Artigo

NUT, A DEUSA EGÍPCIA REGENTE DO CÉU

 “Nut, minha divina mãe, estenda teus braços sobre mim, afastando as sombras e me protegendo enquanto brilharem no céu as imorredouras estrelas”.
       Inscrição sobre um peitoral encontrado no túmulo de Tutankhamon junto à sua múmia

“Eu sou Nut e vou abraçar e proteger aqueles que vierem a mim, afastando todos os males”.
                             Texto inscrito sobre a tampa dos sarcófagos

No começo dos tempos, quando nada ainda havia sido criado, existia somente uma massa aquosa que cobria o universo. O deus Khepera (o precursor de Ra, representado como um escaravelho e simbolizando o sol matutino) gerou-se a partir desta matéria primordial ao dizer seu próprio nome. Em seguida ele concebeu duas outras deidades, cuspindo-as de sua boca: o deus Shu, personificando o ar e a deusa Tefnut, simbolizando o orvalho. Ambos, por sua vez, geraram duas crianças gêmeas: Geb, o deus da terra, e Nut, deusa do céu. Com a criação das primeiras quatro divindades (Shu, Tefnut, Geb e Nut), estabeleceu-se o Cosmos. Geb e Nut deram à luz quatro crianças: Osíris e Ísis, Seth e Néftis cuja missão foi fazer a mediação entre os seres humanos e o Cosmos. Esses nove deuses compunham a enéade (palavra de origem grega designando um agrupamento de nove divindades, geralmente ligadas entre si por laços familiares) de Heliópolis, a mais importante congregação de deuses do panteão egípcio.
Existem várias versões do mito de criação egípcio e em todas Nut desempenha um papel importante. O mito que pertencia ao reino baixo do Egito afirmava que no começo dos tempos existia apenas o oceano, do qual apareceu de repente um ovo flutuando na sua superfície e do qual emergiu Ra, o deus solar. Ele gerou das suas secreções quatro filhos: os deuses Shu e Geb e as deusas Tefnut e Nut. Shu e Nut formaram a atmosfera, que pairava sobre Geb, a terra e Nut se elevou formando o céu, enquanto Ra era o governante supremo, regendo sobre o todo e todos. Geb e Nut tiveram dois filhos: Set e Osíris e duas filhas, Ísis e Néftis. Com o passar do tempo Ra envelheceu e cedeu seu lugar a Osíris, que passou a reger o mundo auxiliado por Ísis, sua irmã e esposa. Set odiava seu irmão Osíris e acabou matando-o; a partir deste evento, Osíris passou a personificar a bondade e Seth a maldade, estabelecendo assim os dois polos da moralidade. Ísis usou poderosas magias e ressuscitou Osíris, que se tornou “Senhor do Mundo Subterrâneo” e o rei dos mortos. O filho deles - Horus venceu Seth em uma grande batalha e assumiu o seu lugar como “Senhor da Terra”.
O mito do reino alto do Egito difere ligeiramente, descrevendo a existência de Nun, o oceano primordial, que continha em si os começos de tudo aquilo que poderia ser criado. Ra surgiu do oceano e gerou de forma partenogenética do seu esperma Shu (deus do ar) e Tefnut (a deusa da umidade); este casal gerou os gêmeos Nut, a deusa do céu e Geb, o deus da Terra. No universo físico assim criado, a humanidade surgiu das lágrimas de Ra. Geb e Nut nasceram abraçados, mas como Ra desaprovava este incesto, ordenou a Shu para se colocar entre eles, separando assim o céu da terra. Porém, eles permanecerem juntos, mesmo sem permissão, fazendo amor em um abraço ininterrupto. Ra enfurecido chamou Shu pedindo que os separasse em definitivo; Shu interveio e ergueu Nut para o alto segurando-a com seus braços e assim ela passou a ser a abóbada estrelada do céu, deixando Geb prostrado abaixo dela. Ra, sem saber que Nut estava grávida, a amaldiçoou para que ela não parisse em nenhum dia e em nenhum ano. Nut desesperada foi procurar ajuda com seu amigo Thoth, o deus da sabedoria, que também era filho de Ra. Thoth conseguiu achar um estratagema para contornar a maldição. Primeiro ele foi visitar Khonsu, o deus lunar e o desafiou para um jogo de damas; quanto mais o jogo durava, maiores eram as apostas. No final o vencedor foi Thoth e a aposta de Khonsu tinha sido uma quantidade de luz, suficiente para criar cinco dias adicionais. Thoth adicionou esses dias a mais no final do velho ano e no início do novo, dias estes que não faziam parte de nenhum dia e de nenhum ano. Graças à sabedoria de Thoth, a maldição de Ra foi anulada e Nut pariu seus filhos naqueles cinco dias antes inexistentes.
Em outra versão do mito Ra, o deus solar pediu a Nut para elevá-lo ao céu distante, tirando-o do mundo telúrico que ele detestava. Nut elevou Ra nas suas costas, mas ficou tonta com a altura e quase ia deixar Ra cair, se não fosse pelo suporte de quatro deuses que firmaram seus pés e Shu sustentou o arco do seu corpo. Estes deuses se tornaram os pilares celestes, Nut sendo o firmamento ao qual Ra prendeu as estrelas. O mito do deus solar Ra e da sua mãe Nut foi mais marcante e prolongado no baixo do Nilo, na região do delta, pois naquela latitude a visão da Via Láctea se assemelhava à imagem celeste de Nut com o seu corpo arqueado sobre a terra.
Os egípcios acreditavam que nos tempos pré-históricos o país tinha sido governado por deuses, que estavam fisicamente presentes. Algumas listas bem antigas de reis apresentam o terceiro faraó divino como tendo sido Geb. Rá e Shu governaram antes dele e Osíris, depois. O deus-terra teria defendido o direito de Hórus  de ocupar o trono quando da luta deste contra Seth e, por isso, era cultuado como divindade protetora do faraó, que era conhecido como o Herdeiro de Geb. Em homenagem à atuação de Geb como um grande rei e pela admiração que tinha alcançado como soberano, o trono do faraó era honrado como O Trono de Geb.
Nut, Nuit, Nith ou Neit representava o céu, simbolizado pelo seu corpo e nas suas imagens aparecia como uma mulher com pele negra, dourada ou azulada, com cabelos trançados e sua vestimenta ornada por estrelas. Outra imagem a representava como uma belíssima mulher nua, carregando uma vasilha com água sobre sua cabeça, uma alusão ao seu dom de verter a chuva sobre a terra e ao fato que das suas lágrimas teria nascido o rio Nilo.  Muitas vezes aparecia sob a forma de uma vaca (imagem comum a outras deusas) ou emergindo do tronco de uma árvore e oferecendo uma bandeja com água e pão aos falecidos. Nut representava a passagem das divindades pré-dinásticas - que expressavam os poderes divinos em forma de animais - para as divindades cosmogónicas.  Porém a sua imagem mais frequente era como abóbada celeste, o seu corpo alongado, coberto por estrelas, se estendendo sobre a terra, com a Lua sobre seu ventre enquanto a Via Láctea abrangia os seus seios. Era a representação mítica do abraço da deusa do céu sobre Geb sobre , o deus da Terra, uma metáfora do seu eterno amor e desejo pela união. O mito em que o céu e a terra são casados, e depois separados, existe como um tema universal em diversas culturas com uma larga gama de variações.
Do ponto de vista matrifocal, Nut é a toda-abrangente força feminina do oceano primordial, o fundamento da criação; ela guarda no seu corpo o Sol, a Lua e as estrelas como seus filhos transitórios e efêmeros, pois eles nascem e desaparecem com as marés do seu corpo. Do ponto de vista patriarcal - formulado pelos sacerdotes de Ra - o sol torna-se o foco, o ser primário que viaja no seu barco sobre o abismo aquoso do céu, descrito como o corpo da vaca celeste que o sustenta, mas não o gera. Assim Nut não é mais a mãe de Ra, mas sua neta, uma inversão do papel tradicional. As nuances avermelhadas do alvorecer não mais representam o sangue puerperal da mãe, mas o da serpente da escuridão, morta pelo Sol. No entanto, independente da forma como o Sol era descrito, Nut preserva seu papel central como o céu noturno, a mãe cuidadora dos mortos, que abraça e cuida das almas à espera do seu renascimento.
Vários mitos descrevem a trajetória do Sol no céu do leste ao oeste. De acordo com uma lenda egípcia, todas as noites, quando o Sol desaparecia no horizonte, Nut engolia o astro rei, que percorria o seu corpo durante a noite, descansando no seu ventre (“a gruta secreta”) e o dava à luz todas as manhãs como radiante disco solar. A manhã simbolizava a renovação de toda a criação, uma analogia com o rejuvenescimento e a ressureição dos mortos. As imagens do divino feminino reproduzem a experiência simultânea da união e separação. No pôr do sol no oeste, a Deusa é a mulher que recebe a semente de luz, que viaja pelo seu corpo e gera o deus no seu ventre. No leste, no alvorecer, a deusa é Mãe, que dá à luz seu filho e se separam depois. Quando a mãe se une ao pai (Nut com Geb ou Osíris e Ísis) os opostos se unem, a unidade abrange o Todo formado pela combinação da dualidade. O mistério do nascimento é um processo de fusão, gestação, união e individualização, tanto no macro como no microcosmo.
 Nut era uma deusa celestial, mas seu culto era associado ao contexto funerário devido à sua conexão com o renascimento do Sol e com a crença egípcia na ressureição dos mortos. Acreditava-se que ela estendia a mão aos que tinham morrido, consolando-os e os colocando como estrelas para iluminar o seu corpo. Nas ilustrações nos tetos de vários túmulos e templos, no Vale dos Reis, o corpo de Nut - cujas extremidades simbolizavam os pontos cardeais - aparecia arqueado sobre a terra, abraçando o seu irmão e esposo Geb. Segundo os “Textos das Pirâmides”, a sua função era de "cobrir o corpo do deus", de tal modo que no interior das tampas dos sarcófagos e na parte interna da base, Nut era representada com uma imagem virada para baixo, a outra para cima, simbolizando a recepção dos defuntos com o seu abraço materno, cobrindo-os para sua proteção e auxiliando o seu renascimento. Em todo o Egito foram encontradas imagens do corpo nu da Mãe Celeste, pintadas nos tetos dos templos e dos sarcófagos em azul anil ou decoradas com lápis lazuli. Às vezes seu corpo é dourado com estrelas brilhando sobre ele representando seus filhos, as almas dos mortos ou daqueles que ainda não nasceram. Outras imagens a mostram engolindo - na forma de um globo dourado - a semente do Sol morrendo ao anoitecer, que renasce do corpo materno no alvorecer do outro dia com a ajuda de Khepera, o escaravelho dourado. A celebração do nascimento do deus solar honrava também a Grande Mãe como “Vaca Celeste”, de cujas tetas nascia a Via Láctea.
 Geb desempenhava um papel de destaque na mitologia egípcia e era citado em vários textos como Seb, Keb, Kebb, Qeb ou Gebb, sendo originário de uma linhagem antiga de deuses e representando a terra. Era descrito como um homem barbudo, sua cabeça sustentando um ganso ou uma coroa branca com adornos, conhecida por “Coroa Ritual” (atef). Também podia ser retratado simplesmente como um ganso, palavra cuja grafia em egípcio também era geb, esta ave sendo seu símbolo, seu animal sagrado e que fazia parte da grafia de seu nome em hieróglifos. Por essa associação com o ganso ele é denominado o “Grande Cacarejador” e sua filha Ísis às vezes recebia o epíteto de ”Ovo do Ganso”. Geralmente aparecia como um homem com a pele verde ou preta, a cor das coisas vivas, da vegetação e do lodo fértil do Nilo, respectivamente. Frequentemente era desenhado deitado de lado sobre a terra, apoiado sobre seu cotovelo ou com os joelhos dobrados e elevados tocando o céu, com plantas brotando de seu corpo. Nesta imagem dizia-se que Geb representava os vales e colinas do país, enquanto o pai Shu segurava o corpo de Nut com seus braços elevados, da mesma forma que o ar segurava o céu. Este posicionamento tem uma grande importância mítica, pois quando Shu elevou Nut (o céu) acima de Geb (a terra) ele colocou um fim ao caos; se ele deixasse de segurar Nut, o mundo voltaria ao caos primordial. A terra era chamada de A Casa de Geb, assim como o ar era chamado de A Casa de Shu, e o céu A Casa de Nut. Outra crença era a de que ele era a divindade supridora dos minerais e das pedras preciosas e, por isso, também era o deus das minas. Em síntese, era um deus provedor de tudo: pedras, alimentos e plantas que cresciam às margens do Nilo.
A cidade de Heliópolis, situada poucos quilômetros a nordeste do atual Cairo, era tida como o local do nascimento dos nove deuses e onde realmente se iniciou a obra da criação do mundo. Diversos papiros ilustram o primeiro ato da criação ocorrido quando o deus-Sol apareceu no céu pela primeira vez e iluminou a terra com seus raios. Em uma ilustração de um papiro do Livro dos Mortos datado da XXI dinastia (c. 1070 a 945 a.C.) Geb aparece deitado sobre o solo com o pênis ereto, como se tentasse manter relações sexuais com Nut - para enfatizar sua característica de deus da fertilidade -, com uma das mãos voltadas para o chão e a outra estendida em direção ao céu. Um dos joelhos geralmente está flexionado, bem como um dos cotovelos, simbolizando as montanhas e vales da terra. As montanhas eram consideradas como sendo seus ossos, ou o resultado dos seus esforços infrutíferos de unir-se à deusa Nut..
Em hinos e outras composições o deus Geb é denominado de erpa, ou seja, pai ou chefe hereditário dos deuses, numa alusão aos seus quatro filhos. Originalmente deus da terra e da fertilidade, mais tarde Geb passou a ser uma divindade dos mortos, já que é no seio da terra que os mortos são depositados. Nesse sentido ele desempenha papel muito importante no Livro dos mortos onde aparece como um dos deuses que assistem à pesagem do coração do defunto no “Saguão das Duas Verdades”. As pessoas com integridade moral, conhecedoras das palavras mágicas necessárias, eram capazes de se evadir da terra e Geb as guiava para o céu, dando-lhes alimento e bebida. Os maus, entretanto, seriam presas fáceis de Geb, que os aprisionava em seu próprio corpo — a terra. Na tampa dos ataúdes, Geb era representado embaixo e Nut acima, de maneira que o defunto ficava contido entre as duas divindades.
Geb tornou-se um rei poderoso e ganhou o título exclusivo de Herdeiro dos Deuses. Não existia um distrito ou cidade dedicada especificamente a essa divindade, nem se sabia em que localidade ela foi cultuada pela primeira vez. Sabe-se, entretanto, que uma extensão do templo em Apolinópolis Magna foi dedicada a esse deus e que um dos nomes da cidade de Dendera era a Casa dos filhos de Geb. Mas o seu principal centro de culto parece ter sido Heliópolis, onde ele e sua esposa Nut produziram o “Grande Ovo” do qual se originou o deus-Sol na forma de um pássaro conhecido pelos egípcios como Ave Benu e pelos gregos como Fênix.  O ovo sempre foi, para os antigos egípcios, um símbolo de renovação, simbolismo que até hoje persiste por ocasião da celebração do Sabbat celta Ostara e da páscoa cristã.
Com o passar do tempo a influência de Nut cresceu e ela passou a personificar não somente o céu diurno, mas o firmamento inteiro e tudo o que era contido entre o nascer e o pôr do sol. Como deusa do período histórico mais recente do Egito, Nut absorveu uma variedade dos atributos das deusas mais antigas, incluindo os da deusa Hathor, quando era representada por uma belíssima mulher, com o disco solar adornando sua cabeça. Invocada como “A Grande protetora, O horizonte infinito ou A Mãe dos deuses”, Nut era festejada no “Festival das Luzes”; nos seus inúmeros templos serviam apenas mulheres, que cuidavam dos seus altares e rituais, na esperança de que após sua morte iam brilhar como “estrelas no corpo da Deusa celeste”. Mesmo com a diminuição do poder divino feminino nas dinastias mais recentes, Nut continuou a ser reverenciada, principalmente devido à sua importância nos ritos funerários e nas representações das tampas dos sarcófagos, tanto dos reis, quanto das pessoas humildes, assegurando assim a sua proteção após a morte e a certeza do renascimento.
“Grande Deusa, Tu que te tornaste céu, Tu és poderosa e forte, bela e bondosa e a própria Terra se prosterna aos Teus pés. Tu abranges toda a criação nos Teus reluzentes braços e recebes as almas, tornando-as estrelas que embelezam a vastidão do Teu corpo”.

Cerridwen - A Guardiã do Caldeirão da Transmutação

Mulher sábia, anciã, mãe e mestra,

Você diminui a escuridão do céu e parteja o nascer do sol,

Possuidora de energia e sabedoria,

Criadora do movimento e do significado,

Dai-me da sua força, ensine-me sua sabedoria.

No seu grande caldeirão Awen,

Eu experimento sua magia e conheço seu poder,

Eu transformo minha forma e aprendo com seu conhecimento.

Assim, eu começo a minha busca e ouço a sua inspiração,

Para um novo começo, o fim e a inevitável morte,

Meu renascimento sendo guiado por você, Grande Cerridwen!

Michelle Skye: Goddess alive

Um dos símbolos mais antigos da mitologia celta é o "caldeirão da transmutação" honrado como mistério central da religião por simbolizar o renascimento do ventre da Deusa Escura (o ventre representado pelo caldeirão). Sua magia se devia à capacidade da transmutação, processada através de mudanças, experiências, desafios e o recebimento final da inspiração divina (denominada grael). Acreditava-se que o caldeirão era capaz de transformar a forma material em essência espiritual e de favorecer a preparação da bebida da imortalidade e da inspiração.

Denominado Awen no mito da deusa Cerridwen, o caldeirão era o receptáculo sagrado da sabedoria divina e do dom da inspiração, o meio mágico para a regeneração no ventre escuro da Deusa Anciã. Ele foi o precursor do Santo Graal, considerado uma fusão do caldeirão mágico do paganismo celta e do cálice do cristianismo. Cerridwen era uma deusa galesa, guardiã do caldeirão, dotada com a habilidade da metamorfose (assim como outras divindades celtas), profetisa e regente dos processos de vida, morte e regeneração. O elo entre a deusa Cerridwen e o caldeirão mágico foi descrito em um manuscrito do século XIII - “O livro de Taliesin” (que descrevia a vida do grande poeta galês do século VI) e também mencionado no poema épico galês Mabinogion. Em ambas as fontes, o nascimento do poeta é associado com circunstâncias sobrenaturais e elementos mágicos, ligados ao mito de Cerridwen.

Cerridwen representa a “Face Anciã” da Deusa Tríplice celta; seu nome tem como origem os termos galeses ceryd “admoestar com amor” e gwen “branco e abençoado”. Apesar da sua representação habitual como uma mulher velha, chamada de “A anciã da criação” ou simplesmente “A anciã”, ela era uma deusa que mudava sua forma, passando de jovem à mulher madura ou velha, incluindo também sua metamorfose em animais. Como deusa da fertilidade e abundância, ela era chamada de “Deusa soberana dos cereais”, a porca sendo seu animal totêmico e representando a fecundidade do mundo subterrâneo, bem como o poder materno (criador e destruidor, que dá e tira a vida).

Cerridwen é associada com a Lua, os dons de inspiração, a poesia, as profecias, a habilidade da metamorfose, o ciclo de vida e morte, sendo a guardiã da sabedoria e do conhecimento. É ao mesmo tempo Deusa parteira e protetora dos mortos, pois o mesmo poder que conduz os corpos para a morte traz a vida. No seu ventre gera-se a vida, mas a vida antecede a morte. Seu aspecto de Anciã representa o conhecimento de todos os mistérios que só a idade e a experiência podem proporcionar. Cerridwen é ao mesmo tempo uma Deusa do caos e da paz, do início e do fim, da harmonia e da desarmonia. Ela é a Deusa que devemos reverenciar nos momentos de dificuldades e para a transmutação dos desafios e malefícios.

No seu mito conta-se que ela vivia no meio do lago Bala, no Norte do País de Gales, junto com seu marido Tegid Foel e dois filhos gêmeos, a filha Creirwy (cujo nome significava luz, beleza) e o filho Morfran (“o corvo”) equivalente de Afagddu (feio, escuro). Enquanto a moça era de cor clara, alegre e dotada de uma beleza estonteante, o rapaz era deformado, feio, mal-humorado, com pele escura e corpo peludo. Os irmãos eram evidentes representantes das polaridades: luz e sombra, dia e noite, verão e inverno, céu e mundo subterrâneo.

Preocupada com a aparência do filho – que ela não podia mudar mesmo sendo uma deusa - e desejando que ele fosse aceito pela sociedade, Cerridwen decidiu preparar uma poção mágica no seu caldeirão, que lhe conferisse os dons da inspiração e sabedoria, tornando-se assim um renomado bardo. Como costumeiro nas magias celtas, a poção devia ferver e ser misturada sem parar durante um ano e um dia, condensada finalmente para três gotas que continham a sabedoria do mundo, o resíduo sendo apenas veneno. Para auxiliar nesta tarefa Cerridwen chamou duas pessoas: um rapaz chamado Gwion Bach para mexer no caldeirão e um velho cego- Morda para cuidar do fogo. Ambos assumiram suas tarefas sem reclamar, enquanto Afagddu não quis participar de nada.

Cerridwen começou a estudar manuscritos antigos sobre as propriedades das plantas e as configurações planetárias benéficas para favorecer o preparo da poção mágica. Ela juntou no caldeirão água de fontes sagradas, espuma do oceano, ervas e raízes mágicas colhidas em diferentes lugares, horas e estações, que iam favorecer o despertar da intuição e da inspiração. No final do período de um ano e um dia, Cerridwen colocou seu filho Afagddu na frente do caldeirão pedindo-lhe que ficasse atento quando o elixir ficasse concentrado e pronto para que as três gotas saltassem para fora. Desinteressado, Afagddu adormeceu, enquanto Cerridwen entrou em transe após recitar os encantamentos mágicos (ou em outra versão adormeceu exausta pelo trabalho demorado). Enquanto isso, Gwion mexeu com tanta força no caldeirão, que o líquido borbulhante espirrou e as três gotas caíram na sua mão; em seguida o caldeirão explodiu. Sentindo a dor da queimadura, o rapaz colocou instintivamente a mão na boca para buscar aliviar, mas no mesmo momento, ele adquiriu o conhecimento e toda a sabedoria do mundo, compreendendo todos os segredos do passado e do futuro. Outras fontes citam uma história diferente, em que Gwion empurrou Afaggdu que estava vigiando a poção e pegou as preciosas gotas ele mesmo, antes que o caldeirão explodisse devido ao resíduo do líquido transformado em veneno.

Enfurecida pela perda do precioso elixir que conferiu o dom de sabedoria para Gwion e não ao seu amado filho, Cerridwen correu atrás do rapaz, perseguindo-o sem cessar, mesmo depois da sua metamorfose em diversos animais. Cada vez que ele assumia a forma de um animal, ela se transformava no predador dele. A caça tornou-se uma guerra entre poderes mágicos, cada um dos oponentes se metamorfoseando em vários animais.

Gwion transformou-se numa lebre que fugiu rapidamente, enquanto Cerridwen assumiu a forma de um galgo ágil e correu atrás dele, quase conseguindo abocanhá-lo. Gwion conseguiu escapar e correu para um rio onde se tornou peixe, enquanto Cerridwen assumiu a forma de uma lontra, que o perseguiu sob a água até que ele se viu forçado a transformar-se num pássaro e alçou voo. Ela, transformada em falcão com garras fortes e visão aguçada, o seguiu sem parar e não lhe deu descanso no ar. E quando estava prestes a alcançá-lo, cansado da perseguição e temendo pela própria vida, Gwion avistou um monte de trigo peneirado no solo de um celeiro e mergulhou no meio da pilha, transformando-se num dos grãos, certo de que Cerridwen não ia reconhecê-lo. Porém ela, sem sentir cansaço e atiçada pela caça, aguçou sua vista e se transformou numa galinha negra, que ciscou no trigo, encontrou o fugitivo e o engoliu.

Nove meses e dez lunações depois, da semente engolida e gestada no ventre de Cerridwen, nasceu um lindo menino. Apesar da decisão de matá-lo assim que nascesse Cerridwen ficou tocada pela sua beleza e seu ar radiante; comovida o embrulhou em uma bolsa de pele de foca e depois o jogou no mar. Alguns dias depois, o príncipe celta Elphin passeando na beira mar ouviu um choro de criança e salvou o belo menino; impressionado pela sua aparência radiante deu-lhe o nome Taliesin, que significava “testa alta e brilhante”. Quando adulto Taliesin tornou-se o legendário bardo galês, dotado de uma fantástica sabedoria e inspiração, sendo conselheiro de reis, exímio mago e honrado como a genuína encarnação da sabedoria druídica. Sendo ao mesmo tempo um arquétipo sobrenatural amalgamado com uma figura histórica, Taliesin considerava sua sabedoria como um dom divino, uma coletânea de memórias de todas as suas encarnações anteriores.

A caça e as metamorfoses seguidas têm intrigado durante séculos estudiosos de história e mitologia. Uma das teorias interpreta os obstáculos como o empenho e a determinação do discípulo para alcançar as metas do treinamento mágico imposto pelo mestre. O período de um ano e um dia era o tempo de estudo exigido pelos mestres celtas antes da iniciação ou passagem de grau dos seus discípulos. Era também um prazo usado em vários trabalhos mágicos e em determinados procedimentos legais na antiga sociedade celta. Cerridwen na realidade estava treinando Gwion, testando o seu real valor e potencial, superando sua própria raiva e frustração para melhor conhecer e aceitar o futuro papel de Gwion nas lendas celtas. Outra explicação encontrada em algumas fontes associa os animais da caça com alguns dos totens dos clãs celtas, simbolizando força e habilidade dos guerreiros nas batalhas. O peixe - ou melhor, o salmão - a lebre, o falcão, a lontra e os pássaros são animais mágicos celtas. Os grãos são a essência do deus agrícola, que se sacrifica e entrega seu poder e força para que as espigas cresçam. Todavia, o galgo e a galinha não possuem poderes mágicos, portanto esta teoria é desprovida de fundamento mítico. Uma prática celta para adivinhação que constava em fazer oferendas para as divindades, comer carne crua e depois chupar o polegar - chamada Imbas Forosnai-, talvez tenha sido inspirada pelo mito de Cerridwen e Gwion. No relato mítico do herói irlandês Finn Mc.Cool, conta-se que ele adquiriu a sabedoria lambendo seu dedo queimado enquanto assava um salmão (o animal totêmico celta detentor da sabedoria).

A sacerdotisa e pesquisadora Jhenah Telyndru - no seu livro Avalon within - compara a caça com os diferentes estágios da transformação da alma, progredindo das sombras do inconsciente para a vontade consciente. Neste cenário cada par de animais é associado a um elemento. A lebre e o galgo pertencem à terra, o peixe e a lontra, à água, o pássaro e o falcão ao ar e a galinha e o grão, ao fogo. As transformações e seus elementos correspondentes simbolizam o desenrolar da vida individual. Ar seria o nascimento, fogo, a juventude, água, a maturidade e a terra, velhice e morte. Por ter renascido do ventre de Cerridwen após a sua morte, Gwion simboliza a crença celta na reencarnação ou a volta do espírito para a terra, assumindo outro corpo e forma.

O prazo de um ano e um dia é uma referência ao calendário pagão formado de 13 meses lunares de 28 dias cada, somando 364 dias e acrescentando mais um dia para o total de 365. Este mesmo prazo aparece em muitas outras lendas, mitos e contos de fadas e levou à perseguição cristã do número 13, considerado de mau augúrio e associado à bruxaria. No entanto, a tradição pagã persistiu em muitos nomes e símbolos como os famosos “13 Tesouros da Bretanha”, possivelmente símbolos lunares, associados às constelações zodiacais e descritos como: espada, cesto, chifre para beber, carruagem, faca e pedra para afiar, caldeirão, tacho, corda, travessa, tábua de xadrez, vestuário, manto. Os treze meses do calendário menstrual eram representados nas paredes do templo de Tarxien em Malta como uma porca com 13 tetas, semelhante à descrição celta de Cerridwen como “a Porca Branca”.

O mito de Cerridwen e o seu caldeirão mágico retrata a crença galesa de que, para que a verdadeira inspiração divina se manifestasse no mundo, era necessária a morte e o renascimento. O ventre de Cerridwen, assim como o seu caldeirão, tinha o potencial de gerar todas as manifestações da criação, sendo o começo e o fim da vida. Cerridwen é ao mesmo tempo uma criadora e iniciadora, na realidade ela é o próprio receptáculo do renascimento, pois engoliu Gwion e depois lhe deu a vida; o simbolismo do grão comido pela galinha é uma alegoria da semente enterrada na terra para renascer. Ao beber as três gotas proibidas, Gwion teve a visão perfeita da divindade representada por Cerridwen. Perseguido e castigado pela Deusa ele não pode morrer realmente pois tem o conhecimento perfeito; por isso a deusa o ingere na forma de grão de trigo e ele se integra à divindade de Cerridwen. Quando Gwion se apodera dos segredos de Cerridwen representados pelas três gotas se produz um caos comparável ao do nascimento. A partir desse momento, aparece a necessidade de reconstruir a unidade perdida, a necessidade de voltar atrás, até a mãe, e dessa forma se produzirá um "novo nascimento". Gwyon Bach não morre, ele volta para o ventre da mãe para um novo amadurecimento, fecunda a própria mãe e renasce pela segunda vez como Taliesin, o bardo que conhece os segredos do mundo e da divindade.

Essa narração, embora seja da época cristã, é baseada na crença arcaica de que o homem nada tem a ver com o fenômeno do parto, que é função específica da mulher. O homem não era considerado pai dos filhos no sentido que nós damos agora a esse termo, pois antigamente se desconhecia a paternidade fisiológica e o pai era completamente alheio ao nascimento dos filhos. Característica de uma sociedade que consideramos primitiva (no sentido pejorativo da palavra) na verdade esta crença representa um estágio de uma civilização que não era pior do que o paternalismo da civilização romana, ou os nossos conceitos atuais. Na sociedade matrilinear, o pai não desfrutava de nenhum privilégio em relação aos filhos e não tinha, portanto, direito ao seu afeto, precisando se empenhar para ganhá-lo. Por outro lado, não tendo as responsabilidades financeiras que envolviam uma família, se sentia mais livre para deixar que seus instintos paternais se desenvolvessem. Na sociedade paternalista que insiste sobre o papel biológico do pai, se reforçam todos os conflitos de natureza edípica, destruindo o equilíbrio da sociedade matrilinear que promovia para o pai uma relação desinteressada, isenta de toda autoridade e buscando o amor. Além disso, as sociedades paternalistas consideram até hoje a mulher como uma máquina de prazer ou de procriação e insistem sobre a sacrossanta virgindade das jovens.

A caça mágica enfatiza o papel de Cerridwen no ciclo natural de nascimento, morte e renascimento. Seu movimento não é caótico, mas medido e em forma de círculos. Ela e seu caldeirão representam o começo e o fim, a madrugada luminosa e a escuridão da noite; ela é a força que nos ajuda nascer de novo, superando decepções, frustrações, doenças e morte. Espiralando eternamente, Cerridwen lembra-nos que de cada fim nasce um começo e que cada começo tem um fim, vida e morte sendo apenas aspectos do cosmos rodopiando e mudando eternamente. A sua mensagem é: “cada fracasso contém em si um sucesso”. Um antigo canto celta para a invocação de Cerridwen - usado até hoje - é originário da Escócia, sem que se saiba a data exata ou o significado das palavras. Sua finalidade visava invocar o poder de Cerridwen no corpo, na alma e no espírito, para que a pessoa se tornasse um canal aberto para deixar passar a energia da deusa:

Amores Cerridwen

Calami carbones stultorum moenia chartee

Calami carbones stultorum moenia chartee

A aparição de Cerridwen na vida de alguém (em sonhos, presságios ou visões) prenuncia situações de morte e renascimento, algo deve morrer e deve ser deixado para trás, para que o novo possa renascer; a matéria não pode ser criada ou destruída, mas é sujeita a transformações. A dança das estações nos ensina como viver plenamente, aceitando todas as faces da existência, que incluem a morte e o renascimento. A plenitude é vivida quando temos a consciência de que cada passo que damos na vida é também um passo para a morte e o renascimento. Seremos plenos e conscientes quando aceitarmos a nossa dança com a morte e o renascimento. Fazemos parte do processo cósmico de reciclagem e devemos aceitar que o fim faz parte da nossa vida, assim como o começo. Precisamos ter coragem para o desapego (de medos, hábitos, situações ou emoções negativas); iremos receber de volta aquilo que deixamos ir, transmutado para uma forma mais benéfica e abundante, o que irá aumentar o nosso poder e expandir a nossa consciência.

Mergulhando no caldeirão de Cerridwen poderemos alcançar nossos objetivos, encontrar a força para superar adversidades, transmutar os bloqueios e os medos e encontrar a luz no momento da morte. Não devemos encarar a morte como o fim, mas como um renascimento. Quando aprendermos a abrir mão de certas coisas e situações, estaremos aprendendo a morrer espiritualmente, de várias pequenas maneiras ao longo da vida. No momento da morte, o ato de abrir mão se multiplica milhares de vezes e a liberação proporciona uma conexão divina totalmente nova. Os místicos ensinam que para poder mergulhar na presença divina é necessário exercitar o desprendimento A totalidade só é conquistada no momento em que aceitarmos entrar na dança da morte e do renascimento.

Eu lhe dou a vida e lhe dou também a morte,

Fases que fazem parte de tudo o que vivencia ao longo da espiral,

O caminho espiralado é a própria existência,

Sempre seguindo, sempre crescendo e mudando,

Nada morre que não renascerá, nada existe que não vá morrer.

Quando você vem a mim, eu lhe dou as boas vindas,

E depois a recebo no meu ventre, o caldeirão da transmutação,

Onde você será mexida e virada, fervida e triturada,

Derretida e amassada, reconstituída e reciclada.

Você sempre voltará a mim e seguirá o seu ciclo, renovada.

Morte e vida são apenas pontos de transição

Ao longo da Senda Eterna e Espiralada!

“Oráculo da Deusa” Amy Marashinski

Brigid, Deusa e Santa

BRIGID, DEUSA E SANTA.

“Brigid, mulher excelente, chama espontânea dourada e flamejante, brilho do sol radiante, conduza-nos para o reino divino”.
Do hino irlandês Brigid be Bithmaith

Não há como duvidar do extenso culto – antigo e atual – dedicado a Brigid. Ela é um arquétipo poderoso no mundo contemporâneo, que ultrapassa barreiras religiosas ou filosóficas. Seu poder alcança tanto os adeptos do neopaganismo (druidismo, Wicca, seguidores da Tradição da Deusa) que a cultuam no Sabbat Imbolc como uma Deusa Tríplice, padroeira das artes, cura e magia, bem como os cristãos, que a reconhecem como uma mulher real, santificada e venerada, cujos milagres continuam a acontecer até hoje.

A deusa Brigid foi descrita em mitos, lendas, biografias e histórias como uma mulher extraordinária, poderosa, amorosa e enérgica, com traços contraditórios, mesclando fogo e água, determinação e compaixão, cura e combate, virgindade e maternidade, centrada e dedicada na sua missão de proteger e cuidar do seu povo. Para os seus seguidores pagãos, ela é a Deusa Tríplice, padroeira da arte, cura e magia, Senhora do fogo sagrado e das fontes curativas. Para os cristãos, ela é Santa Brigid, uma mulher simples, mas que pela sua vida pura, sua fé e a doação irrestrita para auxiliar doentes e pobres, pode vir a alcançar a santidade. Para os poetas e artistas, ela é a Musa, que os inspira e conduz para a fonte da criatividade. Para os camponeses, ela era a protetora dos rebanhos e da fertilidade da terra, regente da prosperidade, associada às colheitas e ao gado.

A data exata do início do seu culto pagão é desconhecida, acredita-se que foi há milênios, sendo uma das deusas mais antigas, “contemporânea” com Inanna, Ishtar, Ísis, Hera, Gaia, Freyja. A Irlanda pagã foi formada por uma amalgamação de povos indígenas, os construtores dos monumentos neolíticos e as tribos celtas, que chegaram em várias ondas migratórias entre o século VII a.C. e o primeiro d.C. Não se sabe ao certo qual é a sua verdadeira origem, nem a antiguidade do seu culto. Porém, independentemente das suas raízes históricas ou geográficas, seu culto floresceu na Irlanda, Escócia e Bretanha e seu nome imortalizado em várias fontes na França, Espanha, Suécia. Adaptado para a figura cristã da santa, este culto persiste até hoje e centenas de lugares e pessoas na Irlanda guardam seu nome e seus costumes.

A tradição oral celta preservou muitos mitos, lendas e poemas, mas com o passar do tempo e as contínuas guerras, muito do legado ancestral foi perdido. Suas lendas permaneceram ao longo de gerações, transmitidas pelos bardos e poetas (filid) e, mesmo truncadas ou distorcidas pelos monges e historiadores cristãos, preservaram fragmentos da sua esquecida sabedoria e poder. Muitas das lendas da Santa são compilações dos mitos da Deusa, mescladas com elementos cristãos, com o propósito de atrair os pagãos celtas para o cristianismo. Referências escritas apareceram apenas séculos depois da sua morte, reunindo histórias confusas sobre sua suposta identidade, considerando-a ora como a parteira e madrinha de Jesus (que nasceu séculos após) e invocada pelas parturientes, ora a própria Maria. A Deusa foi transformada em Santa a fim de legitimar e promover a conversão para a nova religião, um passo importante para estabelecer a mudança de costumes. O antigo templo de fogo de Kildare da deusa na Irlanda, destruído pelas guerras e os saques, foi recuperado e transformado em catedral da santa. A sua chama sagrada, depois de extinta pela perseguição reformista, foi acesa novamente e continua sendo mantida até hoje pelas freiras da ordem Brigidina.

Os inúmeros nomes da deusa Brigid originaram-se nos vários lugares do seu culto, assim como suas representações: Breo Saighit, a “Flecha Ardente” celta (o nome que melhor representa o poder da sua chama sagrada), a escocesa Bride, a irlandesa Brigid , Brighd ou Bhrid, a gaélica Brighid (pronuncia-se Breed), a inglesa Brigantia, cultuada nas terras do Norte da Inglaterra e parte da França e Espanha (o seu aspecto de Guerreira, com flecha e cetro, mas também mediadora da paz), Brigandu na Gália, Bridget na Suécia, Briid ou Brede na Ilha de Man, Ffraid no País de Gales e Mary of the Gael nos poemas.  Tão diversos quanto os nomes são os seus títulos, que descrevem seus atributos: Brigid, a Vitoriosa, Guerreira imortal, Rainha do Povo das Fadas, Mãe das canções e poesias, Senhora das fontes, Chama do coração das mulheres, Fogo que arde sem deixar cinzas, Mãe da sabedoria, A mais elevada, Deusa da cura com manto verde e cabelos vermelhos.

Em algumas lendas Brigid aparece como filha dos deuses arcaicos da terra Dagda e Danu (ou Boann), fazendo parte do povo sagrado Tuatha de Dannan. Em outros mitos é considerada consorte de Dagda ou de Bres, o “Lindo Guerreiro” (descendente dos Fomorians, a raça que regeu a Irlanda antes dos Tuatha de Danaan), ou sendo “Senhora do mar”, filha do deus do oceano Lir. Da sua união com Bres teria tido um filho - Ruadan- que representava a mescla das energias dos seus genitores: Danaan e Fomorian. Na maioria dos mitos prevalecem, no entanto, suas características de deusa virgem, guardiã da tocha e da lareira, protetora das mulheres e dos caminhos, sua energia sendo ígnea, direta, rápida, iluminadora e vitalizadora.

Brigid é o raio do relâmpago ou a chama do fogo que ilumina a terra, deixando atrás um rastro de luz ou clareza nas mentes e corações humanos. Às vezes é vista como a face jovem da Deusa, Danu ou Cerridwen sendo a Mãe e Cailleach a Anciã, que cede seu lugar para Brigid no Sabbat Imbolc, substituindo o frio do inverno pelas promessas da primavera, trocando o cetro de gelo pelo ramo verde. O seu aspecto de regente das fontes permaneceu no culto da deusa Sulis, adotada pelos romanos como Sulis Minerva e cultuada nas antigas termas de Aquae Sulis, atual cidade inglesa de Bath, onde a energia dela ainda pode ser percebida na fonte subterrânea, repleta de oferendas dos visitantes.

Brigid foi equiparada a várias deusas: com Juno pela tribo dos Brigantes, com Minerva, Hécate, Héstia, Vesta, Ártemis, Diana, Tanit e Sulis pelos romanos. Existem semelhanças entre o mito de Brigid e os de algumas deusas solares como Lucina, a padroeira romana da luz, a báltica Saule e a nórdica Sunna. Algumas lendas celtas atribuem a Brigid uma dupla apresentação: donzela e anciã, Brigid e Cailleach, primavera e inverno, dualidade semelhante às gregas Perséfone e Deméter. Como uma Tuatha de Danaan ela era ligada aos Sidhe, o “Povo das Fadas”, sendo a sua rainha; ela usava como emblema um manto verde, um cinto mágico e uma coroa de ouro. Foi ela quem implantou o keening, os lamentos das vigílias irlandesas que pranteavam os mortos. Nas lendas arturianas, Brigid é descrita como a Guardiã da macieira sagrada de Tir nan Gog, “a terra das mulheres ou da juventude” e a maga artesã que forjou a espada Excalibur. Ela era descrita como doadora da vida e parteira, poeta e artesã, curadora e guerreira, fada e soberana, maga e profetisa, uma figura mítica e multifacetada, que transita entre realidade e fantasia. O arquétipo complexo e múltiplo de Brigid - a mais cultuada das deusas celtas – também amalgamou vários aspectos das antigas deusas irlandesas como Boann, Danu, Macha, Morrigan. Mas ela é uma divindade tão intensamente relacionada com a sacralidade feminina, que a nenhum homem era permitido ultrapassar a cerca ao redor do seu santuário.

Deusa soberana e provedora da terra, guardiã do fogo celeste e telúrico, regente das fontes e ervas curativas, ficou mais conhecida como uma “Deusa Tríplice”, regente das artes (poesia, canto, artesanato, tecelagem, metalurgia, joalheria), da cura, fertilidade, purificação e renovação pela água (pelas fontes e os mistérios das ervas), da magia, oráculos e profecia. Como “Senhora do Fogo Tríplice” ela regia a inspiração (sendo a Musa), a forja (padroeira da metalurgia e das artes marciais), a tocha e a lareira (protetora das casas, das mulheres, famílias e dos viajantes). Nas imagens, Brigid aparece como uma jovem com cabelos ruivos, segurando uma chama, junto de seus animais totêmicos (vaca branca com orelhas vermelhas, cisne, peixe, ovelha, javali ou serpente) ou perto de uma fonte. Outra apresentação é como uma tríade de deusas, cada uma segurando o símbolo dos seus dons (tocha ou chama, ferramentas, cálice cercado com serpentes entrelaçadas ou ervas curativas).

Brigid era honrada como “Senhora dos Bardos” pelos seus dons de inspiração, criatividade, encantamento, fluidez e graça. Para os antigos celtas o fogo era a fonte da inspiração, a iluminação divina procurada pelos poetas, bardos e magos. As suas criações – poemas, canções, histórias, lendas - eram compartilhadas com os demais ao redor de fogueiras, para assim lembrar e honrar os antigos caminhos, mantendo viva a memória da tribo e a reverência dos ancestrais. No fim do inverno, a família ou o clã se reunia próximo ao fogo ou à lareira (buscando o aconchego da chama de Brigid, deusa mãe e protetora do lar), quando o músico, poeta ou o contador de histórias reanimava as pessoas enfraquecidas pelo frio com canções, poemas, relatos e sagas de heróis. Por serem faladas e não escritas, estas histórias eram transitórias na sua natureza e assim como o fogo, não podiam ser dominadas por aqueles que não tinham preparo; o uso das palavras exigia reverência e competência, habilidades além do alcance dos não iniciados. Por isso Brigid foi associada com as propriedades etéreas de todos os tipos de fogo (Imbas) - da forja, da lareira e fogueira, do sol, da transmutação, da cura e do sopro mágico. O fogo era visto pelos celtas como uma energia espiritual latente em todas as coisas e inerente a certos processos cognitivos do intelecto humano, bem como a alguns estados emocionais como paixão, caridade, amor, etc.

A inspiração e a poesia eram associadas pelos celtas também com a água, outro domínio de Brigid, reverenciada como “Senhora das fontes sagradas”, que uniam simbolicamente o mundo subterrâneo, mediano e o superior, por nascerem na escuridão da terra, fluírem para a superfície e refletirem a luz do céu. Da mesma forma, as ideias e visões ocultas do subconsciente podiam ser reveladas pela inspiração e intuição, energias sutis que fluíam livremente para a mente consciente e racional.

Uma composição de personagens dos mitos irlandeses e galeses deu origem à Santa, cujo principal título era ”Brigid, a santa do manto verde e cabelos de ouro (ou fogo)”, traços marcantes das imagens da Deusa. Ela supostamente nasceu entre 439-452 e morreu entre 518-525 da nossa era,  sendo filha de um druida e uma escrava pagã. Seu nascimento foi cercado de fenômenos estranhos (a presença de dois sois no céu) e aconteceu quando sua mãe passava pela soleira da casa, trazendo a ideia dos limiares e fronteiras, considerados lugares sagrados para os celtas. Os que presenciaram o nascimento deste bebê de mística beleza puderam relatar que da sua cabeça surgiam chamas de cor vibrante, como se fosse uma coroa de raios solares.  Alguns dias depois, os vizinhos alarmados viram labaredas saindo da casa em que os pais de Brigid moravam; mas chegando lá, encontraram a menina dormindo tranquila no seu berço e sem nenhuma marca do fogo. Enquanto criança, Brigid recusava qualquer tipo de comida além do leite de uma vaca branca com orelhas vermelhas (cores atribuídas aos animais do “povo das fadas”). Quando jovem ela era uma moça generosa, doando seus pertences e comida aos pobres, sem se interessar em namorar ou casar, almejando apenas a vida religiosa. Era amiga e seguidora dos ensinamentos de São Patrício (o missionário que cristianizou Irlanda). Quando o seu pai permitiu que se dedicasse à vida monástica, foi consagrada diretamente como abadessa em lugar de ser ordenada como simples freira, devido a uma falha inexplicável do oficiante, que recitou o juramento errado (sendo vista nesta hora uma coroa de chamas cercando a cabeça de Brigid).

Brigid se empenhou em criar uma comunidade de mulheres, junto com outras dezenove noviças em Cill Dara, “a igreja de carvalho” (atual Kildare), na Irlanda, que foi crescendo até se transformar em um grande mosteiro, o primeiro centro irlandês de estudos e artes, que incluía trabalhos com metais e ilustração dos manuscritos antigos. Lá, as mulheres dos arredores aprendiam como cuidar de pobres e doentes, auxiliar as gestantes e parturientes, curar com ervas e a energia das mãos, fiar, tecer, bordar, abençoar, fazer encantamentos e predições. A vida de Brigid foi repleta de milagres como: a cura de doenças com o toque das suas mãos, a multiplicação da comida (leite, manteiga, grãos, cerveja), o encontro de animais extraviados e a descoberta dos ladrões; o mais famoso fato mágico foi quando pendurou seu manto molhado sobre um raio de sol. Quando Brigid foi pedir mais terra para sua comunidade ao rei, ele lhe concedeu uma área que o seu manto pudesse cobrir. Brigid tirou seu manto e quando o estendeu, ele cobriu uma enorme área ao redor, que lhe foi depois concedida pelo rei, impressionado com este milagre. Como ferrenha defensora das mulheres, Brigid educava as jovens para seguirem uma profissão, libertava escravas, incentivava esposas maltratadas para pedirem divórcio, auxiliava nos partos ou abortos. Todos estes atos de poder reproduziam os atributos da Deusa: fertilidade, abundância, cura, comunicação com animais, auxílio permanente dado às mulheres e parturientes, aos pobres e doentes.

Após a sua morte, o fogo do seu templo continuou aceso, guardado cada dia por uma das dezenove sacerdotisas ou freiras da sua ordem; na vigésima noite era a própria Brigid que o cuidava. O fogo requeria muita lenha, porém as cinzas dele não aumentavam jamais. A preservação da chama sagrada de Brigid foi mantida pelas freiras até que o seu culto foi proibido mil anos depois. Ela foi enterrada num caixão de ouro e prata em Kildare, mas depois, devido aos saques das incursões Vikings, seus ossos foram levados para o túmulo do Santo Patrício, porém despareceram algum tempo depois. Algumas das suas relíquias ainda existem em igrejas e museus como seu manto verde na Bélgica, seus sapatos no museu de Dublin e outros objetos em lugares mais distantes, que a santa viva jamais percorreu. Santa Brigid é padroeira da Irlanda (junto com São Patrício), das ordens das freiras irlandesas e de Nova Zelândia. Mesmo como santa, ela continua sendo - assim como a deusa - protetora dos agricultores, fazendeiros e criadores de gado, ferreiros, curandeiras e parteiras, crianças e mulheres, poetas, artistas e escritores (que começavam seus escritos com a frase gaélica Adjuva Brigitta, “ajude Brigid”).

A sua representação como Santa tem elementos reais e míticos, alguns historiadores negam a sua real existência, mas foi através dela que a Igreja cristã celta permitiu a perpetuação - de maneira velada e modificada–do culto da deusa Brigid, que, por não poder ser erradicado, foi readaptado pela igreja e transformado para a reverência atual da Santa. Na Irlanda, 1500 anos depois da morte de Brigid, sua memória permanece viva nos corações dos seus fiéis e seus símbolos continuam sendo confeccionados e usados, mesmo que nem todos os que os confeccionam e usam conheçam seu significado sagrado. Tendo feito a transição da condição de Deusa para Santa, preservando o nome, os símbolos e costumes antigos, a figura de Brigid representa uma ponte (bridge em inglês) entre paganismo e cristianismo, continuando como guardiã da sacralidade feminina.

O Sabbat Imbolc da Roda do Ano celta se originou de um antigo ritual de bênção da terra (honrada como ”o ventre da deusa”), feito na chegada da primavera, antes do campo ser semeado, para propiciar fertilidade e proteção. Grãos e espigas da colheita anterior eram usados como oferendas nesta celebração e depois de abençoados com água de uma fonte sagrada, eram misturados com as sementes destinadas ao próximo plantio. Imagens de Brigid eram levadas em procissão para abençoar os campos e atrair a fertilidade, costume preservado mesmo após a cristianização e perpetuado até hoje pelos padres cristãos. Atualmente inúmeros peregrinos buscam as bênçãos de Brigid nos seus lugares sagrados como: Kildare (onde ainda existe sua antiga fonte, a catedral e uma nova igreja), Faughart (o lugar onde ela nasceu e onde vários locais são a ela associados), ambos na Irlanda e as Ilhas Hébridas (cujo nome é associado à Deusa). Glastonbury - na Inglaterra - é um lugar sagrado muito ligado ao arquétipo de Brigid, a forma do seu relevo topográfico parece um cisne (animal sagrado da Deusa), enquanto a pequena colina de Bride’s Mount e a gravura da Deusa (ao lado da sua vaca) sobre o portal da igreja na colina do Tor lembram a estadia da Santa durante algum tempo na cidade. Na fonte sacra de Chalice Well sacerdotisas do Goddess Temple realizam rituais e bênçãos no Sabbat Imbolc. Existem inúmeras fontes (chamadas Tobar Brighde e Clootie Wells) na Irlanda, Escócia, Grã-Bretanha, onde colares, rosários, tranças de fitas, cruzes de palha e pedaços de roupas dos doentes amarrados nas árvores ao redor, comprovam a continuidade do culto de Brigid, como Deusa e Santa, até hoje.

A conexão com Brigid no Sabbat Imbolc pode ser feita individualmente nas margens de um rio, cachoeira, córrego ou simplesmente em casa perto de uma fonte usada na decoração; visualiza-se a purificação pelo poder da água e pede-se à deusa a cura para algum problema específico (seu ou de familiares). Antigamente, as mulheres abriam as portas e janelas das casas pedindo para que Brigid entrasse e as abençoasse, o que pode ser feito também agora. No final da meditação, após agradecer à Deusa pela ajuda recebida, deve-se abençoar-se com água, riscando o símbolo sagrado de triskelion sobre si mesma. Uma antiga tradição irlandesa recomenda deixar um pedaço de pano de algodão (branco ou verde) perto da sua imagem no dia dedicado à celebração do Sabbat Imbolc (primeiro de fevereiro) pedindo à deusa para impregnar o pano com suas energias curadores. Guarda-se depois o pano envolvido em papel de seda para usá-lo quando precisar, colocando-o sobre a parte doente do corpo.

Um símbolo tradicional de Brigid pode ser confeccionado com palha seca ou espigas de trigo em forma de triskelion ou cruz de Brigid (Cros Bhrid), cujos modelos e técnicas de trançar se encontram na internet. Um antigo costume irlandês recomenda confeccionar uma figura feminina de palha para representar a Bhrid Doll. Esta boneca, feita tradicionalmente com as últimas espigas (de trigo
ou aveia) colhidas, era colocada perto da lareira na véspera de Imbolc, em uma cama de palha ou lã de ovelhas, junto com um bastão enfeitado com fitas, tudo cercado por velas acesas. Convidava-se assim a presença da Deusa para abençoar a casa e seus moradores. Antigamente esta boneca era depois enterrada junto com as sementes durante o plantio, mas atualmente, em Glastonbury, as mulheres que reverenciam e celebram Brigid guardam as bonecas por elas confeccionadas (Bride Doll) no Goddess Temple depois de abençoá-las na fonte sagrada de Chalice Well. A fileira de Bride Doll mostra as diversas representações  da inspiração e sabedoria femininas.

Nos grupos e círculos de mulheres Brigid é invocada para conferir criatividade, inspiração, poder mágico e a capacidade de manifestar ideias no mundo material. Para honrá-la, ou pedir sua ajuda ou proteção, usam-se velas laranja, que devem ficar acesas durante dezenove dias, reservando em cada dia um tempo para orar e visualizar seu projeto, sendo então abençoado por Brigid. Durante a meditação, podem aparecer visões e mensagens de Brigid; no final deste período deve ser feita uma oferenda de gratidão para ela (grãos, sementes, pão, mingau de aveia, mel, manteiga, leite, cerveja).

Os círculos de mulheres que seguem a Tradição da Deusa costumam realizar seus rituais de dedicação e iniciação na senda da sacralidade feminina em torno da data de Imbolc (conforme descrito no livro Círculos sagrados para mulheres contemporâneas).  Esta data representa um tempo propício para o plantio de novas sementes: da criatividade, dos novos projetos e realizações, de cura e renovação energética, de atração ou mudanças nos relacionamentos e das bênçãos nos caminhos espirituais. Podem ser abençoadas nesta data dezenas de velas para usar durante o ano, preparados altares com a imagem da Deusa, uma vela de cera, um cálice ou fonte com água, ervas aromáticas ou incenso, um pote com terra, símbolos (lua, cruzes solares, triskelion, pentagrama), objetos associados com a sua profissão, vocação e projetos futuros, oferendas de pão, grãos, leite, manteiga, mel e cerveja. Invoca-se Brigid na sua qualidade de protetora com esta simples oração, que pode ser repetida diariamente:

Brigid, deusa vitoriosa da luz,
Cubra-me com teu manto sagrado,
Vigie-me sempre com teus olhos,
Proteja-me com teu cajado,
De manhã e até anoitecer,
Por onde eu andar ou estiver,
De dia ou de noite, que eu seja sempre protegida,
Honrada, acolhida e favorecida,
Brigid, Deusa poderosa e protetora,
Fique ao meu lado e seja a minha companheira,
Minha conselheira, guardiã e defensora!

A Naoimh Bhrid Gui Orainn
(pronuncia-se A Nem Brid Gui Orin que significa “Santa Brigid ore por nós”!)

A Grande Mãe brasileira

Mirella Faur

O Brasil é o país que concentra o maior número de pessoas a cultuarem uma das manifestações da Grande Mãe como Iemanjá, a deusa ancestral das águas, Senhora do Mar. Só perde para a Índia, onde inúmeras deusas são cultuadas até hoje.

Anualmente, às vésperas do Ano Novo e no dia 2 de fevereiro, milhões de pessoas levam suas oferendas e orações para as praias brasileiras, ou saem em procissões marítimas ou fluviais, similares às antigas cerimônias egípcias e romanas – Navigium Isidi – dedicadas a Ísis, Deusa Mãe protetora dos viajantes e das embarcações.

Apesar da devoção brasileira a Iemanjá, seu culto não é nativo - ele foi trazido ao Brasil no século XIII pelos escravos da nação ioruba. Yemojá ou YéYé Omo Ejá, a “Mãe cujos filhos são peixes”, era o orixá dos Egbá, a nação ioruba estabelecida outrora perto do rio Yemojá, no antigo reino de Benin. Devido a guerras, os Egbá migraram e se instalaram às margens do rio Ogun, de onde o culto a Iemanjá foi trazido pelos escravos para o Brasil, Cuba e Haiti.

Nesses países, Iemanjá passou a ser venerada como a “Rainha do Mar”, orixá das águas salgadas, apesar de sua origem ter sido “o rio que corre para o mar”, sua saudação sendo Odo-Yiá, que significa “Mãe do Rio”.

Analisando os nomes Ya / man / Ya e Ye / Omo / Ejá conforme a “Lei de Pemba” – a grafia sagrada dos orixás, postulada pela Umbanda Esotérica, encontram-se os mesmos vocábulos sagrados que significam “Mãe das águas, Mãe dos filhos da água (peixes) e Mãe Natureza”.

Iemanjá é considerada pela Umbanda Esotérica como uma das sete Vibrações Originais, o princípio gerador receptivo, a matriz dos poderes da água, a representação do eterno e Sagrado Feminino. Portanto, Iemanjá personifica os atributos lunares e aquáticos da Grande Mãe, de padroeira da fecundidade e da gestação, inspiradora dos sonhos e das visões, protetora e nutridora, mãe primeva que sustenta, acalenta e mitiga o sofrimento dos seus filhos de fé.

No entanto, por mais que Iemanjá seja reconhecida e venerada no Brasil, ela não representa a Mãe Ancestral nativa, que tenha sido cultuada pelas tribos indígenas antes da colonização e da chegada dos escravos.

Infelizmente, muito pouco se sabe a respeito das divindades e dos mitos tupi-guarani. A cristianização forçada e a proibição pelos jesuítas de qualquer manifestação pagã, destruiu ou deturpou os vestígios de Tuyabaé-cuáa, a antiga tradição indígena, a sabedoria dos velhos payés.

Segundo o escritor umbandista W.W. da Matta e Silva e seus discípulos Rivas Neto e Itaoman, a raça vermelha original tinha alcançado, em uma determinada época distante, um altíssimo patamar evolutivo, expresso em um elaborado sistema religioso e filosófico, preservado na língua-raiz chamada Abanheengá, da qual surgiu Nheengatu, a “lingua boa”, origem dos vocábulos sagrados dos dialetos indígenas.

Com o passar do tempo, a raça vermelha entrou em decadência e, após várias cisões, seus remanescentes se dispersaram em diversas direções. Deles se originaram os tupi-nambá e os tupi-guarani, que se estabeleceram em vários locais na América do Sul.

As concepções do tronco tupi eram monoteístas, postulando a existência de uma divindade suprema, um divino poder criador (às vezes chamado de Tupã) que se manifestava por intermédio de Guaracy (o Sol) e Yacy (a Lua) que, juntos, geraram Rudá (o amor) e, por extensão, a humanidade. O culto a Guaracy era reservado aos homens, que usavam os tembetá, amuletos labiais em forma de T, enquanto as mulheres veneravam Yacy e Muyrakitã, uma deusa das águas, e usavam os amuletos em forma de batráquios e felinos, pendurados no pescoço ou nas orelhas.

Guaracy era a manifestação visível e física do poder criador representado pelo Sol. Apesar deste astro ser considerado o princípio masculino na visão dualista atual, a análise dos vocábulos nheengatu do seu nome revela sentido diferente. Guará significa “vivente”, e cy é “mãe”, o que formaria a “Mãe dos seres viventes”, a força vital que anima todas as criaturas da natureza, a luz que cria a vida animal e vegetal. Também em outras tradições e culturas (japonesa, nórdica, eslava, báltica, australiana e nativa americana), o Sol era considerado uma Deusa, o que nos faz deduzir que, para os tupi, a vida e a luz solar provinham de uma Mãe - Cy - que só mais tarde foi transformada em Pai.

Yacy era a própria Mãe Natureza, seu nome sendo composto de Ya (senhora) e Cy (mãe), a senhora Mãe, fonte de tudo, manifestada nos atributos da Lua, da água, da natureza, das mulheres e das fêmeas.

Cy - ou Ci - representa, portanto, a origem de todas as criaturas, animadas ou não, pois tudo o que existe foi gerado por uma mãe que cuida da sua preservação, do nascimento até a morte. Sem Cy (mãe), não há nem perdura a vida, pois ela é a Mãe Natureza, o principio gerador e nutridor da vida.

Na língua tupi existem váris nomes que especificam as qualidades maternas: Yacy, a Mãe Lua; Amanacy, a mãe da chuva; Aracy, a mãe do dia, a origem dos pássaros; Iracy, a mãe do mel; Yara, a mãe da água; Yacyara, a mãe do luar; Yaucacy, a mãe do céu; Acima Ci, a mãe dos peixes; Ceiuci, a mãe das estrelas; Amanayara, a senhora da chuva; Itaycy, mãe do rio da pedra, e tantas outras mães – do frio e do calor, do fogo e do ouro, do mato, do mangue e da praia, das canções e do silêncio.

As tribos indígenas conheciam e honravam todas as mães e acreditavam que elas geravam seus filhos sozinhas, sem a necessidade do elemento masculino, atribuindo-lhes a virgindade - o que também em outras culturas simbolizava sua independência e autossuficiência. Em alguns mitos e lendas, as virgens eram fecundadas por energias numinosas em forma de animais (serpente, pássaro, boto), forças da natureza (chuva, vento, raios), seres ancestrais ou divindades.

A explicação da omissão, na mitologia indígena, do elemento masculino na criação era o desconhecimento do papel do homem na geração da criança, além do profundo respeito e reverência pelo sangue menstrual que, ao cessar “milagrosamente”, se transformava em um filho. Somente pela interferência dos colonizadores europeus e pela maciça catequese jesuíta que, na criação do homem, o Pai assumiu um papel preponderante, o Filho tornou-se o segundo na hierarquia, salvador da humanidade - como Jurupary, e à Mãe coube apenas a condição de virgem (como Chiucy).

Porém, apesar do zelo dos missionários para erradicar os vestígios dos cultos nativos da cultura indígena e dos escravos, muitas de suas tradições sobrevivem nas lendas, nos costumes folclóricos, nas práticas da pajelança e encantaria que estão ressurgindo, cada vez mais atuantes, saindo do seu ostracismo secular.

Outro arquétipo da Mãe Ancestral é descrito no mito amazônico da Boiúna, a Cobra Grande, dona das águas dos rios e dos mistérios da noite. Apresentada como um monstro terrível que vive escondido nas águas escuras do fundo do rio e ataca as embarcações e pescadores, a Boiúna ou Cobra Maria é, na verdade, a Face Escura da Deusa, a Mãe Terrível, a Ceifadora, que tanto gera a vida no lodo como traz a morte, no eterno ciclo da criação, destruição, decomposição e transformação.

Outro aspecto da Mãe Escura é Caamanha, a “Mãe do Mato”, que protege as florestas e os animais silvestres, e pune, portanto, os desmatamentos, as queimadas e a violência contra a Natureza. Pouco conhecida, ela foi transformada em dois personagens lendários: Curupira e Caapora. Descritos como seres fantasmagóricos, peludos, com os pés voltados para trás, às vezes com um aspecto feminino, são os guardiões das florestas, que levavam os caçadores e invasores do seu habitat a se perderem nas matas, punindo-os com chicotadas, pesadelos ou até mesmo a morte.

Nas lendas guarani relata-se a aparição da “Mãe do Ouro”, que surge como uma bola de fogo ou manifesta-se nos trovões, raios e ventos, mostrando a direção da mudança do tempo. Em sua representação antropomórfica, ela torna-se uma linda mulher que reside em uma gruta no rio, rodeada pelos peixes e de onde se estende nos ares como raios luminosos, ou então surge na forma de uma serpente de fogo, punindo os destruidores das pradarias.

Em sua versão original, ela era considerada a guardiã das minas de ouro, que seduzia os homens com seu brilho luminoso, afastando-os das jazidas. Seu mito confunde-se com o do Boitatá, uma serpente de contornos fluídicos, plasmada em luz com dois imensos olhos, guardando tesouros escondidos, reminiscência dos aspectos punitivos da Mãe Natureza, defendendo e protegendo suas riquezas. A deturpação cristã do mito punitivo pode ser vista na figura da “Mula sem Cabeça”, metamorfose da concubina de padre, que assombra os viajantes nas noites de sexta-feira (dia dedicado, nas culturas pagãs, às deusas do amor, como Astarte, Afrodite, Vênus, Freyja) e do Teiniágua, lagarto encantado que se transforma em uma linda moça para seduzir os homens, desviando-os dos seus objetivos.

Quanto ao significado esotérico de Muyrakitã, devemos decompor seu nome em vocábulos para compreender sua simbologia feminina: Mura - mar, água; Yara - senhora, deusa; Kitã - flor. Podemos então interpretá-lo como “A deusa que floriu das águas” ou “A Senhora que nasceu do mar”. Esta divindade aquática, considerada a filha de Yacy, era reverenciada pelas mulheres que usavam amuletos mágicos chamados ita-obymbaé, confeccionados com argila verde, colhida nas noites de Lua Cheia no fundo do lago sagrado Yacy-Uaruá (“Espelho da Lua”), morada de Muyrakitã. Esses preciosos amuletos só podiam ser preparados pelas ikanyabas ou cunhãtay, moças virgens escolhidas desde a infância como sacerdotisas do culto de Muyrakitã - vetado, portanto, aos homens.

Nas noites de Lua Cheia, as cunhãtay, devidamente preparadas, esperavam que Yacy espalhasse sua luz sobre a superfície do lago e, então, mergulhavam à procura da argila verde. A preparação das virgens incluía jejum, cânticos e sons especiais (para invocar os poderes magnéticos da Lua), além da mastigação de folhas de jurema, uma árvore sagrada que contém um tipo de narcótico que facilitava as visões. Enquanto as cunhãs mergulhavam, as outras mulheres ficavam nas margens do lago entoando cânticos rítmicos ao som dos mbaracás (chocalhos). Depois de “recebida” a argila das mãos da própria Muyrakitã, ela era modelada em discos com formato de animais, sendo deixado um pequeno orifício no centro. Em seguida, todas as mulheres realizavam encantamentos mágicos, invocando as bênçãos de Muyrakitã e Yacy sobre os amuletos, até que Guaracy, o Sol, nascia, solidificando a argila com seus raios.

Esses amuletos, que ficaram conhecidos com o nome de muiraquitã, tinham cor verde, azul ou cor de azeitona e eram usados no pescoço ou na orelha esquerda das mulheres. Acreditava-se que eles conferiam proteção material e espiritual e que podiam ser utilizados para prever o futuro, nas noites de Lua Cheia, depois de submersos na água do mesmo lago e colocados na testa das cunhãs, invocando-se as bênçãos de Yacy e Muyrakitã.

No nível exotérico, profano, o muiraquitã é conhecido como um talismã zoomorfo, geralmente em forma de sapo, peixe, serpente, tartaruga ou de felinos, talhado em pedra (nefrita, esteatita, jadeíta ou quartzito), bem polido, ao qual se atribuíam poderes mágicos e curativos. Foram encontrados vários deles na área do baixo Amazonas, entre as bacias dos rios Trombetas e Tapajós, sendo chamados de “pedras verdes das Amazonas”. Poderia ser uma confirmação do mito das Amazonas ou Ycamiabas, as “mulheres sem homens”, como foram chamadas pelo padre Carvajal, da expedição de Francisco de Orellana, em 1542.

Os relatos míticos as descrevem como mulheres altas, belas, fortes e destemidas, longos cabelos negros, trançados, tez clara, que andavam despidas e utilizavam com maestria o arco e a flecha para guerrear e caçar. Diz a lenda que elas escolhiam anualmente homens para serem os pais de seus filhos, presenteando-os com muiraquitãs. Outras fontes afirmam que elas usavam ornamentos de pedras verdes esculpidos em forma de animais como objetos de troca com visitantes ou tribos vizinhas.

Os missionários atribuíam aos índios tapajós a origem dos muiraquitãs, mas eles eram apenas seus portadores, não os fabricantes, exibindo-os como símbolos de poder ou riqueza, ou ainda como compensação na realização de ritos fúnebres, nas cerimônias de casamento ou para selar alianças e acordos de paz entre as tribos.

Ocultos em mitos, lendas e crenças, existem ainda muitos resquícios das antigas tradições e cultos indígenas. Descartando as sobreposições e distorções cristãs e literárias, poderemos resgatar a riqueza original das diversas e variadas apresentações da criadora ancestral brasileira, Mãe da natureza e de tudo o que existe, existiu e sempre existirá.

Cabe aos estudiosos e pesquisadores atuais desvendar os tesouros históricos do passado indígena brasileiro, com isenção de ânimo e sem distorções, em uma sincera dedicação e lealdade à verdade original, para oferecer às nossas mentes as provas daquilo que os nossos corações femininos sempre souberam, ou seja, "que a Terra é a nossa Mãe, que nos tempos antigos os seres humanos veneravam e oravam para uma Criadora, que abria os portais da vida e da morte, cujos templos eram a própria Natureza, que somos todos irmãos por sermos seus filhos, interligados por fazermos parte da teia cósmica e telúrica da Sua Criação”.

Este artigo foi atualizado para A Grande Mãe brasileira.