Tapajós, sendo chamados de “pedras verdes das Amazonas”. Poderia ser uma confirmação do mito das Amazonas ou Ycamiabas, as “mulheres sem homens”, como foram chamadas pelo padre Carvajal, da expedição de Francisco de Orellana, em 1542.

Os relatos míticos as descrevem como mulheres altas, belas, fortes e destemidas, longos cabelos negros, trançados, tez clara, que andavam despidas e utilizavam com maestria o arco e a flecha para guerrear e caçar. Diz a lenda que elas escolhiam anualmente homens para serem os pais de seus filhos, presenteando-os com muiraquitãs. Outras fontes afirmam que elas usavam ornamentos de pedras verdes esculpidos em forma de animais como objetos de troca com visitantes ou tribos vizinhas.

Os missionários atribuíam aos índios tapajós a origem dos muiraquitãs, mas eles eram apenas seus portadores, não os fabricantes, exibindo-os como símbolos de poder ou riqueza, ou ainda como compensação na realização de ritos fúnebres, nas cerimônias de casamento ou para selar alianças e acordos de paz entre as tribos.

Ocultos em mitos, lendas e crenças, existem ainda muitos resquícios das antigas tradições e cultos indígenas. Descartando as sobreposições e distorções cristãs e literárias, poderemos resgatar a riqueza original das diversas e variadas apresentações da criadora ancestral brasileira, Mãe da natureza e de tudo o que existe, existiu e sempre existirá.

Cabe aos estudiosos e pesquisadores atuais desvendar os tesouros históricos do passado indígena brasileiro, com isenção de ânimo e sem distorções, em uma sincera dedicação e lealdade à verdade original, para oferecer às nossas mentes as provas daquilo que os nossos corações femininos sempre souberam, ou seja, "que a Terra é a nossa Mãe, que nos tempos antigos os seres humanos veneravam e oravam para uma Criadora, que abria os portais da vida e da morte, cujos templos eram a própria Natureza, que somos todos irmãos por sermos seus filhos, interligados por fazermos parte da teia cósmica e telúrica da Sua Criação”.

Este artigo foi atualizado para A Grande Mãe brasileira.