Nas tradições feministas e neo-pagãs a teia da aranha é um símbolo da Deusa Criadora da Vida. Arquétipos das Deusas Tecelãs existem nas várias culturas do mundo, desde a Índia, Egito, Grécia, os países celtas e nórdicos, bem como aparecem nos mitos de várias tribos nativas norte-americanas, que as definem como “Criadoras da Vida” e “Grandes Mestras”. A lenda da Mulher Aranha é oriunda do período pré-colombiano e vestígios dos seus mitos são encontrados na civilização maia, olmeca e pré-tolteca. A Grande Deusa de Teotihuacan no México, cultuada em forma de aranha desde 200 a.C. até o século VIII, era  regente do mundo subterrâneo e da escuridão, da água e terra, da criação e destruição pela guerra. Uma versão mais tardia dela era Coatlicue, a deusa asteca que criou o sol e as estrelas, mas também era regente da morte; como padroeira das mulheres que morriam no parto, ela cortava os fios que as ligavam à teia da vida. Nas suas representações, esta Grande Deusa aparece com aranhas presas nas suas vestes ou com escudos decorados com teias de aranha, sugerindo sua relação tanto com a vida, quanto com a guerra e a morte.

Durante séculos, A Mulher Aranha era reverenciada como a Criadora e apenas nos últimos tempos, pelas pressões e imposições religiosas e culturais patriarcais, a Criadora foi substituída por um criador. Observamos isso no mito hopi que descreve a criação do mundo pelo deus solar Tawa, tendo a Mulher Aranha como a sua auxiliar. Antigamente a sociedade hopi era matrilinear e a Natureza era representada pela Mãe Terra e A Mulher do Milho. O princípio materno era simbolizado pelo sipapu, o orifício no chão da kiva, a câmara subterrânea cerimonial equivalente ao útero feminino e por onde saíram os primeiros seres humanos do mundo subterrâneo. A imagem da humanidade emergindo do ventre da Mãe Terra reforça a teoria da criação partindo de um útero feminino, os humanos evoluindo gradativamente fortalecidos pela luz solar, assim como acontece com as crianças. Apesar deste conceito mítico originário, as funções religiosas, sagradas e cerimoniais nas comunidades Hopi, passaram a ser desempenhadas pelos homens, o que levou à redação alternativa do mito do Criador em lugar do conceito  ancestral da Criadora.

No mito hopi aparecem dois seres divinos: Tawa, o deus Sol, que detinha todos os poderes e mistérios celestes e Kokyanwuhti, A Mulher Aranha, a deusa da terra, que controlava a magia do mundo subterrâneo. Não existiam animais, nem plantas, nem seres humanos. Num dado momento Tawa se dividiu e apareceu Muiyinwuh, deus de todas as formas de vida, enquanto A Mulher Aranha se duplicou e gerou Huzruiwuhti, a   deusa regente de todas as pedras e metais, que se tornou consorte de Tawa. Eles formaram o primeiro casal e da união deles nasceram os “Gêmeos mágicos”, seguidos dos Seis Guardiões das direções (as quatro cardeais, acima e abaixo), o Homem Águia, a Serpente Emplumada e muitos outros seres sobrenaturais. Somente Masauwhu, o Deus da Morte, apareceu no final. Tawa declarou ser a Luz e o Pai de tudo o que iria aparecer, enquanto A Mulher Aranha afirmou que ela iria receber a luz e nutrir a vida por ser a Mãe de tudo o que iria nascer.  Juntos eles iniciaram a criação; enquanto Tawa percebia seus pensamentos como figuras que se moviam, A Mulher Aranha as modelava em argila, mas elas eram inanimadas. Para que adquirissem espírito, os criadores colocaram uma manta felpuda – como se fosse tecida de nuvens – sobre as figuras e começaram a entoar encantamentos mágicos. Tawa idealizou que elas assumissem formas masculinas e femininas e A Mulher Aranha modelou suas características físicas diferenciadas. No entanto, elas permaneciam quietas e imóveis embaixo da manta, até que A Mulher Aranha decidiu pegá-las nos seus braços e niná-las, enquanto Tawa fixou sobre elas seu olhar de fogo. Ambos os criadores começaram a entoar ”a canção da vida” sobre os recém-modelados seres humanos, até que aos poucos eles começaram a se mexer. Tawa declarou que ele iria verter a sua luz sobre eles ao longo do dia, enquanto A Mulher Aranha iria vigiá-los durante a noite enviando-lhes sonhos e mensagens. Tawa fez aparecer uma terra acima do oceano infinito e A Mulher Aranha separou os seres humanos em grupos (os clãs das tribos nativas), conduzindo-os depois para as quatro grandes cavernas do mundo subterrâneo. De lá saíram por uma abertura (sipapu) entre as rochas para o rio Colorado e depois seguiram para os lugares onde iriam morar.

Para cada um dos clãs A Mulher Aranha escolheu um animal como guardião e totem: puma, antílope, serpente, cervo, entre outros.  Depois A Mulher Aranha lhes deu os ensinamentos de como conduzir suas vidas: as mulheres iriam construir com barro as moradas e cuidar do bom relacionamento das famílias; elas iriam modelar com argila as vasilhas para água e comida, cuidar e ensinar as crianças e seus descendentes iriam levar os seus nomes. Os homens iriam construir kivas de pedras embaixo da terra, fazer os altares e desenhos com areias coloridas, tecer as mantas dos clãs com os símbolos adequados, confeccionar armas, caçar e proteger as suas famílias. Os últimos ensinamentos dados pela Mulher Aranha foram sobre as forças da natureza enviadas por Tawa da sua morada nas nuvens: relâmpago, chuva, calor, vento, arco-íris, que não deviam ser temidas, mas acolhidas e reverenciadas. Antes de desaparecer mergulhando nas areias coloridas, A Mulher Aranha revelou toda a sua beleza: ela vestia uma túnica branca sobre uma saia azul bordada com flores e espigas, com desenhos geométricos amarelos, vermelhos, marrons e pretos. Ela usava mocassins de camurça branca e um enorme colar e brincos de turquesas, coral e conchas. Seu rosto era reluzente e bondoso e, em sua voz melodiosa, ela disse aos seres humanos recém-criados para procurar sempre a sua ajuda e a de Tawa, respeitar os seres da criação e seus irmãos, honrar o céu e a terra.

A Mulher Pensamento – Ts’its’naku, Sussistinaku ou Tse che nako–  é a deusa principal dos índios keres, que se consideram um povo muito antigo, originários de uma ilha que desapareceu devido às inundações. Pesquisadores acreditam que esta ilha pode ter sido o continente perdido de Atlântida. Suas terras atuais se encontram no oeste e no centro do estado de Novo México e incluem planaltos, formações vulcânicas, rochedos, cânions, riachos e o Monte Taylor, chamado por eles de “A mulher envolta em nuvens”. Seus pueblos mais importantes são Laguna e Acoma, que foram ocupados pelos espanhóis; o catolicismo por eles imposto foi se espalhando, firmando e sobrepondo às tradições nativas, que estão cada vez menos ensinadas, seguidas e respeitadas.

A Mulher Pensamento é a tecelã responsável pela criação e manutenção do universo, fiando e tecendo continuamente a vida.  No começo dos tempos ela morava num espaço que lhe pertencia, que não era nem frio, nem quente, nem claro, nem escuro, mas nele existia o poder cristalino e vibrante do vazio. Este poder era do pensamento claro, dos sonhos criativos, sem forma, nem movimento, mas que vibravam como um som contínuo, completo e belo. O som aparecia na sua frente como se fossem ondas e fios, que se tornavam cada vez mais fortes e assumiam formas e vida. Ela criou o mundo com seus pensamentos, primeiro, o sol, a lua e as estrelas, depois com seus cantos surgiram as irmãs divinas Nau’ts’ity e Ic’sts’ ity (ou Naotsete e Uretsete), que a auxiliaram a criar mares, rios, plantas, animais, minerais, os katchinas ou kachinas (personificações espirituais dos elementos da natureza, lugares, ancestrais), as artes e ciências e os povos. À medida que ela ia pensando, novas ondas e fios apareciam que geravam outras formas de vida, primeiro as direções cardeais, depois o mistério da vida de inúmeras criaturas e seres vivos. Murmurando e cantando, ela continuava a pensar e o poder se manifestava em toda a parte, até que outros sons e canções passaram a ser ouvidos à medida que a criação se manifestava. Ic’sts’ity entoava o som way-a hijo, way-a-hijo sem parar e globos de luz começaram a se formar ao seu redor configurando uma enorme espiral de estrelas, que também cantavam e vibravam. Nau’ts’ity  cantarolava seus próprios sons aam-i-humm, humm, aam-i humm, humm, humm, aam-i-o, o, o, aam-i-o, o,o, aam-i-o e novos globos de luz surgiam e dançando e vibrando formaram os planetas. O poder girava, cantava e dançava até se expandir aos confins do universo. A Criadora olhou sua obra, sorriu para suas filhas e cada uma delas passou a cuidar e criar novos mundos e seres, preenchendo todo o universo com inúmeros níveis e planos de criação.

A Mulher Pensamento não restringiu o processo de criação a si própria, mas também concedeu o poder de criar pelos pensamentos a todos os seres humanos. Por ser uma entidade poderosa, fértil e dinâmica, que continha todas as possibilidades de vida dentro de si, abrangia tanto o aspecto feminino quanto o masculino, mas ela era vista pelos keres como a Mãe de Todos, que estava sempre pronta para ajudar seus descendentes.

O seu aspecto leigo chamado de Mulher Aranha ou Kokyang Wuhti  é cultuada pelos índios hopi como uma múltipla manifestação da divindade, que aparece como  mulher, jovem ou velha, ou na forma de uma aranha. Ela criou as quatro direções, o sol, a lua e as estrelas, trazendo assim a luz ao mundo. Usando pedaços de turquesa, argila vermelha, pedras amarelas e cristais ela modelou as montanhas, oceanos e desertos. Mas quando viu a terra vazia e silenciosa, decidiu criar os seres vivos, a partir da terra e de si mesma, molhando um punhado de terra com sua saliva. Assim ela foi criando plantas, animais e finalmente os primeiros seres; depois de cobri-los com uma capa tecida com fios de sabedoria, conhecimento e amor, ela passou a niná-los e os ligou com fios sutis a ela mesma. Cantando com suavidade e amor maternal sobre eles, nascerem dois pares de gêmeos masculinos, que ela ensinou a preparar o mundo para receber os humanos, fazendo-o alegre, belo e rico com sons e cores. Com a sua criatividade sábia ela usou quatro cores diferentes de argila e delas modelou quatro seres femininos, para se acasalarem com os gêmeos  e assim criarem  a população do mundo.

A Mulher Aranha possui poderes divinos e sabedoria ilimitada, sabe todas as linguagens e tem acesso ao futuro. Ela é uma guardiã zelando pela proteção e bem estar daqueles que dela necessitam. Por sua associação com a terra na qual vive, ela tem as características de uma deusa da terra, é velha como o tempo e jovem como a eternidade. A Aranha Avó ensinou os homens a fazerem objetos de argila e as mulheres a tecerem; foi ela quem instruiu os hopis a venerar os deuses e ela protege as pessoas com sua teia.  Porém, a Mulher Aranha tem também um lado escuro e destrutivo, que se manifesta ao capturar, aprisionar, matar e devorar seres indefesos.

A Mulher Aranha aparece nos mitos da maior parte dos pueblos, existindo nas cerimônias dos zuni e hopi, bem como nos vizinhos navajos ou diné, em cujo mito da criação foi ela quem teceu a teia da vida, ensinou o “caminho da beleza” e o equilíbrio entre corpo, mente e espírito.

Os navajos são emigrantes recentes no Sudoeste americano, considerados um povo nômade originário do Canadá, mas que veio da Mongólia atravessando o Estreito de Bering, o que explica suas características diferentes de linguagem, aparência e conceitos místicos. Os navajos se consideram descendentes dos Anasazi–um povo misterioso e desaparecido- cujas estranhas edificações encastoadas nos rochedos – Cliff dwellings – podem ainda serem vistas e admiradas em Arizona nos parques nacionais.   No mito diné da criação existiam quatro mundos: o primeiro mundo era preto e representava o começo do tempo, tendo apenas terra, ar, água. Nele o Grande Espírito criou os corpos sutis dos seres humanos. No segundo mundo, azul, existia água, ar, terra, os mamíferos e onde nasceram a Mulher e o Homem Aranha. Houve um tempo de escassez severa e assim decidiram-se deixar este mundo. O primeiro homem fez um cajado com turquesa, madrepérola e ônix que foi levado para fazer uma abertura no sul para o terceiro mundo. No terceiro mundo, amarelo, foram criados os desertos, as montanhas e grandes rios cruzando de leste a oeste e de norte a sul. O quarto mundo, branco e chamado de “cintilante” foi o lar dos seres humanos, que receberam seus invólucros físicos em um lugar chamado Diné tah, considerado o centro do mundo. Este local é sagrado para os diné e é localizado na região de Canyon de Chelly, onde existem várias inscrições rupestres em forma de círculos, suásticas (símbolos solares) e uma pedra enorme chamada Spider Rock, a “pedra da aranha”.

A lenda navajo conta que esta pedra era a morada de um ser mítico chamado “A Velha Tarântula” ou a “Mulher Aranha”. Para evitar que as crianças subissem sobre ela, as mães diné assustavam seus filhos contando que os cristais de quartzo branco que brilhavam sobre a pedra eram os ossos de crianças desobedientes comidas pela aranha. Outra lenda relata a história de uma moça pueblo que se sentia muito sozinha entre os navajos e que foi caminhar muito triste no deserto. Lá ela observou uma fumaça tênue subindo de uma abertura no chão e espiando pelo buraco viu a Mulher Aranha tecendo uma coberta. A velha gostou da moça e, condoída com a sua solidão, a ensinou tecer dizendo-lhe para ensinar esta arte às outras mulheres e assim nunca mais iria ficar só. Para lembrar Aquela quem lhes ensinou esta arte, as tecelãs deviam deixar um buraco pequeno num canto das suas tecelagens.

As irmãs criadas pela Mulher Aranha são conhecidas no panteão navajo como “A Mulher que muda” e “A Mulher Concha Branca”, que geraram os “Gêmeos Sagrados”, conhecidos por vários nomes, enquanto os personagens míticos “a Mulher e o Homem Aranha” ensinaram os homens como usar a terra para fazer vasilhas e os fios e a lã para tecer. Nas vasilhas de barro, nas cestas e nas cobertas tecidas, é comum encontrar desenhos em forma de quadrados e linhas entrelaçadas, lembrando os quatro mundos. As tapeçarias e tapetes navajos têm motivos em forma de cruz, que simboliza a união das quatro direções e dos quatro elementos, o quinto elemento sendo a força da unificação, o mistério do centro. O “caminho da beleza” expresso em poemas e orações ensina como se movimentar com equilíbrio e graça através dos círculos da nossa vida e relações.

Os cherokee – descendentes dos iroqueses que vivem nos Smoky Montains do estado de Carolina, honram como elementos míticos o fogo sagrado e a “dança do Sol”.  Este ritual, que se espalhou para as outras tribos durante o século XIX, implica em auto-sacrifício – e não no sofrimento dos outros seres – é reconhecido como o centro do seu sistema religioso. Esta tribo considera como deusa principal a “Avó da Luz”, cuja função foi repartida depois entre “A Mulher Aranha“ e a “Mulher do Sol”.  No mito se conta que foi a “Avó Aranha” que trouxe a luz para a humanidade, pois no início da criação reinava a escuridão e o sol estava do outro lado do mundo. Ela preparou uma vasilha de barro e a rolou na direção do sol, usando as suas oito patas e marcando o caminho do oeste para leste com um fio tecido por ela. Gentilmente, ao chegar à morada do sol, pegou o disco solar, colocou-o na vasilha e a rolou de volta para casa seguindo o mesmo fio, desta vez do leste para oeste. Para os povos dos pueblos A Mulher Aranha é tão reverenciada, que o seu nome não é pronunciado em voz alta e nunca é representada por ninguém nas cerimônias hopis. Eles acreditam que ela criou tudo através dos seus pensamentos e sua voz pode ser ouvida no sopro do vento, se a pessoa sabe com aquietar os pensamentos para ouvi-la.

No mito da tribo coctaw de Tenessee e Mississipi, quando os seres humanos emergiram do mundo subterrâneo eles eram envoltos em casulos, seus olhos fechados e os membros colados ao corpo. O Grande Espírito teve pena deles e enviou seus auxiliares para retirá-los dos casulos e abrir seus olhos. Mesmo assim, eles não podiam ver nada, pois ao seu redor reinava a escuridão, não havia fogo, nem sol, nem lua, nem estrelas; as pessoas comiam tudo cru e eles sentiam muito frio e tristeza. Permeados pela escuridão, as tribos humanas, os animais e os pássaros se reuniram em um pow-wow para encontrar uma solução. Um pássaro avisou que nas terras do leste havia fogo, fazia calor e luz e que eles deviam pedir isso para eles. Mas outras vozes disseram que os povos do leste eram avarentos e não iriam partilhar suas posses, por isso alguém deveria ir lá e roubar o fogo. Alguns animais como o gambá, o urubu e o corvo se ofereceram e tentaram roubar pedaços de lenha incandescente, mas queimaram as penas e o pelo por desconhecer o poder do fogo. A fumaça das suas queimaduras assinalou aos povos do leste sobre o roubo e eles os perseguiram e tiraram as brasas roubadas. Nesta situação crítica, a Avó Aranha se ofereceu para ajudar, mas ninguém acreditou que ela fosse capaz desta proeza. Mesmo assim, ela decidiu tentar e usando de toda a sua sabedoria e astúcia modelou com barro um pote com tampa, teceu um fio até o leste, onde, sem ser notada por ninguém, pegou a brasa, guardou-a no pote e seguindo o mesmo fio voltou para a reunião. Ela ensinou como manter o fogo aceso alimentando-o com pedaços de madeira para não se queimarem, cercá-lo com pedras para ele não “correr” e queimar suas casas e usá-lo para cozinhar, se aquecer e dançar em volta dele, enquanto as mulheres iriam cuidar dele com orações e oferendas.

A Mulher-Aranha possui todo o conhecimento e está em toda a parte; da mesma forma em que ela cantou e se movimentou para tecer a sua intrincada teia, os xamãs usam cantos e danças para induzir estados transcendentais da mente. Nenhuma outra cultura é tão alinhada e próxima da terra como a dos nativos norte-americanos. Pela sua associação com a terra, na qual ela vive, A Mulher-Aranha tem as características de uma Deusa da Terra. É velha como o tempo e jovem como a eternidade considerada “A Mãe de Tudo”, que deu vida ao mundo, criando plantas, animais e, finalmente, os seres humanos, sendo a Grande Tecelã, Criadora da teia da vida. Ao misturar a terra com sua saliva ela criou todos os seres da Terra e trouxe o fogo para eles. Com seus fios ligou as quatro direções, assim como também ligou a cabeça dos homens (chacra coronário) a si mesma, tecendo a teia do amor e sabedoria universal. Pode aparecer como uma jovem, uma velha, ou mesmo uma aranha, sendo visível ou tornar-se leve e invisível como o ar. Ela possui poderes divinos e sabedoria ilimitada, sabe todas as linguagens e possui dons proféticos, aparecendo nas histórias e lendas para ensinar os homens como sobreviver. Ao mesmo tempo em que a Mulher Aranha é Criadora, Ela também tem a sua face Ceifadora, tendo o poder de destruir para renovar.

Na mitologia asteca as aranhas representavam as almas das mulheres guerreiras, arquétipos remanescentes do matriarcado pré-asteca, semelhantes às Amazonas. No fim do mundo, elas iam descer do céu nos seus fios prateados e matar todos os homens, como se fossem Valquírias vingativas de oito pernas. Apesar disso, a Mulher Aranha é uma figura em grande parte benévola. Ela aparece nas lendas de muitas culturas indígenas americanas e devido à reverência dos nativos americanos a todas as formas de vida e a ocorrência abrangente dessa figura arquetípica, a maioria dos índios é criada aprendendo a respeitar aranhas, e não matá-las.

Na região sudoeste dos Estados Unidos imagens de aranhas representam a Mãe Terra; nas vasilhas de barro da tribo Mimbre, datadas de 950-1150 d.C e confeccionadas por mulheres,   as decorações são em forma de aranhas tendo motivos triangulares nas costas. Foram achadas  gravações sobre conchas com losangos, desenhos ondulantes e lineares, bem como círculos concêntricos alternando com desenhos de aranhas,  ao redor de uma forma uterina que representa a Mulher Aranha.

A teia é um arquétipo poderoso que sintetiza a nossa conexão com todo o Universo; todos nós estamos fazendo parte da Grande Teia Universal e por isso nossas ações e atitudes influenciam o Todo. Nos conceitos metafísicos, a vida é vista como uma grande teia em que cada ser humano é um dos seus fios. Na sua incessante atividade de tecer, pegar insetos e matar, as aranhas simbolizam a eterna alternância de forças que asseguram a estabilidade do cosmos, sendo intermediárias entre o céu e a terra, no seu trabalho de fiar, capturar, desfazer e renovar a teia. Por isso Jung considera a aranha como símbolo do Self, a parte da personalidade que inclui e integra tanto o consciente quanto o inconsciente, o claro e o escuro, a luz e a sombra, a vida e a morte.

No nosso mundo atual a Mulher Aranha se faz presente na visão ecológica da grande teia cósmica e telúrica, à qual todos os seres são ligados e entre eles interconectados por fios de energia. Como um arquétipo sobrenatural e divino, A Mulher Aranha pode ser invocada para auxiliar com a sua arte mágica de Grande Tecelã e Guardiã dos recursos da terra, para tecer soluções e meios para as nossas necessidades básicas de sobrevivência. Independentemente dos desafios que enfrentamos, a Mulher Aranha pode criar a teia certa de energias para auxiliar e proteger a nossa jornada.  Ela pode nos revelar o poder e o propósito de cada fio e da sua ação e repercussão no plano material, mostrando também seu entrelaçamento com os outros fios ao nosso redor. É sempre bom lembrarmos as comoventes e famosas palavras do Chefe Seattle em sua memorável carta escrita em 1852 ao Presidente dos Estados Unidos.

“Somos parte da Terra e Ela é parte de nós. A Terra não pertence ao homem, o homem é que pertence à Terra. Todas as coisas são interligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a teia da vida, é apenas um de seus fios. O que quer que ele faça à teia, fará a si mesmo.”