O culto às fontes

Mirella Faur

Quantas vezes já ouvimos ou usamos expressões como “a fonte da juventude ou da sabedoria”, “beber a água da vida” ou ainda, “conectar-se com fonte sagrada”, mas nem sempre paramos para refletir sobre a origem dessas imagens. Poucos de nós sabem que as fontes, as nascentes ou os olhos d’água eram considerados nas religiões arcaicas como símbolos femininos, representando vórtices energéticos de cura e poder mágico, ou passagens ocultas para os mundos subterrâneos – moradas das Deusas Escuras.

“Descer à fonte” (descrição usada nas lendas ou nos contos de fadas) simboliza o acesso ao conhecimento oculto ou aos mistérios do inconsciente. O “mergulho na fonte” representa purificação e renovação, enquanto “beber da fonte” proporciona saúde, juventude, sabedoria ou imortalidade.

Nas culturas antigas, os oceanos, lagos, rios, cachoeiras, fontes e poços tinham divindades tutelares, como deusas, nereides, ondinas, sereias, náiades, ninfas, fadas, ou ainda devas, gênios ou espíritos guardiões do lugar. As regentes das fontes, chamadas pelos gregos de náiades eram representadas como lindas mulheres nuas, ornadas com plantas aquáticas, com longos cabelos prateados ou esverdeados e segurando nas mãos urnas ou taças, de onde brotava a água.

Para reverenciá-las, os gregos cobriam as fontes com flores e folhagens, ofertando-lhes vinho, mel, azeite, leite, moedas, jóias e estatuetas. Acreditavam que certas fontes possuíam a virtude de exaltar a imaginação, por isso, as dedicavam às Musas, e o seu murmúrio inspirou inúmeros poemas e canções. Antes de proferir seus oráculos, a Pitia de Delfos ia se purificar e beber da fonte de Castália, que tinha se originado pela metamorfose de uma linda ninfa, armada do deus Apolo.

Os povos celtas tinham uma reverência especial pelas fontes, existentes em todos os lugares e dedicadas a diversas deusas, com Brighid, Sulis, Boann, Sequana, Sinan, Coventina. Nas datas festivas as fontes eram “vestidas” com flores e oferendas votivas em metal, cerâmica, madeira ou osso, que eram deixadas como agradecimento. Os doentes faziam peregrinações às fontes curativas e amarravam pedaços de suas roupas nas árvores que as cercavam, acreditando que, juntamente com as roupas, deixavam também suas doenças.

Mesmo hoje, na Escócia e na Irlanda, existem inúmeras fontes consideradas milagrosas, dedicadas à deusa Brighid e chamadas de ”cloutie wells”, ou seja, “fontes com trapos”. O nome deve-se à uma verdadeira floresta de panos, amarrados nas árvores que cercam o lugar e cuja egrégora é impregnada do sofrimento daqueles que as procuram para a cura dos seus diversos males .

Com a cristianização, os nomes das deusas padroeiras foram substituídos por santas ou santos, mas apesar da proibição da utilização dos costumes pagãos pela Igreja, as pessoas até hoje costumam amarrar fitas ou deixar moedas e flores “para dar sorte”, sem sequer lembrar-se dos mitos originais.

A mais famosa fonte – entre os milhares existentes na Irlanda e dedicadas antigamente à deusa Brighid (padroeira das artes, magia e cura) – encontra-se na cidade de Kildare. Havia antigamente nos arredores desta cidade um templo de fogo da Deusa, zelado por 19 sacerdotisas, substituído posteriormente por um mosteiro com 19 monjas; atualmente ali existe uma igreja moderna dedicada à Santa Brígida. Apesar de a presença cristã de uma estátua da Santa no local da antiga fonte sagrada, a atmosfera é bem pagã, como atestam as cruzes solares de palha, as fitas coloridas, os presentes amarrados nos arbustos ao redor da fonte e as moedas e cristais ofertados visíveis no fundo do poço. A água brota da terra e passa por baixo de um arco de pedra entre duas rochas chamadas de “os sapatos de Brighid”, já gastas pelos pés de tantos peregrinos.

No entanto, a mais renomada e conhecida fonte celta não possui o nome de Brighid. Localizada na cidade de Glastonbury, na Inglaterra, a Chalice Well (“a Fonte do Cálice”) nasce das entranhas da colina sagrada chamada Tor e é canalizada para um jardim de excepcional beleza. Apesar da quantidade de visitantes diários, o jardim é silencioso e mágico, um verdadeiro lugar sagrado imbuído de poderosa energia curativa, telúrica e cósmica. A fonte vermelha – Red Spring -, cuja cor é devida ao alto teor de sais de ferro é perene, com débito constante, e é considerada o próprio sangue da Deusa. Pelo lado de fora do jardim existe outra fonte, White Spring (nascente branca), de composição calcárea, conhecida nas lendas locais como um caminho para o mundo subterrâneo.

Nos tempos antigos, entre as duas fontes – ambas nascendo sob a colina do Tor – existia um vale coberto por árvores sagradas (teixos e carvalhos), em que os córregos formados pelas águas das fontes branca e vermelha se misturavam para representar o equilíbrio entre a luz e a escuridão, o mundo terreno e o subterrâneo, o consciente e o inconsciente, a vida e a morte, o começo e o fim, o masculino e o feminino. É esta a lição de integração e cura que os peregrinos sinceros podem encontrar, se abrirem as suas mentes e permitirem o suave fluir da sua intuição, ao som das batidas do coração.