Maria Amazilis(*)

Acrescentei os ingredientes com atenção, observando as características de cada um, pois este poderá ser o melhor bolo que eu já fiz. Agora, é só seguir fazendo movimentos circulares, sempre na mesma direção, a famosa mágica de bater o bolo, de que tanto ouvi falar, desde pequenina. Nunca me disseram o porquê desse cuidado: sempre na mesma direção… Minha mãe ouviu da mãe dela, que ouviu de minha avó, e assim segue a recomendação culinária ancestral. Milhares de círculos se desenham na superfície da massa e eu libero meu coração para voar. Círculo, forma perfeita…

Um círculo de mulheres trouxe um sabor novo para a minha vida, mudou a receita dos meus dias. A minha conexão com a Lua se limitava anteriormente a admirar uma noite de luar, caso houvesse tempo. Hoje sei o quanto as minhas marés seguem a regência dessa maestrina soberana e que é possível organizar os acordes da minha rotina nessa ressonância, buscando (e alcançando) sempre mais harmonia. A partir de então, a arte assumiu um espaço especial diante dos meus olhos e devagar fui retomando antigos fazeres, que eu havia deixado esquecidos no baú de muitos anos passados. Recomecei a costurar palavras, bordar alegrias, tricotar afinidades, modelar sentimentos e – minha extrema ousadia – resolvi desafiar antigas limitações e me propus cantar. Agora, honrando a Mãe, eu também levo mel para a minha voz, que antes se ocupava tanto em gemer dores.

Embora seja uma experiência sempre muito pessoal, a vivência em um círculo sagrado sempre vem acordar o coração para o poder da essência feminina. Tenho aprendido a nutrir a minha alma e dosar a chama adequada para que meus projetos cresçam e se concretizem, sem queimar etapas. Entretanto, como uma boa receita, fé, devoção e disciplina são ingredientes indispensáveis e os estudos realizados em grupo adquirem novo matiz, passam a fazer um sentido mais amplo e profundo, se somados à presença nos rituais.

Hoje percebo que, embora um círculo seja a forma perfeita, um círculo de mulheres não é. E, longe de lamentar este fato, nós aprendemos a fazer disso uma rica oportunidade de aprendizado, mais uma entre tantas outras experiências de cura com que somos abençoadas em nossas relações. Sempre é bom perceber que a cura de uma mulher é a cura de todas.

E agora, tirando do forno o melhor bolo de que fui capaz até então, recebo você em minha mesa, compartilhando meus segredos com uma xícara de chá, em perfeito amor e em perfeita confiança. Seja bem-vinda!

(*) Maria Amaziles – Grupo Girassol