As comemorações do Ano Novo

Mirella Faur

Universalmente festejado desde os tempos antigos, o Ano Novo – independentemente da data em que era comemorado – marca a transição de um ciclo de vida para outro, fechando um capítulo e abrindo outro no misterioso livro da existência. As datas variam em função do país, fatores climáticos, conjunções planetárias, posição de determinadas estrelas, mudanças de estações, festas religiosas, datas do calendário agrícola ou pastoril, enchentes de rios, chegada das monções ou das chuvas.

A noção de fim ou início de um ano-calendário tinha pouca importância para os povos antigos cuja sobrevivência dependia do clima e das variações no fornecimento de alimentos.

No antigo Egito, o início do ano era determinado pela cheia do Rio Nilo; na Babilônia, pelo início e pelo fim da colheita; no império greco-romano, a renovação da natureza na primavera, em março, indicava o começo do Ano Novo, enquanto os celtas consideravam o sabbat Samhain, no dia 31 de outubro, como o marco entre a metade clara e a escura do ano, o que representava a véspera do Ano Novo. Na China, até hoje o Ano Novo é assinalado pela Lua Cheia do mês de fevereiro; na Índia, as datas variam de acordo com a região geográfica e, na Oceania, é a aparição das Plêiades que anuncia um novo ciclo.

Muitos povos agrícolas e nômades determinavam seu ciclo anual em função dos movimentos da Lua. Os mais antigos calendários eram os lunares, porém, com o passar do tempo, as autoridades religiosas acrescentaram mais meses, além dos treze iniciais. Devido às divergências nos cálculos e critérios adotados, surgiram calendários mistos soli-lunares até que, finalmente, a maior parte dos países adotou o calendário solar. O mais antigo destes sistemas de medição do tempo pelo movimento do Sol foi criado pelos egípcios em 4236 a.C., que dividia o ano em 36 grupos de 10 dias, mais cinco suplementares dedicados às festas, acrescentando-se mais um dia a cada quatro anos.

Na Europa, o calendário solar Juliano, que determinava o início do ano em março, foi criado por Julio César em 46 d.C. para corrigir as dificuldades encontradas com a contagem das lunações. Enquanto o calendário egípcio dedicava os cinco últimos dias anuais para as festividades, o sistema europeu distribuiu estes dias ao longo do ano e criou o ano bissexto. A conseqüência desta divisão foi um erro acumulado de oito dias ao longo de 1000 anos. Para corrigir este erro, o Papa Gregório XIII criou o seu calendário, o Gregoriano, em 1582, abolindo dez dias, retificando os anos bissextos de acordo com o ano trópico e mudando a data do início do ano de março para primeiro de janeiro, bem como antecipando o Natal, de 6 de janeiro para 25 de dezembro. Este passou a ser o calendário adotado pelo mundo ocidental, mas alguns países de religião protestante se rebelaram contra a decisão do Papa e somente aceitaram esse calendário no século XVIII, o que criou muita confusão entre as datas dos calendários antigo e novo.

No Oriente, as celebrações do Ano Novo diferem de um país para outro. No Japão, existe um assim chamado Ano Novo Maior e outro Menor. O primeiro, calculado pelo antigo calendário chinês, é festejado durante os primeiros sete dias do primeiro mês do ano. As pessoas usam roupas novas, visitam-se e trocam presentes entre si. Os altares do xintoísmo são decorados com flores e recebem várias oferendas. São servidas comidas tradicionais à base de arroz e regadas a saquê. O Ano Novo Menor é associado a datas agrícolas e suas celebrações envolvem magias e simpatias para proporcionar boas colheitas como encenações ritualísticas do ato de plantar e colher, oferendas de bolo de arroz modeladas em forma de produtos agrícolas, ferramentas e animais, e também encantamentos para espantar as aves de rapina e insetos predadores.

Na China, o festival de Ano Novo ocorre em fevereiro, na primeira lua cheia. As casas são cuidadosamente preparadas, as lojas fechadas, as dívidas pagas, os ídolos de papel são trocados e as faixas de papel vermelhas são pintadas com ideogramas de saúde, boa sorte, abundância, felicidade e proteção contra os maus espíritos. A cor vermelha, que representa sorte, predomina nas decorações e nas roupas. Oferendas são feitas para as divindades e para os ancestrais, as pessoas tocam símbolos e tambores (o barulho é essencial para espantar os azares e as doenças), soltam-se fogos de artifício e são feitas procissões com lanternas.

Na Índia, o festival marca a virada do ano no solstício de inverno. É um período de purificação cerimonial nos rios sagrados e de peregrinação aos templos, levando-se oferendas e orações. O gado é enfeitado com guirlandas de flores e as pessoas se alegram com danças, músicas, presentes e comidas tradicionais.

Os nativos norte-americanos têm comemorações diferentes, de acordo com a tribo e a data escolhida, variando de fevereiro (para os sênecas), novembro (para os hopis), até o solstício de inverno (pueblos). Acendem-se fogueiras, pessoas mascaradas andam de casa em casa, os xamãs limpam os doentes com cinza e fumaça de ervas e as mulheres salpicam água nos passantes. Os erros são confessados nos conselhos de anciãos e oferendas de fumo e fubá são feitas para as divindades da Terra e do Céu. Os hopis e os pueblos realizam os ritos de passagem para iniciar os jovens no mundo dos adultos e celebram o retorno dos kachinas (espíritos ancestrais e da natureza) durante o festival Soyal e Wuwuchim.

Os antigos festivais ocidentais de Ano Novo reencenavam a regeneração e a recriação do mundo. O tempo parava e começava de novo, as pessoas podiam iniciar um novo ciclo, virando a página para recomeçar. Com as mudanças do calendário (antecipando-se o ano novo de março para janeiro), foram reativadas as antigas memórias dos festejos romanos de Saturnália. A origem de Saturnália é obscura, mas era a festa mais popular de Roma antiga, quando todos "enlouqueciam". O velho ano morria e antes que o novo nascesse havia um intervalo de caos, quando o tempo era suspenso, as leis civis e morais abolidas, os prisioneiros libertados e todas as orgias permitidas. A autoridade representada por Saturno – o implacável Senhor do Tempo – era substituída pela licenciosidade do Rei da Desordem (um jovem escolhido para este papel), que incitava a todos a transgredirem as regras. No fim das festas, ele era sacrificado no altar do deus Saturno. Havia também o combate simbólico entre homens representando o velho e o novo ano, finalizando com rituais de expurgo dos resíduos do passado e purificações. A Saturnália, após doze dias de carnaval, terminava com Sigillaria, quando as crianças recebiam presentes.

Festivais parecidos ocorriam também em Creta, Grécia, Ásia (na Babilônia, os 12 dias de Sacaea representavam a luta entre o caos e a ordem, o bem e o mal, o inverno e o verão). Reminiscências desses antigos festivais sobreviveram nas festas de fim de ano dos países europeus. Os povos celtas celebravam, no sabbat Samhain, o mesmo conceito de caos e reversão da ordem normal, acrescentando rituais específicos para reverenciar os ancestrais, práticas mágicas e de adivinhação para atrair amor, fertilidade, boa sorte e abundância para o novo ano. São algumas dessas características que persistiram nas festas de Halloween, como nas brincadeiras das crianças pedindo doces ou se fantasiando de fantasmas e nas tradições dos bailes de máscaras.

Na Romênia, os antigos costumes herdados dos dacos e romanos sintetizavam a mescla da tradição pagã e cristã. Matavam-se porcos (representação zoomorfa do espírito dos grãos), preparavam-se comidas tradicionais de cereais, festejava-se a transição da morte para a vida e realizavam-se danças típicas com máscaras e encenações rituais. À meia noite, parava-se o relógio e apagavam-se as luzes, para que, ao acendê-las, a explosão de alegria e os brindes marcassem o renascimento e a renovação. As mulheres usavam encantamentos e adivinhações para propiciar felicidades, amor e saúde.

Na Espanha, até hoje as famílias costumam se reunir na véspera do Ano Novo para troca de presentes e comer 12 uvas antes de o relógio anunciar a passagem do ano. A prática visa atrair boa sorte e a felicidade.

No Brasil, além das festas profanas, observa-se um aumento nas cerimônias religiosas e no crescente número de pessoas – adeptos ou não das religiões afro-brasileiras – que levam oferendas para Iemanjá, a Deusa Mãe iorubá, Senhora do Mar.

Na tradição da Deusa, o 1º de janeiro é consagrado às deusas gregas, romanas e nórdicas do destino – as parcas, moiras ou nornes -, bem como às divindades protetoras das casas e das famílias.

Ritual de Ano Novo na tradição da Deusa
Lembrando as antigas celebrações, as mulheres atuais podem usar alguns elementos e práticas rituais para limpar sua casa e atrair bons influxos no próximo ano.
Na véspera, recomenda-se retirar todos os objetos e roupas impregnados com energias negativas ou lembranças dolorosas. Após purificá-los com água e sal grosso, poderão ser doados.
Depois, abre-se as portas e janelas, tocando um sino ou chocalho para espantar os maus fluidos, e limpa-se a casa com uma vassoura de galhos verdes (de preferência eucalipto). Em seguida, defumam-se todos os cômodos andando no sentido anti-horário com um incenso que contenha resinas, cânfora e arruda.
Em um lugar especial, acende-se depois uma vela branca de sete dias, colocando ao lado um copo com água, um pão pequeno e um pires com sal. Os familiares podem se dar às mãos e orar juntos, pedindo ao Pai e Mãe Divinos, aos anjos guardiões e aos espíritos ancestrais as suas bênçãos.