Maria Madalena - Uma Grande Mulher, nem Santa, nem Pecadora

Não seja ignorante a meu respeito,
Pois eu sou a primeira e a última.
Eu sou a estimada e a rejeitada.
Eu sou a prostituta e a sagrada.
Eu sou a esposa e a virgem.
Eu sou a mãe e a filha.
Eu sou aquela cujo casamento é grandioso,
e eu não tomei um marido.
Eu sou a parteira e aquela que não dá à luz,
Eu sou o consolo das minhas dores do parto”...

Um trecho do Poema Gnóstico da biblioteca de Nag Hammadi “O trovão, a mente perfeita”.

(um extenso e enigmático monólogo no qual o Salvador discorre sobre uma série de afirmações paradoxais sobre a natureza feminina da divindade).

Mirella Faur

 Não há personagem histórico que tenha sofrido tanto o peso das projeções moralistas da sociedade patriarcal do que Maria Madalena. Vista como pecadora e prostituta, ela passou a representar a sombra do feminino, seu lado negativo, em oposição à luz da Virgem Maria, pura e sem pecado original. Esta sombra afetou profundamente o psiquismo da mulher, provocou uma cisão em sua personalidade e causou toda sorte de repressão, perseguição e culpa feminina em relação à sexualidade. Ao longo de milênios, preconceitos disfarçados em religião foram transformados em acusações, maledicência, perseguição e violência, deturpando as verdades originais.

 Em 591 o papa Gregório I iniciou uma série de sermões sobre Maria Madalena em que a considerou a “pecadora arrependida” salva pelo encontro com Jesus, ignorando totalmente o seu papel de líder religiosa e detentora de ampla sabedoria. Os primeiros padres da Igreja excluíram das escrituras sagradas o registro da vida de uma mulher que manifestava uma sensualidade sem pudores e, ao mesmo tempo, uma intensa espiritualidade. Segundo os Evangelhos, sua devoção incondicional a Jesus despertou ciúmes e inveja entre os discípulos. Madalena era uma mulher apaixonada, que se entregava inteira em tudo que fazia, tanto que se tornou a discípula dileta, a companheira, filha e mãe de Jesus. Madalena vivenciava a dimensão espiritual, corpo e alma integrados, como sabemos hoje dos depoimentos de místicos sobre o êxtase espiritual. A sua capacidade de mergulhar naquele estado que hoje conhecemos como “expansão da consciência”, permitiu que ela visse Jesus ressuscitado. Os padres cristãos negavam a habilidade feminina em conciliar os opostos, viver a dimensão material junto com a espiritual, integrar corpo, mente e coração.

 Há alguns anos vêm sendo feitos estudos e pesquisas para resgatar a verdadeira história de Madalena, e nesse trabalho também está sendo resgatado o inconsciente do cristianismo, fragmentos de uma memória recalcada pelos primeiros patriarcas da Igreja. Na verdade, desde que apareceu a noção de pecado, o que se tenta exorcizar é o sexo, em oposição ao espírito. Os inúmeros ensinamentos cristãos sobre amor incondicional e perdão não conseguiram aplacar o preconceito, o horror feminae dos homens, o medo irracional do poder feminino e a rejeição contra tudo que lembrava as antigas tradições pagãs da humanidade que reconheciam e reverenciavam a sacralidade feminina.

 Quando os quatro evangelhos foram selecionados (entre centenas de outros escritos), por volta do ano 200 d.C. surgiu a distinção entre os evangelhos oficiais canônicos e os “apócrifos”, aqueles que não foram considerados por não concordarem com os cânones do cristianismo incipiente. Prevaleceram nessa seleção os preconceitos patriarcais, porque nos documentos escolhidos não se descrevem as ações e contribuições de mulheres que viviam nas primeiras comunidades cristãs e que, junto com seus companheiros, foram igualmente perseguidas e torturadas pelos romanos. Os Evangelhos Gnósticos, rapidamente excluídos como heréticos pelos padres da Igreja, favoreciam o dogma que maximizasse o status da Virgem Maria (apesar dela ser raramente mencionada nos quatro Evangelhos) e minimizasse o papel de Madalena, principal testemunha da Ressurreição, e também o papel da mulher em geral na Igreja.

 Só recentemente apareceu uma comprovação dos julgamentos errados registrados nas Escrituras sobre Madalena. Desde o ano de 1896 encontra-se, no Museu Nacional de Berlim, um texto escrito na língua copta em 150 d.C. e que foi encontrado no século IV num antiquário da cidade de Achmin, no Egito. Outros fragmentos em grego foram achados no século XX somando ao todo oito rolos de papiros. Neles são narrados episódios da vida de Jesus, contados por uma mulher de nome Maria de Magdala, e foi traduzido como “O Evangelho de Maria Madalena”, fazendo parte dos textos fundadores do cristianismo. O teólogo e escritor Jean-Yves Leloup vê o surgimento desse texto, considerado “apócrifo” pela Igreja, como “a emergência da parte recalcada do cristianismo, aquela que foi negada, escondida, ocultada ao longo dos tempos. E que, ao ser resgatado, mostrou-se como um caminho mais humanizado e, sobretudo, feminino, de reconexão com o divino” (O Evangelho de Maria).

 Ao tornar Madalena, uma mulher tão íntima de Jesus, na “prostituta penitente” os padres acabaram por estigmatizá-la, chamando-a, por associação, de Segunda Eva, “o portal do Demônio” (Tertuliano). Hoje podemos ver como, ao excluir as mulheres, antigos fanáticos como Orígenes, Agostinho, João Crisóstomo e Jerônimo, em seu pavor da sexualidade, criaram uma cisão psíquica infeliz na alma ocidental. Maria Madalena não é apenas um personagem do passado, meio mítica, meio histórica. Sua figura está presente mais que nunca, nesse novo milênio, quando mulheres em todo o mundo buscam uma representação do divino feminino para orientar sua sexualidade. Das brumas do tempo ela ressurge, envolta em seu manto vermelho, segurando o cálice sagrado e ativando o arquétipo reprimido da nossa plena expressão como mulheres.

 Segundo os Evangelhos, Jesus teria livrado a mulher “pecadora” dos sete demônios e, a partir daí, ela se tornou sua fiel seguidora. Relatos históricos contam também que ele teria desafiado os homens que queriam apedrejar a mulher adúltera, dizendo: ...que atire a primeira pedra quem nunca pecou....Os sete demônios podem simbolizar os sete chakras, ou centros de energia vital, cada um com seus desejos e apegos respectivos, que muitas vezes podem dominar e escravizar o ser humano. Só quando a consciência os domina eles são transcendidos e se tornam nossos servos fieis como um caminho da energia vital, desde o nível sexual até sua manifestação nos planos mais sutis. Quando Jesus exorciza os “sete demônios” da Madalena dos Evangelhos, algumas pessoas veem nisso uma referência secreta ao ritual esotérico de purificação dos sete chakras do corpo energético. Pode também ser uma referência aos ”Sete Portais” do mito sumério da “descida de Innana” ao mundo subterrâneo.

 A figura de Maria Madalena foi submetida na tradição cristã a uma retaliação simbólica, sem respeitar o seu verdadeiro ser, de tal maneira, que em lugar da sua identidade ela passou a simbolizar o pecado sexual, que não se devia cometer. Ao quebrar o paradigma da estrutura patriarcal, Maria Madalena e Jesus iriam abrir caminho para outras mulheres. Porém, com o roubo de sua identidade e a difamação milenar, as mulheres foram dominadas ao longo das gerações. O medo e a ignorância promoveram no interior de homens e mulheres, a separação: do masculino e feminino, bem e mal, virtude e pecado, luz e sombra, sexo e espírito – e assim fragmentada, nossa humanidade adoeceu. Para restaurar a saúde humana, individual e coletiva precisamos reconciliar os apelos da nossa sexualidade, com o anseio insaciável de nossa alma.

 As primeiras e mais antigas fontes que citam o nome de Maria Madalena na tradição religiosa do cristianismo são os Evangelhos Canônicos, escritos pelos quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João, no século I de nossa era. Esses primeiros evangelhos foram selecionados entre muitos outros pelo bispo de Lyon, Irineu, sendo os restantes julgados “apócrifos ou gnósticos”, de pouco valor. A primeira referência a uma mulher chamada Madalena encontramos em Marcos: “E ali também estavam algumas mulheres, entre as quais Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé” (Marcos 15:40). Mais adiante, ele afirma que a unção do corpo morto de Jesus foi realizado por essas mesmas mulheres. Também Felipe menciona em seu Evangelho Gnóstico escrito no final do século II, que “Havia três mulheres que andavam com o Senhor: Maria, sua mãe, a irmã de sua mãe e Miriam Madalena, conhecida como a sua companheira. Para ele, Miriam era uma irmã, uma mãe e uma esposa”.

 Nos primeiros anos do cristianismo Maria Madalena teve um realce significativo entre os homens e mulheres que seguiam Jesus, sua liderança sendo reconhecida como mostram os relatos dos Evangelhos da paixão e ressurreição de Cristo. As informações disponíveis são poucas e se referem ao evento da crucificação e à mensagem de Jesus. Entretanto, a partir dos dados descritos nos Evangelhos Sinóticos e nos Apócrifos Gnósticos foi possível sintetizar-se sua biografia. Os textos gnósticos recentemente descobertos (“A Biblioteca de Nag Hammadi”), que antecedem os manuscritos bíblicos com 200 anos, deixam mais claro do que nunca que Maria Madalena teve um papel proeminente no círculo dos primeiros apóstolos, como a principal confidente de Jesus, chamada de seu koinomos, palavra grega que tecnicamente significa “consorte” ou “companheira”, sugerindo uma relação sexual. E, da mesma forma que no rejeitado texto gnóstico Pistis Sophia, ela se destaca como a principal intérprete da revelação de Jesus do cosmos da luz como “aquela que entendeu o Todo”. Aqui, como em outros casos na figura de Santa Sofia – o feminino transcendente de muitos sistemas gnósticos – ela representa o papel da Sabedoria Sagrada no Velho Testamento.

 Hoje se sabe que “Miriam de Magdala”, que significa em aramaico a torre do rebanho, é um título dado a Maria, chamada de Madalena. De família rica, ela e outras mulheres mantinham o trabalho itinerante de Jesus. Mas só em 1969 a Igreja Católica Romana corrigiu o seu erro milenar, reconhecendo que nunca houve qualquer evidência de que ela tenha sido prostituta. Em todas as representações de Maria Madalena feitas por pintores, ela é sempre mostrada portando nas mãos uma jarra de alabastro com unguento. Esse vaso é uma referência à unção de Jesus Cristo com a essência perfumada de nardo, que ela trazia consigo. Primeiramente, ela unge os pés do Mestre durante uma ceia após Jesus ter ressuscitado o irmão dela, Lázaro; e, finalmente, após sua crucificação no Gólgota. Essas passagens do Evangelho lembram um refrão dos Cânticos de Salomão: “Que belos são os teus amores, irmã minha! Ó minha esposa! Quanto melhor... é o aroma dos teus bálsamos do que o de todas as especiarias!”.

 Estudos metafísicos atuais revelam que, possivelmente, esta unção não fosse apenas uma devoção espontânea de uma mulher, mas um ato carregado de significado simbólico, como na cerimônia nupcial do hierogamos, o ritual do casamento sagrado que unia uma sacerdotisa da Deusa ao rei. Durante milênios, essas celebrações ritualísticas ocorreram por toda a região e faziam parte das tradições religiosas do Oriente Médio. O significado da unção com o óleo perfumado de nardo (usado também em cerimônias tântricas da Índia), feita amorosamente por Maria Madalena em Jesus durante a ceia na casa de Simão, sugere que tenha sido uma reminiscência dos antigos rituais do casamento sagrado, repetindo os elementos litúrgicos dos Cânticos de Salomão. Esta interpretação de uma união conjugal entre Jesus e Maria Madalena, reconhecida por Hipólito e Orígenes e renegada pela Igreja de Pedro, parece bastante lógica e coerente com a inclusão do feminino na vida social e religiosa, conforme Jesus pregava, além de reinstalar o antigo modelo de parceria no âmago da história cristã. No contexto da cultura grega – língua na qual os evangelhos foram escritos – a celebração do casamento sagrado era um ritual de consagração em homenagem à força da vida, à abundância generosa da terra e aos ciclos de vida, morte e renascimento, compartilhados pela família humana. Na história de Cristo é visível a repetição do ciclo de vida, morte e renascimento que era celebrado nas cerimônias das tradições antigas.

 Outro símbolo presente nas telas de pintores que retrataram Maria Madalena é uma torre, que é o significado de Magdal-eder, “a torre do rebanho”; numa passagem profética de Miquéias, ele fala do sofrimento da noiva destituída, profanada e depois, exilada, fazendo uma associação de Madalena com a Filha de Sião. Com base no significado da palavra aramaica magdala, estudiosos atribuíram a Maria o epíteto de Madalena, significando a “Grande, a Magnífica, a Torre, ou a Fortaleza do rebanho”. Essa e muitas outras evidências foram retiradas da versão ortodoxa da história do cristianismo, mas a sagrada união foi a pedra fundamental que os construtores rejeitaram. O mundo dominado por Roma no século I e a continuação dos conceitos patriarcais pelos apóstolos cristãos não estavam prontos para adotar o evangelho da igualdade entre os sexos e da inclusão da mulher na igreja, como ainda não está.

 O Evangelho de Maria é um texto do início do século II, encontrado em Nag Hammadi e datado por volta do ano 150 d.C.; nele encontram-se referências sobre Maria Madalena como a apóstola que melhor assimilou os ensinamentos de Jesus e que dialogava teologicamente com os apóstolos. Ele ilustra o seu papel de “apóstola dos apóstolos”, sendo retratada como profetisa, mestra e apoio para os outros discípulos. Esse evangelho foi escrito possivelmente pela comunidade que se formou em torno de Maria Madalena, e ela, por ter recebido um ensinamento especial e uma consideração maior de Jesus, atuava como líder entre os discípulos após a sua ressurreição. Enquanto os outros discípulos choravam e temiam por suas vidas caso saíssem para evangelizar, ela os confortava e animava para que abrissem seus corações para compreender e assimilar as palavras de Jesus. Madalena manteve o seu equilíbrio e a fé fortalecida pela visão que teve, por isso Jesus a louvou por não ter medo ao vê-lo. Maria Madalena foi capaz de ensinar aos outros e cuidar deles por ter alcançado a maturidade espiritual e a intuição profética, contrapondo sua força aos medos, ignorância e críticas. Os discípulos sentiam ciúmes, tratando-a com desprezo e inveja e questionando suas palavras; eles não aceitavam o fato de Jesus amá-la mais que a eles, pois “a beijava na boca, descansava sua cabeça no seu peito e a elogiava pela sua sabedoria”, preferência que a habilitou a agir como uma líder depois da crucificação. O Evangelho de Maria Madalena fala da revelação especial que Jesus fez a ela na visão após a sua ressurreição, com um simbolismo avançado de experiência visionária e descrevendo o itinerário da alma após a morte, que, ao se libertar das amarras da matéria, alcançava a comunhão com a espiritualidade pura.

 Maria Madalena veio de Magdala, cidade que tinha uma localização estratégica, junto ao mar da Galileia, numa região próspera, que muito sofreu com a ocupação romana e com as revoltas que esta causava.  Era um centro de comércio que fazia parte de uma rota internacional, onde pessoas de todas as religiões e costumes se encontravam no mercado, onde se comercializava peixe salgado, tecidos tingidos e produtos agrícolas.  Magdala não é mencionada no Novo Testamento apesar de ter sido o lugar para onde Jesus e seus discípulos se dirigiram depois de alimentarem quatro mil pessoas com sete pães e alguns peixes. Normalmente as mulheres nos evangelhos são lembradas como mãe, mulher e filha de alguém, um costume da sociedade patriarcal. Entretanto, Madalena não pertencia a nenhum homem, não se sabe se ela era uma mulher jovem ou solteira, viúva ou se preferiu ficar solteira como algumas mulheres influenciadas pelo helenismo, que optavam pela liberdade. Tudo indica que possuía alguma riqueza e após tornar-se a discípula de Jesus o acompanhava junto com os outros discípulos.  No entanto, a sua história verdadeira teria sido mais rebuscada: acredita-se que ela era uma princesa da Casa de Bethânia, sacerdotisa do templo de Ísis e que ao casar-se com um descendente da linha de Davi- como Jesus - cumpria uma antiga profecia. Como sacerdotisa da Deusa ela fundiu seus conhecimentos místicos com os de Jesus.

 O Evangelho de Lucas é o único que relata a presença de Maria Madalena desde o início do ministério de Jesus na Galileia. Ela não acompanhava Jesus ocasionalmente, mas fazia parte do seu dia-a-dia e do grupo itinerante e estava no mesmo nível que os doze apóstolos. Ainda que as informações sobre ela sejam escassas, comparadas a outros personagens bíblicos, seu nome aparece mais vezes que qualquer outra mulher no Novo Testamento e, na maioria delas em primeiro lugar. Somente nos século II e III que a igreja começou a excluir as mulheres do oficio de ensinar e pregar. É importante lembrar que os evangelhos foram escritos por homens inseridos numa estrutura eclesial onde o poder pertencia a eles; os escritos registraram fatos guardados pela sua memória e têm uma diferença temporal de no mínimo trinta anos, a maior parte deles sendo escritos no final do primeiro século. Pesquisas recentes confirmam que é pouco provável que algum dos autores do Novo Testamento tenham conhecido - de fato -Jesus; os relatos bíblicos de Maria, a mãe e de Madalena datam de 50 anos após a morte de Jesus. Além disso, é evidente que a Bíblia atual – que foi compilada no século IV - passou por inúmeras correções, adições e traduções ao longo dos séculos, resultando cópias de cópias.

 O relato da ressurreição no Evangelho de Marcos é o que dá mais importância a Madalena. Ela assistiu a crucificação, preparou os aromas e o bálsamo para ungir o corpo do mestre e testemunhou a ressurreição, foi a portadora da notícia de que Jesus havia ressuscitado e a primeira com a missão de proclamar a mensagem de Cristo. Ela tinha ido ao sepulcro de madrugada e quando encontrou a pedra da entrada revirada viu dois anjos e depois o próprio Jesus, que conversou com ela e lhe pediu para avisar aos outros discípulos. Desta forma, ela se tornou a figura principal do relato, pois estava sozinha, chorando ao pé do túmulo; não foi Pedro, nem Paulo que tiveram esta graça.  Quando ela levou a notícia aos apóstolos de que Jesus estava vivo após sua morte na cruz, eles duvidaram... será que podemos confiar numa mulher?  André a questionou e insinuou que seus ensinamentos eram estranhos, mas Pedro foi além, e perguntou se o Salvador preferira as mulheres aos seus discípulos. Pedro revelava um ciúme doentio, pois estava obcecado com a sua perda de prestígio se fosse instruído por uma mulher e por isso não queria aprender seus ensinamentos. Quando, mais tarde, ela se apresentava e falava, a multidão era arrebatada por suas palavras, como ocorreu em Marselha. Mesmo o mais brilhante dos discípulos do sexo masculino, segundo nos diz o Evangelho de Felipe, silenciava perante sua exposição apaixonada. Somente o teimoso, invejoso e misógino  Pedro negava o profundo conhecimento de Madalena.

 Mesmo sendo Maria Madalena conhecida no imaginário e na tradição ocidental popular como a prostituta arrependida, a adúltera que Jesus salvou das mãos dos homens que queriam apedrejá-la e a pecadora cujas lágrimas lavaram os pés de Jesus em preparação para sua sepultura não há no Novo Testamento ou na literatura cristã primitiva registros ou indícios que comprovem as acusações sobre a sua moral. Lucas afirmava que a presença de mulheres seguindo Jesus era fundamental para o grupo, pois por possuírem recursos próprios elas doavam seus bens e rendas para manter Jesus e os discípulos. Não há nesses textos indicações de que Cristo considerava a contribuição das mulheres inferior à dos discípulos; ele não se apegava às convenções de sua época, mas tinha o desejo de mudar as tradições sociais e isso era expresso no tratamento que dava as mulheres. O nome de Maria Madalena aparece em primeiro lugar nos escritos primitivos e nos sinóticos comprova-se que as pessoas recorriam a Maria Madalena como a Pedro e Paulo. Desta forma evidencia-se que sua importância ia além da que transparece nos Evangelhos Canônicos.

 A ausência de seu nome nos textos assume um significado diferente e surge a pergunta: qual seria o motivo dessa ausência? Alguns autores consideram que esta omissão não foi um descuido, mas uma estratégia proposital para excluir as mulheres de posições de liderança apostólica. No curso da história Maria Madalena sempre desfrutou de grande popularidade, mas o interesse estava muito mais na condenação da sua sexualidade e dos seus pecados do que em seus testemunhos. O Evangelho de Maria Madalena traz o tema da liderança da mulher ao mencionar a controvérsia entre os discípulos a respeito do exercício da liderança. Eram debatidas várias questões, inclusive a importância da experiência visionária, a legitimidade da liderança das mulheres e o sentido do ensinamento de Jesus. Porém, se fosse ensinado que a autoridade devia basear-se em maturidade espiritual e não em distinção de gênero, abria-se a possibilidade de um espaço onde a mulher e o homem poderiam exercer a sua liderança que visasse ensinar, pregar, conduzir e exercer a compaixão pelos outros.

 O livro Código Da Vinci, de Dan Brown, alcançou sucesso internacional e uma impressionante audiência, com sua história brilhantemente tecida em torno de sociedades secretas, simbolismo esotérico e lendas do Santo Graal. Prevalece a tese, antes herética, de que Maria Madalena fora consorte e parceira sexual de Jesus, e de que sua descendência se tornara uma linhagem sanguínea secreta, estendendo-se da Idade Média aos tempos modernos. A maior parte das polêmicas ideias sobre a relação de Jesus com Maria Madalena e sobre o Sangreal foi usada como um código para a linhagem sanguínea sagrada. Uma das razões para a atual popularidade de Madalena é a expansão do conceito inovador sobre a possível atuação religiosa da mulher, não mais restrita a intelectuais da Igreja, mas que alcançaria também as mulheres comuns, sem ser restrita apenas os homens. Assim, milhões de mulheres passaram a questionar a misoginia e o puritanismo de uma Igreja patriarcal que, há muito, tem marginalizado Madalena ou a transformado em bode expiatório, em função de sua flagrante sexualidade. Graças a muitas informações genuínas que Dan Brown coletou (ao lado de outros autores como Margaret Starbird em The Woman with the Alabaster Jar e The Goddess in the Gospels, Elisabeth Clare Prophet em Mary Magadelene and the Divine Feminine), a figura poderosa dessa mulher enigmática está outra vez tornando-se viva na imaginação do nosso tempo.

 De objeto de piedade ou desprezo, Madalena tem se transformado numa heroína feminista celebrada, um novo modelo para a mulher independente e apaixonada. Aos poucos, historiadores modernos da Igreja estão reconhecendo que o rótulo de “prostituta arrependida” foi usado como uma tática difamatória e uma interpretação distorcida dos Evangelhos. No entanto, para os puritanos e patriarcas que dominaram o Cristianismo, a “mulher escarlate”, que esteve tão perto do Salvador, é sempre motivo de vergonha e constrangimento.  A causa está na perturbação profunda e patológica dos padres da Igreja Cristã antiga pela sexualidade das mulheres, pois para eles, sexo era o mais aterrador dos pecados, resultante direto da transgressão de Eva no Jardim do Éden. Foi a partir dessa paranoia em relação aos desejos carnais que surgiu o mito doutrinário de Maria, a Mãe milagrosamente casta e virgem. Pelo poder do Nascimento Virginal e de uma Igreja de sacerdotes celibatários e freiras virgens, esperava-se reverter o pecado original de Eva e fugir das tentações do Demônio no mundo altamente licencioso da Roma Antiga. O resultado tem sido uma continuada recusa em relação a toda manifestação do feminino conectado com a religião, uma obsessão com o comportamento sexual e o controle da concepção e a secular misoginia nas Igrejas, as quais não se cansam de denegrir, diminuir e inferiorizar as mulheres. Apesar da liberação sexual e da ordenação atual de mulheres, essa idiossincrasia está longe de ser resolvida, mas o interesse renovado e o retorno da popularidade de Madalena representa - pelo menos – a esperança de uma solução possível para que a Igreja Católica mude a sua atitude medieval em relação ao sexo e às mulheres.
 O Surgimento do Feminino Divino constitui uma reação à negação milenar da mulher, existe atualmente por toda parte uma enorme ânsia pelo sagrado feminino, permeando a sociedade ocidental e em vias de mudar de vez e para sempre os fundamentos patriarcais patológicos cristãos. Mulheres de todo o mundo, anseiam por readquirir sua verdadeira dignidade e serem reconhecidas e aceitas como seres espirituais, passionais e criativos, iguais aos homens e não submetidas a eles. E a imagem que pode lhes servir como estandarte é Maria Madalena, a representação da Deusa ignorada e perdida do cristianismo. Maria Madalena foi uma mulher que desejou ardentemente, com todos os seus sentidos, o homem e o Deus. Acima de tudo, ela demonstrou ser plenamente humana, integrando dentro de si o poder assertivo de uma vontade forte e, ao mesmo tempo, um anseio feminino intenso pela transcendência, um modelo psíquico do feminino, que pode nos inspirar a todos, homens e mulheres, no resgate de nossa inteireza humana.

 Existem evidências ocultas nos Evangelhos que revelam a posição de Maria Madalena como sacerdotisa da Deusa. Seu nome Maria de Magdala aponta para o templo tríplice das deusas Mari-Anna-Ishtar existente em Magdala, também conhecida como a “aldeia das pombas”, onde elas eram criadas para os templos das deusas. A alegação que Madalena era prostituta pode ser uma referência ao título de hieródulas dado às sacerdotisas da Deusa e que foi deturpado depois para “prostitutas sagradas” e finalmente destituído da referência aos ritos sexuais sagrados. A menção aos “sete demônios” é uma parte do ritual conhecido como a “descida de Inanna” ou “a iniciação dos sete véus”, uma das cerimônias mais antigas e que era também praticada no templo de Mari-Anna-Ishtar. A unção de Yeshua/Jesus com o óleo é uma referência explicita ao ritual do casamento sagrado, assim como faziam as sacerdotisas antigas antes de se unirem ao rei. Madalena era vista como a noiva de Jesus, que ele chamava de ”A mulher que conhecia o todo”. O casamento sacro era um antigo rito de fertilidade e renovação da terra, muitas vezes seguido da morte do rei ou de um salvador que oferecia seu sangue ao povo e que renascia depois junto com a vegetação. No Evangelho de Marcos (14:8-9) Jesus prenunciou a sua própria morte quando sua cabeça foi ungida pela Madalena e ele se tornou “O ungido”’ ou Messias. Como símbolos de Madalena são mencionados o manto vermelho (ou às vezes verde, da renovação da terra), o jarro de alabastro (que passou a ser associado ao Santo Graal), o unguento de nardo, a pomba e o ovo vermelho (antigos símbolos dos ritos de fertilidade das deusas Astarte e Eostre).

 Em relação à permanência de Maria Madalena na França, existem afirmações históricas e literárias de que Madalena teria sido uma iniciada em um dos antigos cultos de Ísis e que a jovem Sara “a egípcia” era sua filha da união com Jesus nascida no Egito. Sara em hebraico significava ”princesa” e ela era “negra” simbolicamente ou seja “não reconhecida nas ruas“ atributo dos príncipes da linhagem de Davi (Lamentações 4:8). Após a crucificação (em torno do ano 42), Lázaro, suas irmãs Maria Madalena e Martha, junto com Maria Jacobé, Maria Salomé e a jovem Sara, foram colocados pelos soldados romanos num barco sem velas, nem remos, para assim perecerem no mar. Depois do barco ser levado pelos ventos, apesar da falta de equipamento e comida, a embarcação conseguiu resistir às tempestades e aportou numa praia no Sul da França num vilarejo conhecido atualmente como Saintes Maries-de-la-Mer. Segundo a lenda, cada um dos viajantes seguiu rumos diferentes; Maria Madalena depois de ensinar e curar inúmeras pessoas teria ido para Saint Baume, onde se refugiou em uma gruta no alto da montanha, de muito difícil acesso e lá passou o resto da sua vida, envolta apenas pelos seus longos cabelos e sendo alimentada duas vezes por dia pelo mana trazido pelos anjos. A gruta foi e continua sendo lugar de peregrinação apesar do árduo caminho, mas como também reis participavam das peregrinações, foi construído o ”chemin de rois”, percorrido a cavalo. A grande descoberta cristã teria sido em 1279, quando os supostos ossos de Maria Madalena foram encontrados perto de Saint Maximim. Um documento datado de 710 (que depois desapareceu), encontrado pelo conde Charles de Provence depois de um aviso num sonho, teria confirmado a autenticidade do achado. Charles gastou sua fortuna para construir a Basílica de Saint Maximim, onde é guardado o suposto crânio de Maria Madalena num relicário. Esta igreja era um ponto importante no culto dos cátaros (cristãos dissidentes que reverenciavam Madalena como esposa de Jesus e por isso foram considerados hereges e dizimados) e ainda é muito visitada atualmente, assim como outros lugares cátaros.

 O encanto que Maria Madalena provoca em tantos de nós hoje se deve ao fato de que ela é uma figura complexa e plenamente humana, uma mulher real que desfrutou dos prazeres da riqueza e do sexo e teve uma relação profunda e mística com o homem mais importante da literatura religiosa ocidental. Não importa se conhecermos com precisão histórica os pormenores de sua vida; são as lendas sobre Maria Madalena e sua relação com Jesus que produzem profunda impressão na consciência moderna, especialmente na das mulheres. Muitas delas, hoje, desiludidas e insatisfeitas com as Igrejas, podem começar a admitir para si próprias que espiritualmente todas anseiam por algo mais que a pureza virginal de Maria e a redenção dos pecados pela via crucis, podendo questionar sua fé, sem medo do ridículo ou da vergonha.

 O fenômeno do retorno de Maria Madalena e os movimentos espiritualistas centrados ao redor da sua figura devem ser visto como o despertar profundo na moderna consciência da ideia de que o princípio divino não pode mais ser separado de sua contraparte e polaridade feminina. Escritores, psicólogos e sacerdotes descrevem Maria Madalena como um arquétipo do sagrado feminino, que está cada vez mais em evidência entre cristãos, espiritualistas e grupos pagãos, sendo honrada em peregrinações para seus antigos locais sagrados, em rituais ou obras literárias. O “fenômeno de Madalena” pode ser definido como kairos, o termo grego que significa o momento oportuno, eternamente pleno e presente. Kairos, em oposição ao chronos ou tempo linear, denota o momento em que novas forças são consteladas para mudar a realidade e proporcionar a aparição de algo novo. Madalena, como representante da Deusa nos seus múltiplos aspectos, reúne em si a amante apaixonada, a consorte fiel e devotada, a guerreira independente, a parceira compassiva, a aprendiz e a mestra espiritual. Depois de ser suprimida, denegrida e perseguida ao longo de dois milênios, a Grande Deusa finalmente retorna em toda sua beleza, sabedoria e glória, na figura de Maria Madalena, que em suas mãos leva o Graal, que nos pode curar a todos. “Todas as mulheres fazem parte da linhagem sacra de Madalena; todas nós somos divinas, é o nosso direito de nascença. Chegou o tempo de retomar o nosso lugar de poder como mulheres belas, poderosas e brilhantes, portadoras do dom da vida, da chama sagrada e da sabedoria, para assim devolver o equilíbrio à humanidade”. (Susan Kehoe Jerkins)