A simbologia mágica das runas

Mirella Faur

Desde a mais remota antiguidade a magia tem sido um denominador comum nas diferentes civilizações e culturas. Pelo aumento da insatisfação devido à falta de respostas das religiões tradicionais, o homem moderno tem procurado novos caminhos espirituais e para a sua realização sutil e a expansão da consciência volta a se interessar pelas antigas tradições místicas e mágicas. Atualmente há um interesse crescente no estudo dos mitos e das práticas celtas, nórdicas e xamânicas, despertando a força dos arquétipos ancestrais perdidos na noite dos tempos.

As runas constituem um antigo sistema mágico e oracular proveniente do Norte da Europa. Originariamente os símbolos rúnicos eram vistos como representações das forças da Natureza, sendo usados em rituais ou práticas mágicas para a conexão ou invocação daquela energia que um determinado símbolo representava. Com o passar do tempo os caracteres rúnicos passaram a constituir um alfabeto, com fins sagrados, magísticos e profanos. Existiram vários sistemas rúnicos, o mais conhecido e utilizado sendo Futhark, cujo nome era formado pelas iniciais das seis primeiras runas: Fehu, Uruz, Thurisaz, Ansuz, Raidho, Kenaz. Esse alfabeto difundiu-se em vários países europeus após o século II d.C e continuou a ser utilizado até o século XII, passando por algumas modificações fonéticas e numéricas que deram origem aos outros sistemas.

A origem histórica das runas permanece envolta em profundo mistério fazendo jus à sua etimologia. Encontra-se a palavra runa nas línguas germânicas e celtas, conhecida como um termo arcáico, cujo significado era um conceito abstrato de “mistério” e que somente depois se tornou sinônimo a uma letra de um alfabeto antigo. Run em norueguês antigo significava “escrita secreta”, o islandês runar e o gótico runa equivaliam a “sussurro” e “segredo” enquanto em irlandês e galês antigo run e rhin representavam “mistério ou segredo”.Todos estes termos derivam da raiz indo-européia ru, indicando “algo misterioso e secreto”.

Enquanto a origem transcendental é atribuída unanimemente ao deus Odin (através de um ato de sacrifício voluntário em benefício da humanidade, a quem doou os mistérios revelados), historiadores e arqueólogos divergem quanto às épocas e lugares onde teria surgido os misteriosos sinais. Uma teoria recente lhe atribui a mesma origem das inscrições rupestres e dos símbolos ideográficos europeus, da época neolítica e da idade de bronze.

Antigas inscrições de runas entalhadas em pedra existem em vários lugares: na Europa de Norte (Noruega, Suécia, Islândia), central (Dinamarca, atual Alemanha e Áustria), na Grã Bretanha e ao longo do rio Danúbio até o Mar Negro. Porém, a mais antiga inscrição rúnica descoberta foi a gravada sobre um broche, descoberto no pântano da Dinamarca e datada do século I. Foram encontradas nas escavações, nos pântanos e nos túmulos runas gravadas sobre uma grande variedade de objetos como armas (espadas, flechas, escudos), broches, amuletos (em osso, madeira, pedra, metal), ferramentas, pentes, anéis, chifres para beber, estatuetas, caixas, medalhas, fivelas e diversos adornos, todos originários do primeiro e segundo século. Além dos objetos móveis acima citados existem gravações rúnicas sobre objetos fixos como rochas, pedras pictográficas, monumentos, paredes de fiordes e grutas.

As primeiras referências sobre o uso oracular e mágico das runas foram feitas pelo historiador romano Tácito e pelo imperador Julio César. Eles mencionam e descrevem estacas de madeiras sagradas gravadas com símbolos rúnicos usadas pelos xamãs e chefes tribais para fins oraculares e mágicos.

Por terem sido os países nórdicos cristianizados muito mais tarde do que o resto da Europa, as runas foram usadas livremente para fins religiosos, mágicos e profanos (em inscrições sobre monumentos e nas casas, nos manuscritos, calendários agrícolas e documentos) até os séculos X e XII, dependendo do país. Apesar da sua posterior perseguição e proibição pela igreja cristã, que as considerava sinônimos de magia negra, o uso das runas e a reverência às antigas divindades continuaram entre a população das regiões mais remotas de Suécia até o século XVII. Na Islândia, após sua interdição no século X, qualquer transgressão era punida com a prisão e até mesmo a morte. Fragmentos do conhecimento oculto antigo foram preservados em mitos, lendas, folclore, tradições populares, “superstições” e práticas de cura natural. Mas a verdadeira sabedoria e os rituais ancestrais não sobreviveram devido às perseguições religiosas e ao posterior surgimento da sociedade e cultura racional, materialista e tecnológica.

No atual panorama global do despertar de uma nova mentalidade - individual e coletiva - a cosmologia e a magia rúnica desempenham um importante papel, pois elas postulam a unidade e não a dualidade, ou seja, a interligação entre espírito e matéria, deuses, homens e Natureza. Para atingir um estado de equilíbrio: individual, coletivo, planetário, o ser humano precisa aprender a conviver em paz e harmonia com as outras formas de vida do planeta, em interligação e interdependência entre todos os seres, planos e reinos da criação. A visão ecológica da responsabilidade moral e espiritual do homem perante a Natureza constitui o conceito básico da filosofia nórdica.

Apesar de serem conhecidas apenas como um oráculo, as runas tem significados muito mais amplos e complexos, que vão além de um simples meio para adivinhar o futuro. Cada runa representa um símbolo pictográfico com vários simbolismos, tanto no plano material, quanto no espiritual. Representando chaves arquetípicas, elas podem abrir as portas da percepção extra-sensorial e proporcionar uma profunda compreensão espiritual, se forem devidamente conhecidas e utilizadas com cautela e respeito. Seu uso mágico requer o pleno conhecimento dos seus múltiplos significados e efeitos, que repercutem em todos os níveis: material, psíquico, mental, astral e espiritual. Jamais devem ser usadas de forma superficial, leviana ou desrespeitosa, como diversão.

As imagens a elas relacionadas e sintetizadas nos riscados simples e angulares (por terem sido entalhadas em madeira ou gravadas sobre pedras) fazem parte do mundo natural e das preocupações cotidianas, em um desafiador e inclemente clima, especifico do Norte europeu. Os seus significados na dimensão material são simples, assim como também era a vida destes povos antigamente. Divididas em 3 familias de 8 runas os 24 caracteres do alfabeto Futhark descrevem forças naturais como gelo, granizo, Sol, dia, água, seres sobrenaturais como Deus, gigantes, situações comuns como receber ou dar presente, alegria, resistência, proteção, preocupações cotidianas com gado, tocha, espinho, cavalo, roda, carruagem, cavalo, espada, flecha, plantas (teixo, bétula, alho porro),colheita, herança, clã, homem, família.

Através desses símbolos materiais são transmitidos de forma metafórica profundos conceitos metafísicos, que, de outra forma, não teriam sido tão facilmente compreendidos e usados pelo homem comum, nem preservados ao longo dos tempos, resistindo a guerras, mudanças sociais e culturais. O seu uso mágico visava beneficiar a comunidade, servindo para modificar as condições desfavoráveis do tempo, aumentar as colheitas e a fertilidade de mulheres, animais e plantas, como proteção durante as batalhas e viagens, para sucesso nos negócios, na cura das doenças, no contato com os ancestrais, seres sobrenaturais e divindades. Faziam parte da vida cotidiana, sendo facilmente encontradas na própria Natureza (no desenho dos galhos e raízes, nos sinais nas pedras, no vôo dos pássaros), embutidas nas vigas de madeira das casas, gravadas sobre barcos e navios, armas, objetos de uso doméstico, tatuagens, moedas e adornos.

O conceito primordial da cosmologia rúnica é a existência de uma extensa tessitura cósmica formada por fios sutis, mas extremamente poderosos, que se estendem através do tempo e do espaço e que interligam eventos, objetos, pessoas, lugares, pensamentos, ações. Tudo se passa nesta teia chamada Wyrd, tudo reverbera ao longo dos fios e afeta o Todo. Esta teia cósmica é tecida pelas Nornes, as três Senhoras do Destino, cuja morada está embaixo das raízes de Yggdrasil, a Árvore Cósmica que sustenta os nove mundos da mitologia nórdica. O padrão do Wyrd pessoal criado em vidas passadas influência as circunstâncias presentes, assim como as ações atuais vão nos afetar no futuro. São as nossas ações que criam a nossa realidade, pois são seus efeitos passados que retornam para nós e nos influenciam de forma positiva ou negativa. As runas eram consideradas padrões energéticos circulando na Teia do Wyrd, pessoal e coletivo.

Nas leituras rúnicas feitas por mestres e xamãs podem ser descobertos e identificados as influências dos padrões tecidos no passado, compreender os seus efeitos atuais e receber orientações para viver de forma mais harmoniosa, evitando erros, distorções e bloqueios energéticos com efeitos negativos no futuro. O uso oracular das runas realizado por pessoas competentes e devidamente preparadas oferece soluções – individuais e coletivas – para os desafios cotidianos, orientando nas escolhas e decisões e conscientizando os homens das suas responsabilidades na interdependência da tessitura cósmica. A divinação rúnica não é fatalista, ela leva em consideração o fluxo de energias cósmicas e telúricas, que dão margem ao acaso e ao exercício do livre arbítrio.

Sendo regidas pela tríplice manifestação das Senhoras do Destino que tecem, medem e cortam os fios da intricada e eterna teia do processo de vida-morte – renascimento, do tempo passado-presente-futuro, as runas não definem aquilo que irá acontecer. Elas indicam a direção das ações presentes necessárias para alinhar e retificar os desvios passados e evitar as futuras conseqüências potenciais. Por serem imbuídas de poder mágico, seu uso correto depende do conhecimento e da experiência do conselheiro rúnico, que necessita de muito estudo, preparo e equilíbrio interior para decifrar e interpretar com segurança, imparcialidade e sabedoria as mensagens enviadas pelos deuses e reveladas através das runas.

Nas antigas culturas a preparação de um mago ou conselheiro rúnico implicava em um longo e árduo processo de aprendizado oral, rituais complexos de alinhamento e conexão com as forças naturais e as divindades tutelares, em um permanente processo de testes e revelações para obter a permissão de usar este instrumento mágico, além da confirmação de um dom inato. A magia não tem cor, ela tanto pode curar como ferir, orientar ou prejudicar, dependendo do propósito e preparo de quem o pratica. Um aprendiz dedicado e empenhado no estudo exo - e esotérico das runas, irá progredir progressivamente através das lições ensinadas por cada um dos 24 portais deste profundo sistema mágico e filosófico. Cada runa irá lhe ensinar um aspecto da forma correta de viver e como seguir o antigo código de comportamento nórdico, que honrava e respeitava todos os planos e seres da Criação. O objetivo almejado era a unidade cósmica e telúrica e a união com a Fonte Criadora, manifestada em variados arquétipos das divindades.

Levando em consideração todos os requisitos necessários para a compreensão, avaliação e interpretação das runas, é fácil ver a grande responsabilidade de uma correta leitura rúnica, ainda mais se for feita para outras pessoas. Não basta adquirir um conjunto de runas, decorar seus significados superficiais e “deixar fluir a intuição”. É imprescindível o pleno conhecimento dos conceitos cosmológicos e mitológicos, dos mitos e arquétipos, dos significados complexos e às vezes ambíguos ou contraditórios das leituras, dos efeitos benéficos ou não das combinações de runas.

O praticante deve aprender o simbolismo e significado nos vários níveis em que as runas atuam, pois ele servirá como intérprete das mensagens oriundas do plano divino e deverá agir com discernimento e conhecimento do poder imbuído e representado pelas runas. A falta de um embasamento teórico e de uma experiência prática prolongada, de um preparo pessoal e de ética e prudência na interpretação, pode conduzir conselheiro e consulente por caminhos duvidosos com repercussões imprevisíveis nas suas vidas, tanto de um, quanto do outro, por tocarem inadvertidamente ou inocentemente nos fios da teia do Wyrd.