Mirella Faur

A Senhora da Roda de Prata

“Tu, que perambulas por muitos lugares e és reverenciada com diferentes rituais, Tu, cuja luz suave clareia o caminho dos viajantes e nutre as sementes escondidas sob a terra, Tu, que controlas o caminho do Sol e até mesmo a intensidade dos raios, eu Te imploro, chamando todos os Teus nomes e todos os Teus aspectos, e Te invoco com todas as cerimônias que Te foram dedicadas, vem a mim e me traz repouso e paz.”

Apuleio, “o Asno Dourado”

Mirella Faur

Para a nossa mentalidade atual e baseada em valores solares, pode parecer estranha a afirmação do escritor romano Apuleio (século I) sobre o controle oferecido pela Lua na trajetória e intensidade dos raios de Sol.

No entanto, se voltarmos para o início da história da humanidade, podemos constatar a maior relevância simbólica e mitológica da Lua, bem como a antiguidade dos cultos lunares em relação aos valores e cultos solares. Na Caldeia, os astrólogos ignoravam o Sol e fundamentavam seus sistemas nos movimentos da Lua. Até hoje, na astrologia védica, o peso da interpretação recai sobre o signo lunar natal, os meses são denominados “Mansões Lunares” e caracterizados pela posição da lua cheia na respectiva mansão.

Os cultos lunares se originaram no Paleolítico e os primeiros calendários conhecidos foram os lunares, baseados no ciclo menstrual da mulher. O mais antigo calendário astrológico conhecido foi criado pelos babilônios e chamava-se “As casas da Lua”, estabelecido a partir do ciclo da lunação, com seus períodos mensais representados pelos signos zodiacais. A principal Deusa Lunar da Babilônia era Ishtar, cujo cinturão era enfeitado com representações e símbolos do zodíaco.

Inúmeros artefatos neolíticos talhados em pedra, chifre e osso, encontrados em grutas espalhadas por vários países na Europa e Ásia, têm inscrições agrupadas e séries alternadas de 28 a 30 traços, demonstrando o antigo conhecimento astronômico dos ciclos lunares. Atualmente, está sendo cada vez mais divulgado e utilizado o calendário lunar do povo maia, com base no ciclo das treze lunações que formam um ciclo solar.

Desde os mais remotos tempos a Lua foi reverenciada como a manifestação da Grande Mãe Universal, o aspecto feminino da Divindade, a fonte criadora e mantenedora da vida, cuja luz e bênção eram invocadas nos rituais de fertilidade, no plantio das sementes e no parto das crianças. As suas fases passaram a simbolizar o próprio ciclo da geração, nascimento, crescimento, mas também o amadurecimento, decadência e morte. As suas faces - clara e escura - foram consideradas como aspectos doadores da vida e destruidores da natureza, a Mãe sendo tanto Criadora como Ceifadora.

A Lua foi venerada com inúmeros nomes nas várias tradições e culturas antigas. Apesar desta diversidade, existe uma similitude em relação aos seus atributos de acordo com as suas fases. A Lua crescente representa a vitalidade da deusa jovem, o frescor da Donzela, o potencial do crescimento, o início das realizações. Tornando-se cheia, a Lua personifica o ventre grávido da Mãe, o florescimento, a abundância da natureza, a concretização das possibilidades. Ao minguar, a Lua assume o aspecto de Anciã, assinalando o fim da colheita, o declínio das energias, a sábia preparação para conhecer os mistérios da morte e do renascimento.

Dificilmente se encontra nas várias mitologias uma Deusa que sintetize a inteira gama do simbolismo lunar. Nos panteões grego e celta existem inúmeras Deusas Lunares com características específicas, relacionadas aos atributos das fases e representando os arquétipos da Donzela, da Mãe e da Anciã. Os povos celtas contavam o tempo pelas noites e seu calendário era lunar e não solar, como o dos gregos e romanos. Os seus astrólogos observavam a posição da Lua e sua progressão em relação às estrelas.

Uma deusa lunar celta pouquissimo conhecida e com um complexo simbolismo é a galesa Arianrhod, uma mulher linda e com pele muito alva, descrita como a “Senhora da Roda de Prata” por cuidar da roda estelar, cujo giro simbolizava o passar do tempo e a tecelagem do destino. Esta roda luminosa era a constelação estelar em forma de coroa chamada Corona Borealis (considerada pelos gregos como sendo a coroa da deusa Ariadne), cujo nome em galês era Caer Arianrhod, ou seja, “O castelo giratório de Arianrhod”. Era chamada também de “Roda com remos”, por representar o barco que levava os mortos para a Terra da Lua, nomeada Emania ou Magonia. Vivendo na longínqua terra encantada de Caer Sidi, cercada de sacerdotisas, Arianrhod era um arquétipo da antiga Deusa Mãe celta, regente do céu, das estrelas, da Lua, da fertilidade e do poder feminino, sendo a padroeira dos partos, do mar, da magia e da justiça. Ela personificava vários outros atributos por ser regente do tempo e do destino, Senhora da beleza, da Lua cheia e da reencarnação. Era cultuada no País de Gales como uma Deusa Tríplice (ela como Mãe, Blodeuwedd como virgem e Cerridwen como Anciã).

Arianrhod regia Caer Sidi, a “Torre do outro mundo”, o reino encantado onde ficava seu palácio Caer Arianrhod, onde os celtas acreditavam que as almas se recolhiam entre as suas encarnações e os poetas aprendiam sua arte. Depois de recolher os espíritos e levá-los na sua “Roda com remos” para Emania, Arianrhod seguia ao longo da “Roda das encarnações” e os conduzia para a sua próxima parada, iniciando-os no novo ciclo de vida em Caer Sidi.

Nos mitos lunares contava-se que Arianrhod se metamorfoseava numa grande coruja e com seus olhos penetrantes perscrutava a escuridão – da noite, do subconsciente humano e da alma. Ela se locomovia facilmente na noite e levava nas suas asas conforto, cura e aceitação para os doentes e moribundos. Arianrhod regia as iniciações, os ritos de passagem femininos (menarca, ciclos menstruais, parto, menopausa, morte, renascimento), a magia, a sabedoria oculta e a renovação, sua luz sendo refletida por inúmeras camadas de tempo, modelagem do destino e experiências. Seus símbolos eram o caldeirão (representando o poder feminino e atributo de outras deusas também) e a porca branca, indicando assim sua conexão com o mundo subterrâneo e o renascimento.

Arianrhod – semelhante à grega Ártemis – era independente, possuía uma grande força espiritual e por não precisar de nenhuma figura masculina, era considerada a “Deusa branca e virgem”. O conceito de “virgem” para os povos antigos indicava autossuficiência e independência, sem nenhuma relação com a integridade do hímen. Arianrhod vivia de maneira livre e selvagem, cercada apenas por mulheres e ocasionalmente tendo relações sexuais - nas noites de lua cheia - com os marinheiros que aportavam nas praias do seu longínquo e ermo habitat. De lá, Arianrhod descia na sua carruagem prateada até mergulhar nas ondas do mar e era reverenciada na noite de 11 de dezembro.

O mito de Arianrhod - registrado na coletânea de textos galeses Mabinogion (escritos entre os séculos XI e XIII) - é muito complexo, com elementos contraditórios e de difícil compreensão, denotando as deturpações feitas pelos monges e historiadores cristãos da interpretação das lendas da tradição oral dos bardos. As antigas verdades ficaram ocultas entre as linhas e prevaleceram os conceitos misóginos e patriarcais cristãos, que condenavam e perseguiam atitudes e valores especificamente femininos, considerando a liberdade sexual da mulher como um pecado e perigo para a pureza da alma cristã, que devia ser combatido e punido. Para impedir a continuação da antiga liberdade sexual pagã, os ritos sagrados das Tradições da Deusa foram declarados obscenos, licenciosos e demoníacos, devendo ser abolidos quaisquer referências a eles. Vários mitos de deusas descritos em Mabinogion (como o de Blodeuwedd, Branwen, Rhiannon) passaram pelos mesmos “retoques” e adaptações, que fizeram dos seus mitos histórias inverossímeis e confusas. O maior objetivo dos historiadores cristãos (na sua maioria monges) era ocultar os valores e verdades das culturas matriarcais e promover as regras, conceitos e imposições da ordem patriarcal.

Existe uma passagem inverossímil no mito de Arianrhod, que descreve de forma metafórica e pitoresca uma mescla de atributos dela como Donzela e Mãe Escura. Arianrhod era a filha mais poderosa da deusa galesa da terra Don e do deus da luz celeste Beli (que é pouco mencionado), irmã do herói e futuro mago Gwydion e sobrinha do rei mago Math. Este rei, para preservar sua magia e seu poder de soberano, tinha que repousar permanentemente seus pés no colo de uma virgem, uma medida mágica necessária para a sua sobrevivência e seu fortalecimento antes das batalhas. Gwydion, que era seu amigo e parceiro nas magias, intimou e enviou sua irmã Arianrhod ao rei Math para ser sua acompanhante, apesar da sua condição real e do seu poder pessoal, que foram ignorados. Assim como suas antecessoras, ela tinha que cumprir o seu dever de footholder e segurar os pés do rei no seu colo enquanto ele descansava. A condição essencial desse encargo era a virgindade da candidata; ao ser questionada acerca disso, Arianrhod confirmou que era virgem (mas no antigo sentido do termo, que indicava sua liberdade e poder pessoal). Ao ser testada pelo bastão magico de Math (sobre qual ela tinha que passar, uma clara alusão ao poder fálico do rei), Arianrhod, de repente deu à luz a um menino louro e bem formado – Dylan - que se arrastou para o mar, onde se transformou depois em um deus marinho e nunca mais foi visto. Enfurecida pela armadilha que a expôs perante a corte real, Arianrhod correu e na fuga deixou cair um pequeno objeto, que, antes que alguém visse o que era, Gwydion o pegou e enrolou em panos. Posteriormente, ele deu o “objeto” para Arianrhod, que descobriu ser outro menino ainda em estado embrionário e o rejeitou. Comovido com o infortúnio da criança, Gwydion decidiu cuidar do menino, o adotou e lhe deu a devida educação, ensinando-o a arte da magia. Outra suposição considera Gwydion o pai dele, como consequência de uma relação incestuosa com a irmã.

Ao ter revelada a sua gravidez e por se sentir ultrajada por ter parido na frente de todos enquanto considerada virgem, Arianrhod desapareceu na noite, mas antes amaldiçoou o filho para que “ele não tivesse jamais um nome, não pudesse usar armas e nem casar com uma mulher da raça existente na Terra, a não ser que ela concedesse tudo isso a ele”. Na cultura matriarcal celta, era a mãe que dava o nome e abençoava seu filho nestes ritos de passagem.

Quando o menino cresceu, Gwydion usou recursos mágicos e transformou a ambos em sapateiros; eles viajaram para o palácio de Arianrhod que tinha encomendado sapatos (outro detalhe pouco plausível para uma deusa lunar). Observando o menino caçando pássaros com estilingue, Arianrhod o elogiou pela destreza. Neste momento Gwydion revelou sua identidade e afirmou que Arianrhod tinha acabado de dar um nome ao seu filho, ou seja – Llew Llaw Gyffes “A brilhante e habilidosa mão”. O nome Llew Llaw Gyffes era o mesmo de um herói celta - Lugh, personificação de um antigo deus solar. Arianrhod ficou furiosa com a trapaça e jurou que o garoto jamais portaria armas ou tivesse uma mulher.

Com o passar do tempo Llew é treinado nas artes marciais e na arte poética dos bardos e se revela um aprendiz competente. Algum tempo depois, tio e sobrinho - disfarçados como viajantes - procuram abrigo no castelo da irmã e se oferecem para entreter a corte. No dia seguinte, Gwydion cria uma ilusão mágica de uma invasão inimiga e convence a irmã para intimar todos os homens a se armarem e lutarem. Ela concordou e quando começou a distribuir armas para seus súditos Gwydion sugeriu que ela desse armas também para o jovem desconhecido, que era forte e corajoso e podia lutar para defender o castelo. Novamente Arianrhod foi ludibriada e ao descobrir que não havia invasão inimiga nenhuma, já tinha quebrado a sua segunda proibição armando seu próprio filho. Para remover a última maldição, Gwydion pediu ajuda ao rei Math e juntos e por meios mágicos, criaram uma mulher feita de flores – Blodeuwedd – que foi destinada como esposa para Llew. Sendo vencida pela terceira vez, Arianrhod acabou concordando com o casamento do seu filho, que assim se libertou da maldição materna.

Arianrhod aparece neste mito como um arquétipo feminino pouco ético, que comete erros, renega e abandona seus filhos e até mesmo amaldiçoa o menos afortunado, sem jamais se desculpar pelo seu comportamento, agindo de acordo com seu verdadeiro ser e seu poder de soberana. Quando deu à luz, Arianrhod não assume sua maternidade, nem proclama seu direito de fazer escolhas e lidar com as consequências como uma soberana, mas se mostra enfraquecida, envergonhada e humilhada, renega seus filhos e foge para o seu castelo. Por não querer abrir mão da sua liberdade em benefício dos filhos, sua atitude pouco materna nos parece inadmissível e abominável.

Don, sua mãe, tinha escolhido seus parceiros e pais dos seus três filhos de acordo com a lei antiga, quando a rainha escolhia e demitia seus consortes, sem criar vínculos de casamento. Arianrhod pode ter seguido o exemplo materno, permitido pela lei matriarcal, que era de acordo com a sua maneira ”virgem” de viver, morando só no seu castelo e fazendo amor com marinheiros nas praias, nas noites de lua cheia (a metáfora da Lua mergulhando no mar). Uma explicação da atitude do seu irmão ao recomendá-la ao rei como sendo virgem, seria que Gwydion queria declarar a sua paternidade perante todos (o incesto entre herdeiros reais era permitido para garantir a sucessão). Outra hipótese era que a gravidez e o parto repentino de Arianrhod não eram fatos reais, mas miragens criadas pela magia conjunta do irmão e do tio. O objetivo era expor Arianrhod como uma mulher pouco confiável na linhagem do trono e fazê-la ir embora, deixando a sucessão para Gwydion. Por ela ser a primogênita e reconhecidamente poderosa, Arianrhod era uma ameaça para o poder masculino e por isso devia ser ridicularizada e banida, reforçando assim a hierarquia real e divina masculina.

No conceito da cultura matriarcal, a virgindade não era ligada à integridade física, mas ao estado de espírito e ao comportamento, virgem sendo a mulher que era livre e completa em si, sem depender de um homem. O mito não conta sobre a vida posterior de Arianrhod, nem sobre seus eventuais remorsos e arrependimentos. Seu irmão e filho desaparecem da história e ela passa a viver só no seu castelo, fiel a si mesma, fazendo suas escolhas e vivendo a verdade da sua própria luz lunar mutante. Alguns estudiosos interpretam este mito como a representação da mudança do direito materno para o paterno, enquanto outros relegam o mito de Arianrhod à história de uma simples heroína celta, sem atributos divinos.

Olhando sob as retificações e distorções cristãs, podemos perceber e resgatar as antigas verdades das sociedades centradas no culto das Deusas e descartar a sua usurpação e difamação pela nova ordem dos conquistadores patriarcais. A figura luminosa de Arianrhod resistiu à deturpação milenar e às distorções do seu simbolismo. Nas noites de lua cheia, ela pode ser vista sentada no seu trono cósmico, coroada pela magnificência da Corona Borealis, continuando a girar a sua roda prateada e tecer com seus fios o futuro da humanidade.

Comprova-se assim - por metáforas e intrincados simbolismos celtas - a antiguidade das divindades e cultos lunares, a Lua representando as tradições matrifocais das Deusas, que foram substituídos pelos mitos e cultos solares posteriores.

Maria Madalena - Uma Grande Mulher, nem Santa, nem Pecadora

Não seja ignorante a meu respeito,
Pois eu sou a primeira e a última.
Eu sou a estimada e a rejeitada.
Eu sou a prostituta e a sagrada.
Eu sou a esposa e a virgem.
Eu sou a mãe e a filha.
Eu sou aquela cujo casamento é grandioso,
e eu não tomei um marido.
Eu sou a parteira e aquela que não dá à luz,
Eu sou o consolo das minhas dores do parto”...

Um trecho do Poema Gnóstico da biblioteca de Nag Hammadi “O trovão, a mente perfeita”.

(um extenso e enigmático monólogo no qual o Salvador discorre sobre uma série de afirmações paradoxais sobre a natureza feminina da divindade).

Mirella Faur

 Não há personagem histórico que tenha sofrido tanto o peso das projeções moralistas da sociedade patriarcal do que Maria Madalena. Vista como pecadora e prostituta, ela passou a representar a sombra do feminino, seu lado negativo, em oposição à luz da Virgem Maria, pura e sem pecado original. Esta sombra afetou profundamente o psiquismo da mulher, provocou uma cisão em sua personalidade e causou toda sorte de repressão, perseguição e culpa feminina em relação à sexualidade. Ao longo de milênios, preconceitos disfarçados em religião foram transformados em acusações, maledicência, perseguição e violência, deturpando as verdades originais.

 Em 591 o papa Gregório I iniciou uma série de sermões sobre Maria Madalena em que a considerou a “pecadora arrependida” salva pelo encontro com Jesus, ignorando totalmente o seu papel de líder religiosa e detentora de ampla sabedoria. Os primeiros padres da Igreja excluíram das escrituras sagradas o registro da vida de uma mulher que manifestava uma sensualidade sem pudores e, ao mesmo tempo, uma intensa espiritualidade. Segundo os Evangelhos, sua devoção incondicional a Jesus despertou ciúmes e inveja entre os discípulos. Madalena era uma mulher apaixonada, que se entregava inteira em tudo que fazia, tanto que se tornou a discípula dileta, a companheira, filha e mãe de Jesus. Madalena vivenciava a dimensão espiritual, corpo e alma integrados, como sabemos hoje dos depoimentos de místicos sobre o êxtase espiritual. A sua capacidade de mergulhar naquele estado que hoje conhecemos como “expansão da consciência”, permitiu que ela visse Jesus ressuscitado. Os padres cristãos negavam a habilidade feminina em conciliar os opostos, viver a dimensão material junto com a espiritual, integrar corpo, mente e coração.

 Há alguns anos vêm sendo feitos estudos e pesquisas para resgatar a verdadeira história de Madalena, e nesse trabalho também está sendo resgatado o inconsciente do cristianismo, fragmentos de uma memória recalcada pelos primeiros patriarcas da Igreja. Na verdade, desde que apareceu a noção de pecado, o que se tenta exorcizar é o sexo, em oposição ao espírito. Os inúmeros ensinamentos cristãos sobre amor incondicional e perdão não conseguiram aplacar o preconceito, o horror feminae dos homens, o medo irracional do poder feminino e a rejeição contra tudo que lembrava as antigas tradições pagãs da humanidade que reconheciam e reverenciavam a sacralidade feminina.

 Quando os quatro evangelhos foram selecionados (entre centenas de outros escritos), por volta do ano 200 d.C. surgiu a distinção entre os evangelhos oficiais canônicos e os “apócrifos”, aqueles que não foram considerados por não concordarem com os cânones do cristianismo incipiente. Prevaleceram nessa seleção os preconceitos patriarcais, porque nos documentos escolhidos não se descrevem as ações e contribuições de mulheres que viviam nas primeiras comunidades cristãs e que, junto com seus companheiros, foram igualmente perseguidas e torturadas pelos romanos. Os Evangelhos Gnósticos, rapidamente excluídos como heréticos pelos padres da Igreja, favoreciam o dogma que maximizasse o status da Virgem Maria (apesar dela ser raramente mencionada nos quatro Evangelhos) e minimizasse o papel de Madalena, principal testemunha da Ressurreição, e também o papel da mulher em geral na Igreja.

 Só recentemente apareceu uma comprovação dos julgamentos errados registrados nas Escrituras sobre Madalena. Desde o ano de 1896 encontra-se, no Museu Nacional de Berlim, um texto escrito na língua copta em 150 d.C. e que foi encontrado no século IV num antiquário da cidade de Achmin, no Egito. Outros fragmentos em grego foram achados no século XX somando ao todo oito rolos de papiros. Neles são narrados episódios da vida de Jesus, contados por uma mulher de nome Maria de Magdala, e foi traduzido como “O Evangelho de Maria Madalena”, fazendo parte dos textos fundadores do cristianismo. O teólogo e escritor Jean-Yves Leloup vê o surgimento desse texto, considerado “apócrifo” pela Igreja, como “a emergência da parte recalcada do cristianismo, aquela que foi negada, escondida, ocultada ao longo dos tempos. E que, ao ser resgatado, mostrou-se como um caminho mais humanizado e, sobretudo, feminino, de reconexão com o divino” (O Evangelho de Maria).

 Ao tornar Madalena, uma mulher tão íntima de Jesus, na “prostituta penitente” os padres acabaram por estigmatizá-la, chamando-a, por associação, de Segunda Eva, “o portal do Demônio” (Tertuliano). Hoje podemos ver como, ao excluir as mulheres, antigos fanáticos como Orígenes, Agostinho, João Crisóstomo e Jerônimo, em seu pavor da sexualidade, criaram uma cisão psíquica infeliz na alma ocidental. Maria Madalena não é apenas um personagem do passado, meio mítica, meio histórica. Sua figura está presente mais que nunca, nesse novo milênio, quando mulheres em todo o mundo buscam uma representação do divino feminino para orientar sua sexualidade. Das brumas do tempo ela ressurge, envolta em seu manto vermelho, segurando o cálice sagrado e ativando o arquétipo reprimido da nossa plena expressão como mulheres.

 Segundo os Evangelhos, Jesus teria livrado a mulher “pecadora” dos sete demônios e, a partir daí, ela se tornou sua fiel seguidora. Relatos históricos contam também que ele teria desafiado os homens que queriam apedrejar a mulher adúltera, dizendo: ...que atire a primeira pedra quem nunca pecou....Os sete demônios podem simbolizar os sete chakras, ou centros de energia vital, cada um com seus desejos e apegos respectivos, que muitas vezes podem dominar e escravizar o ser humano. Só quando a consciência os domina eles são transcendidos e se tornam nossos servos fieis como um caminho da energia vital, desde o nível sexual até sua manifestação nos planos mais sutis. Quando Jesus exorciza os “sete demônios” da Madalena dos Evangelhos, algumas pessoas veem nisso uma referência secreta ao ritual esotérico de purificação dos sete chakras do corpo energético. Pode também ser uma referência aos ”Sete Portais” do mito sumério da “descida de Innana” ao mundo subterrâneo.

 A figura de Maria Madalena foi submetida na tradição cristã a uma retaliação simbólica, sem respeitar o seu verdadeiro ser, de tal maneira, que em lugar da sua identidade ela passou a simbolizar o pecado sexual, que não se devia cometer. Ao quebrar o paradigma da estrutura patriarcal, Maria Madalena e Jesus iriam abrir caminho para outras mulheres. Porém, com o roubo de sua identidade e a difamação milenar, as mulheres foram dominadas ao longo das gerações. O medo e a ignorância promoveram no interior de homens e mulheres, a separação: do masculino e feminino, bem e mal, virtude e pecado, luz e sombra, sexo e espírito – e assim fragmentada, nossa humanidade adoeceu. Para restaurar a saúde humana, individual e coletiva precisamos reconciliar os apelos da nossa sexualidade, com o anseio insaciável de nossa alma.

 As primeiras e mais antigas fontes que citam o nome de Maria Madalena na tradição religiosa do cristianismo são os Evangelhos Canônicos, escritos pelos quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João, no século I de nossa era. Esses primeiros evangelhos foram selecionados entre muitos outros pelo bispo de Lyon, Irineu, sendo os restantes julgados “apócrifos ou gnósticos”, de pouco valor. A primeira referência a uma mulher chamada Madalena encontramos em Marcos: “E ali também estavam algumas mulheres, entre as quais Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé” (Marcos 15:40). Mais adiante, ele afirma que a unção do corpo morto de Jesus foi realizado por essas mesmas mulheres. Também Felipe menciona em seu Evangelho Gnóstico escrito no final do século II, que “Havia três mulheres que andavam com o Senhor: Maria, sua mãe, a irmã de sua mãe e Miriam Madalena, conhecida como a sua companheira. Para ele, Miriam era uma irmã, uma mãe e uma esposa”.

 Nos primeiros anos do cristianismo Maria Madalena teve um realce significativo entre os homens e mulheres que seguiam Jesus, sua liderança sendo reconhecida como mostram os relatos dos Evangelhos da paixão e ressurreição de Cristo. As informações disponíveis são poucas e se referem ao evento da crucificação e à mensagem de Jesus. Entretanto, a partir dos dados descritos nos Evangelhos Sinóticos e nos Apócrifos Gnósticos foi possível sintetizar-se sua biografia. Os textos gnósticos recentemente descobertos (“A Biblioteca de Nag Hammadi”), que antecedem os manuscritos bíblicos com 200 anos, deixam mais claro do que nunca que Maria Madalena teve um papel proeminente no círculo dos primeiros apóstolos, como a principal confidente de Jesus, chamada de seu koinomos, palavra grega que tecnicamente significa “consorte” ou “companheira”, sugerindo uma relação sexual. E, da mesma forma que no rejeitado texto gnóstico Pistis Sophia, ela se destaca como a principal intérprete da revelação de Jesus do cosmos da luz como “aquela que entendeu o Todo”. Aqui, como em outros casos na figura de Santa Sofia – o feminino transcendente de muitos sistemas gnósticos – ela representa o papel da Sabedoria Sagrada no Velho Testamento.

 Hoje se sabe que “Miriam de Magdala”, que significa em aramaico a torre do rebanho, é um título dado a Maria, chamada de Madalena. De família rica, ela e outras mulheres mantinham o trabalho itinerante de Jesus. Mas só em 1969 a Igreja Católica Romana corrigiu o seu erro milenar, reconhecendo que nunca houve qualquer evidência de que ela tenha sido prostituta. Em todas as representações de Maria Madalena feitas por pintores, ela é sempre mostrada portando nas mãos uma jarra de alabastro com unguento. Esse vaso é uma referência à unção de Jesus Cristo com a essência perfumada de nardo, que ela trazia consigo. Primeiramente, ela unge os pés do Mestre durante uma ceia após Jesus ter ressuscitado o irmão dela, Lázaro; e, finalmente, após sua crucificação no Gólgota. Essas passagens do Evangelho lembram um refrão dos Cânticos de Salomão: “Que belos são os teus amores, irmã minha! Ó minha esposa! Quanto melhor... é o aroma dos teus bálsamos do que o de todas as especiarias!”.

 Estudos metafísicos atuais revelam que, possivelmente, esta unção não fosse apenas uma devoção espontânea de uma mulher, mas um ato carregado de significado simbólico, como na cerimônia nupcial do hierogamos, o ritual do casamento sagrado que unia uma sacerdotisa da Deusa ao rei. Durante milênios, essas celebrações ritualísticas ocorreram por toda a região e faziam parte das tradições religiosas do Oriente Médio. O significado da unção com o óleo perfumado de nardo (usado também em cerimônias tântricas da Índia), feita amorosamente por Maria Madalena em Jesus durante a ceia na casa de Simão, sugere que tenha sido uma reminiscência dos antigos rituais do casamento sagrado, repetindo os elementos litúrgicos dos Cânticos de Salomão. Esta interpretação de uma união conjugal entre Jesus e Maria Madalena, reconhecida por Hipólito e Orígenes e renegada pela Igreja de Pedro, parece bastante lógica e coerente com a inclusão do feminino na vida social e religiosa, conforme Jesus pregava, além de reinstalar o antigo modelo de parceria no âmago da história cristã. No contexto da cultura grega – língua na qual os evangelhos foram escritos – a celebração do casamento sagrado era um ritual de consagração em homenagem à força da vida, à abundância generosa da terra e aos ciclos de vida, morte e renascimento, compartilhados pela família humana. Na história de Cristo é visível a repetição do ciclo de vida, morte e renascimento que era celebrado nas cerimônias das tradições antigas.

 Outro símbolo presente nas telas de pintores que retrataram Maria Madalena é uma torre, que é o significado de Magdal-eder, “a torre do rebanho”; numa passagem profética de Miquéias, ele fala do sofrimento da noiva destituída, profanada e depois, exilada, fazendo uma associação de Madalena com a Filha de Sião. Com base no significado da palavra aramaica magdala, estudiosos atribuíram a Maria o epíteto de Madalena, significando a “Grande, a Magnífica, a Torre, ou a Fortaleza do rebanho”. Essa e muitas outras evidências foram retiradas da versão ortodoxa da história do cristianismo, mas a sagrada união foi a pedra fundamental que os construtores rejeitaram. O mundo dominado por Roma no século I e a continuação dos conceitos patriarcais pelos apóstolos cristãos não estavam prontos para adotar o evangelho da igualdade entre os sexos e da inclusão da mulher na igreja, como ainda não está.

 O Evangelho de Maria é um texto do início do século II, encontrado em Nag Hammadi e datado por volta do ano 150 d.C.; nele encontram-se referências sobre Maria Madalena como a apóstola que melhor assimilou os ensinamentos de Jesus e que dialogava teologicamente com os apóstolos. Ele ilustra o seu papel de “apóstola dos apóstolos”, sendo retratada como profetisa, mestra e apoio para os outros discípulos. Esse evangelho foi escrito possivelmente pela comunidade que se formou em torno de Maria Madalena, e ela, por ter recebido um ensinamento especial e uma consideração maior de Jesus, atuava como líder entre os discípulos após a sua ressurreição. Enquanto os outros discípulos choravam e temiam por suas vidas caso saíssem para evangelizar, ela os confortava e animava para que abrissem seus corações para compreender e assimilar as palavras de Jesus. Madalena manteve o seu equilíbrio e a fé fortalecida pela visão que teve, por isso Jesus a louvou por não ter medo ao vê-lo. Maria Madalena foi capaz de ensinar aos outros e cuidar deles por ter alcançado a maturidade espiritual e a intuição profética, contrapondo sua força aos medos, ignorância e críticas. Os discípulos sentiam ciúmes, tratando-a com desprezo e inveja e questionando suas palavras; eles não aceitavam o fato de Jesus amá-la mais que a eles, pois “a beijava na boca, descansava sua cabeça no seu peito e a elogiava pela sua sabedoria”, preferência que a habilitou a agir como uma líder depois da crucificação. O Evangelho de Maria Madalena fala da revelação especial que Jesus fez a ela na visão após a sua ressurreição, com um simbolismo avançado de experiência visionária e descrevendo o itinerário da alma após a morte, que, ao se libertar das amarras da matéria, alcançava a comunhão com a espiritualidade pura.

 Maria Madalena veio de Magdala, cidade que tinha uma localização estratégica, junto ao mar da Galileia, numa região próspera, que muito sofreu com a ocupação romana e com as revoltas que esta causava.  Era um centro de comércio que fazia parte de uma rota internacional, onde pessoas de todas as religiões e costumes se encontravam no mercado, onde se comercializava peixe salgado, tecidos tingidos e produtos agrícolas.  Magdala não é mencionada no Novo Testamento apesar de ter sido o lugar para onde Jesus e seus discípulos se dirigiram depois de alimentarem quatro mil pessoas com sete pães e alguns peixes. Normalmente as mulheres nos evangelhos são lembradas como mãe, mulher e filha de alguém, um costume da sociedade patriarcal. Entretanto, Madalena não pertencia a nenhum homem, não se sabe se ela era uma mulher jovem ou solteira, viúva ou se preferiu ficar solteira como algumas mulheres influenciadas pelo helenismo, que optavam pela liberdade. Tudo indica que possuía alguma riqueza e após tornar-se a discípula de Jesus o acompanhava junto com os outros discípulos.  No entanto, a sua história verdadeira teria sido mais rebuscada: acredita-se que ela era uma princesa da Casa de Bethânia, sacerdotisa do templo de Ísis e que ao casar-se com um descendente da linha de Davi- como Jesus - cumpria uma antiga profecia. Como sacerdotisa da Deusa ela fundiu seus conhecimentos místicos com os de Jesus.

 O Evangelho de Lucas é o único que relata a presença de Maria Madalena desde o início do ministério de Jesus na Galileia. Ela não acompanhava Jesus ocasionalmente, mas fazia parte do seu dia-a-dia e do grupo itinerante e estava no mesmo nível que os doze apóstolos. Ainda que as informações sobre ela sejam escassas, comparadas a outros personagens bíblicos, seu nome aparece mais vezes que qualquer outra mulher no Novo Testamento e, na maioria delas em primeiro lugar. Somente nos século II e III que a igreja começou a excluir as mulheres do oficio de ensinar e pregar. É importante lembrar que os evangelhos foram escritos por homens inseridos numa estrutura eclesial onde o poder pertencia a eles; os escritos registraram fatos guardados pela sua memória e têm uma diferença temporal de no mínimo trinta anos, a maior parte deles sendo escritos no final do primeiro século. Pesquisas recentes confirmam que é pouco provável que algum dos autores do Novo Testamento tenham conhecido - de fato -Jesus; os relatos bíblicos de Maria, a mãe e de Madalena datam de 50 anos após a morte de Jesus. Além disso, é evidente que a Bíblia atual – que foi compilada no século IV - passou por inúmeras correções, adições e traduções ao longo dos séculos, resultando cópias de cópias.

 O relato da ressurreição no Evangelho de Marcos é o que dá mais importância a Madalena. Ela assistiu a crucificação, preparou os aromas e o bálsamo para ungir o corpo do mestre e testemunhou a ressurreição, foi a portadora da notícia de que Jesus havia ressuscitado e a primeira com a missão de proclamar a mensagem de Cristo. Ela tinha ido ao sepulcro de madrugada e quando encontrou a pedra da entrada revirada viu dois anjos e depois o próprio Jesus, que conversou com ela e lhe pediu para avisar aos outros discípulos. Desta forma, ela se tornou a figura principal do relato, pois estava sozinha, chorando ao pé do túmulo; não foi Pedro, nem Paulo que tiveram esta graça.  Quando ela levou a notícia aos apóstolos de que Jesus estava vivo após sua morte na cruz, eles duvidaram... será que podemos confiar numa mulher?  André a questionou e insinuou que seus ensinamentos eram estranhos, mas Pedro foi além, e perguntou se o Salvador preferira as mulheres aos seus discípulos. Pedro revelava um ciúme doentio, pois estava obcecado com a sua perda de prestígio se fosse instruído por uma mulher e por isso não queria aprender seus ensinamentos. Quando, mais tarde, ela se apresentava e falava, a multidão era arrebatada por suas palavras, como ocorreu em Marselha. Mesmo o mais brilhante dos discípulos do sexo masculino, segundo nos diz o Evangelho de Felipe, silenciava perante sua exposição apaixonada. Somente o teimoso, invejoso e misógino  Pedro negava o profundo conhecimento de Madalena.

 Mesmo sendo Maria Madalena conhecida no imaginário e na tradição ocidental popular como a prostituta arrependida, a adúltera que Jesus salvou das mãos dos homens que queriam apedrejá-la e a pecadora cujas lágrimas lavaram os pés de Jesus em preparação para sua sepultura não há no Novo Testamento ou na literatura cristã primitiva registros ou indícios que comprovem as acusações sobre a sua moral. Lucas afirmava que a presença de mulheres seguindo Jesus era fundamental para o grupo, pois por possuírem recursos próprios elas doavam seus bens e rendas para manter Jesus e os discípulos. Não há nesses textos indicações de que Cristo considerava a contribuição das mulheres inferior à dos discípulos; ele não se apegava às convenções de sua época, mas tinha o desejo de mudar as tradições sociais e isso era expresso no tratamento que dava as mulheres. O nome de Maria Madalena aparece em primeiro lugar nos escritos primitivos e nos sinóticos comprova-se que as pessoas recorriam a Maria Madalena como a Pedro e Paulo. Desta forma evidencia-se que sua importância ia além da que transparece nos Evangelhos Canônicos.

 A ausência de seu nome nos textos assume um significado diferente e surge a pergunta: qual seria o motivo dessa ausência? Alguns autores consideram que esta omissão não foi um descuido, mas uma estratégia proposital para excluir as mulheres de posições de liderança apostólica. No curso da história Maria Madalena sempre desfrutou de grande popularidade, mas o interesse estava muito mais na condenação da sua sexualidade e dos seus pecados do que em seus testemunhos. O Evangelho de Maria Madalena traz o tema da liderança da mulher ao mencionar a controvérsia entre os discípulos a respeito do exercício da liderança. Eram debatidas várias questões, inclusive a importância da experiência visionária, a legitimidade da liderança das mulheres e o sentido do ensinamento de Jesus. Porém, se fosse ensinado que a autoridade devia basear-se em maturidade espiritual e não em distinção de gênero, abria-se a possibilidade de um espaço onde a mulher e o homem poderiam exercer a sua liderança que visasse ensinar, pregar, conduzir e exercer a compaixão pelos outros.

 O livro Código Da Vinci, de Dan Brown, alcançou sucesso internacional e uma impressionante audiência, com sua história brilhantemente tecida em torno de sociedades secretas, simbolismo esotérico e lendas do Santo Graal. Prevalece a tese, antes herética, de que Maria Madalena fora consorte e parceira sexual de Jesus, e de que sua descendência se tornara uma linhagem sanguínea secreta, estendendo-se da Idade Média aos tempos modernos. A maior parte das polêmicas ideias sobre a relação de Jesus com Maria Madalena e sobre o Sangreal foi usada como um código para a linhagem sanguínea sagrada. Uma das razões para a atual popularidade de Madalena é a expansão do conceito inovador sobre a possível atuação religiosa da mulher, não mais restrita a intelectuais da Igreja, mas que alcançaria também as mulheres comuns, sem ser restrita apenas os homens. Assim, milhões de mulheres passaram a questionar a misoginia e o puritanismo de uma Igreja patriarcal que, há muito, tem marginalizado Madalena ou a transformado em bode expiatório, em função de sua flagrante sexualidade. Graças a muitas informações genuínas que Dan Brown coletou (ao lado de outros autores como Margaret Starbird em The Woman with the Alabaster Jar e The Goddess in the Gospels, Elisabeth Clare Prophet em Mary Magadelene and the Divine Feminine), a figura poderosa dessa mulher enigmática está outra vez tornando-se viva na imaginação do nosso tempo.

 De objeto de piedade ou desprezo, Madalena tem se transformado numa heroína feminista celebrada, um novo modelo para a mulher independente e apaixonada. Aos poucos, historiadores modernos da Igreja estão reconhecendo que o rótulo de “prostituta arrependida” foi usado como uma tática difamatória e uma interpretação distorcida dos Evangelhos. No entanto, para os puritanos e patriarcas que dominaram o Cristianismo, a “mulher escarlate”, que esteve tão perto do Salvador, é sempre motivo de vergonha e constrangimento.  A causa está na perturbação profunda e patológica dos padres da Igreja Cristã antiga pela sexualidade das mulheres, pois para eles, sexo era o mais aterrador dos pecados, resultante direto da transgressão de Eva no Jardim do Éden. Foi a partir dessa paranoia em relação aos desejos carnais que surgiu o mito doutrinário de Maria, a Mãe milagrosamente casta e virgem. Pelo poder do Nascimento Virginal e de uma Igreja de sacerdotes celibatários e freiras virgens, esperava-se reverter o pecado original de Eva e fugir das tentações do Demônio no mundo altamente licencioso da Roma Antiga. O resultado tem sido uma continuada recusa em relação a toda manifestação do feminino conectado com a religião, uma obsessão com o comportamento sexual e o controle da concepção e a secular misoginia nas Igrejas, as quais não se cansam de denegrir, diminuir e inferiorizar as mulheres. Apesar da liberação sexual e da ordenação atual de mulheres, essa idiossincrasia está longe de ser resolvida, mas o interesse renovado e o retorno da popularidade de Madalena representa - pelo menos – a esperança de uma solução possível para que a Igreja Católica mude a sua atitude medieval em relação ao sexo e às mulheres.
 O Surgimento do Feminino Divino constitui uma reação à negação milenar da mulher, existe atualmente por toda parte uma enorme ânsia pelo sagrado feminino, permeando a sociedade ocidental e em vias de mudar de vez e para sempre os fundamentos patriarcais patológicos cristãos. Mulheres de todo o mundo, anseiam por readquirir sua verdadeira dignidade e serem reconhecidas e aceitas como seres espirituais, passionais e criativos, iguais aos homens e não submetidas a eles. E a imagem que pode lhes servir como estandarte é Maria Madalena, a representação da Deusa ignorada e perdida do cristianismo. Maria Madalena foi uma mulher que desejou ardentemente, com todos os seus sentidos, o homem e o Deus. Acima de tudo, ela demonstrou ser plenamente humana, integrando dentro de si o poder assertivo de uma vontade forte e, ao mesmo tempo, um anseio feminino intenso pela transcendência, um modelo psíquico do feminino, que pode nos inspirar a todos, homens e mulheres, no resgate de nossa inteireza humana.

 Existem evidências ocultas nos Evangelhos que revelam a posição de Maria Madalena como sacerdotisa da Deusa. Seu nome Maria de Magdala aponta para o templo tríplice das deusas Mari-Anna-Ishtar existente em Magdala, também conhecida como a “aldeia das pombas”, onde elas eram criadas para os templos das deusas. A alegação que Madalena era prostituta pode ser uma referência ao título de hieródulas dado às sacerdotisas da Deusa e que foi deturpado depois para “prostitutas sagradas” e finalmente destituído da referência aos ritos sexuais sagrados. A menção aos “sete demônios” é uma parte do ritual conhecido como a “descida de Inanna” ou “a iniciação dos sete véus”, uma das cerimônias mais antigas e que era também praticada no templo de Mari-Anna-Ishtar. A unção de Yeshua/Jesus com o óleo é uma referência explicita ao ritual do casamento sagrado, assim como faziam as sacerdotisas antigas antes de se unirem ao rei. Madalena era vista como a noiva de Jesus, que ele chamava de ”A mulher que conhecia o todo”. O casamento sacro era um antigo rito de fertilidade e renovação da terra, muitas vezes seguido da morte do rei ou de um salvador que oferecia seu sangue ao povo e que renascia depois junto com a vegetação. No Evangelho de Marcos (14:8-9) Jesus prenunciou a sua própria morte quando sua cabeça foi ungida pela Madalena e ele se tornou “O ungido”’ ou Messias. Como símbolos de Madalena são mencionados o manto vermelho (ou às vezes verde, da renovação da terra), o jarro de alabastro (que passou a ser associado ao Santo Graal), o unguento de nardo, a pomba e o ovo vermelho (antigos símbolos dos ritos de fertilidade das deusas Astarte e Eostre).

 Em relação à permanência de Maria Madalena na França, existem afirmações históricas e literárias de que Madalena teria sido uma iniciada em um dos antigos cultos de Ísis e que a jovem Sara “a egípcia” era sua filha da união com Jesus nascida no Egito. Sara em hebraico significava ”princesa” e ela era “negra” simbolicamente ou seja “não reconhecida nas ruas“ atributo dos príncipes da linhagem de Davi (Lamentações 4:8). Após a crucificação (em torno do ano 42), Lázaro, suas irmãs Maria Madalena e Martha, junto com Maria Jacobé, Maria Salomé e a jovem Sara, foram colocados pelos soldados romanos num barco sem velas, nem remos, para assim perecerem no mar. Depois do barco ser levado pelos ventos, apesar da falta de equipamento e comida, a embarcação conseguiu resistir às tempestades e aportou numa praia no Sul da França num vilarejo conhecido atualmente como Saintes Maries-de-la-Mer. Segundo a lenda, cada um dos viajantes seguiu rumos diferentes; Maria Madalena depois de ensinar e curar inúmeras pessoas teria ido para Saint Baume, onde se refugiou em uma gruta no alto da montanha, de muito difícil acesso e lá passou o resto da sua vida, envolta apenas pelos seus longos cabelos e sendo alimentada duas vezes por dia pelo mana trazido pelos anjos. A gruta foi e continua sendo lugar de peregrinação apesar do árduo caminho, mas como também reis participavam das peregrinações, foi construído o ”chemin de rois”, percorrido a cavalo. A grande descoberta cristã teria sido em 1279, quando os supostos ossos de Maria Madalena foram encontrados perto de Saint Maximim. Um documento datado de 710 (que depois desapareceu), encontrado pelo conde Charles de Provence depois de um aviso num sonho, teria confirmado a autenticidade do achado. Charles gastou sua fortuna para construir a Basílica de Saint Maximim, onde é guardado o suposto crânio de Maria Madalena num relicário. Esta igreja era um ponto importante no culto dos cátaros (cristãos dissidentes que reverenciavam Madalena como esposa de Jesus e por isso foram considerados hereges e dizimados) e ainda é muito visitada atualmente, assim como outros lugares cátaros.

 O encanto que Maria Madalena provoca em tantos de nós hoje se deve ao fato de que ela é uma figura complexa e plenamente humana, uma mulher real que desfrutou dos prazeres da riqueza e do sexo e teve uma relação profunda e mística com o homem mais importante da literatura religiosa ocidental. Não importa se conhecermos com precisão histórica os pormenores de sua vida; são as lendas sobre Maria Madalena e sua relação com Jesus que produzem profunda impressão na consciência moderna, especialmente na das mulheres. Muitas delas, hoje, desiludidas e insatisfeitas com as Igrejas, podem começar a admitir para si próprias que espiritualmente todas anseiam por algo mais que a pureza virginal de Maria e a redenção dos pecados pela via crucis, podendo questionar sua fé, sem medo do ridículo ou da vergonha.

 O fenômeno do retorno de Maria Madalena e os movimentos espiritualistas centrados ao redor da sua figura devem ser visto como o despertar profundo na moderna consciência da ideia de que o princípio divino não pode mais ser separado de sua contraparte e polaridade feminina. Escritores, psicólogos e sacerdotes descrevem Maria Madalena como um arquétipo do sagrado feminino, que está cada vez mais em evidência entre cristãos, espiritualistas e grupos pagãos, sendo honrada em peregrinações para seus antigos locais sagrados, em rituais ou obras literárias. O “fenômeno de Madalena” pode ser definido como kairos, o termo grego que significa o momento oportuno, eternamente pleno e presente. Kairos, em oposição ao chronos ou tempo linear, denota o momento em que novas forças são consteladas para mudar a realidade e proporcionar a aparição de algo novo. Madalena, como representante da Deusa nos seus múltiplos aspectos, reúne em si a amante apaixonada, a consorte fiel e devotada, a guerreira independente, a parceira compassiva, a aprendiz e a mestra espiritual. Depois de ser suprimida, denegrida e perseguida ao longo de dois milênios, a Grande Deusa finalmente retorna em toda sua beleza, sabedoria e glória, na figura de Maria Madalena, que em suas mãos leva o Graal, que nos pode curar a todos. “Todas as mulheres fazem parte da linhagem sacra de Madalena; todas nós somos divinas, é o nosso direito de nascença. Chegou o tempo de retomar o nosso lugar de poder como mulheres belas, poderosas e brilhantes, portadoras do dom da vida, da chama sagrada e da sabedoria, para assim devolver o equilíbrio à humanidade”. (Susan Kehoe Jerkins)

Aine, Deusa Solar Irlandesa, Rainha do Povo das Fadas

Mirella Faur

   “O povo das fadas” (chamado em gaélico de Sidhe), conhecido das lendas e mitos celtas é remanescente dos primitivos povos pré-celtas, que habitavam as Ilhas Britânicas desde a Idade de Bronze. Eles eram descendentes dos Tuatha de Danann, o “Povo da deusa Danu”, misteriosos seres míticos de natureza sutil, que conquistaram a Irlanda após vencerem os primeiros colonizadores- Fir Bolg, e que depois foram vencidos pelos Milesianos. Com a mudança das crenças religiosas e espirituais, os Tuatha de Danann não mais recebiam a sustentação da sua egrégora pelo reconhecimento e a gratidão dos seres humanos perante os seus dons e se afastaram cada vez mais da dimensão material, tecendo um véu de invisibilidade ao redor do seu mundo. Para se protegerem da violência das guerras - sendo eles seres pacíficos - se retiraram para outra dimensão, sutil, a ilha mágica Tyr na n’Og, “A terra debaixo das águas”, situada no Oeste da Irlanda e invisível aos homens. Uma parte deles se refugiou nas montanhas, colinas, florestas e grutas e as repartiu entre si, sendo conhecidos como “O velho povo, Os bons vizinhos, O povo das colinas”, Fairy people ou Fay e suas moradas (barrows) nas colinas ou elevações de terra chamadas de side ou sidhe (pronuncia-se “chee”), nome que aos poucos passou a ser confundido com os próprios seres.
   A comprovação deste fato encontra-se na crença comum entre as diversas nações celtas sobre a existência de uma raça de seres sutis, obrigada pelas tribos invasoras a se retirar para o “Outro mundo”, descrito como uma dimensão subterrânea, dentro das colinas ou câmaras subterrâneas neolíticas (burial chamber), ou que tinham ido “além-mar”. Pelo fato que os Sidhe moravam nas câmaras subterrâneas – que eram usadas para o enterro dos reis - ao longo dos tempos eles passaram a serem confundidos com os espíritos ancestrais e denominados de Bean-sidhe ou Banshee, que anunciavam a morte de parentes e apareciam nas suas vigílias pranteando.
   Os Sidhe eram formados por vários grupos ou ordens, distintas umas das outras, mas que funcionavam como uma coletividade. As terras ocupadas pelos seres feéricos foram chamadas de Fairyland, “a terra das fadas” e seus caminhos e trilhas, imbuídos de energia mágica e telúrica, ficaram conhecidos como ley lines, as linhas de energia da terra, sobre as quais não deveriam ser construídas edificações humanas sob o perigo de eclodirem acontecimentos estranhos ou perniciosos à saúde. Os locais sagrados dos sidhe eram marcados por círculos de pedras, de grama mais verde ou de cogumelos e deviam ser respeitados e evitados pelos seres humanos. No nível mágico, os Sidhe conheciam e manipulavam os poderes dos elementos e por isso, com o passar do tempo e o esquecimento da sua verdadeira origem e poder, eles foram reduzidos às figuras elementais com nomes diferentes em função do elemento em que habitavam ou regiam. Nos contos de fadas lhes foi atribuído o papel de “fadas madrinhas”, conselheiras e protetoras individuais.
   Sidhe para os irlandeses representa o estado intermediário entre um mundo real e o sobrenatural, povoado por seres sutis, etéreos, dificilmente visíveis pelos seres humanos, devido às vibrações densas do mundo material. Com o advento do cristianismo e sua perseguição e proibição, eles esmaeceram na memória do povo, sendo denominados fadas, duendes e representações malignas do folclore, que viviam em outras dimensões entre o mundo material e espiritual. Contudo, seu fundamento psicológico nunca se perdeu e os mistérios ocultos nos contos de fadas e nas crenças populares conservam as reminiscências do antigo culto.
   Aos poucos, as fadas ficaram restritas ao folclore anglo-saxão e celta, conhecidas como protetoras e guardiãs das árvores, flores ou jardins, confundindo-se depois com outras entidades sobrenaturais e, às vezes, sendo consideradas magas e feiticeiras. Foram descritos muitos tipos, desde as belas fadas das flores, árvores, lagos e rios, os simpáticos gnomos protetores das moradias, até as entidades perigosas com dentes pontiagudos e garras afiadas. Presentes em todas as formas e manifestações da natureza, as fadas fizeram parte das lendas e do folclore de vários países, mas nenhum povo como o irlandês conseguiu captar, conhecer e compreender tão bem os Fays, provavelmente por serem seus descendentes. O mundo feérico das fadas ainda vive nas crenças e rituais dos camponeses da Irlanda, País de Gales, Escócia, Inglaterra e Bretanha e conta-se que vários mortais tiveram contato com o povo das fadas, aprendendo delas a arte da poesia, música, dança, metalurgia, tecelagem, magia e cura. A Irlanda até hoje é habitada por duas raças: a visível, dos celtas, e a invisível dos Sidhe, mas que podia ser vista e “visitada” pelos clarividentes e magos. As divindades mais conhecidas, consideradas o “Rei” e a “Rainha das Fadas” são a deusa Aine (pronuncia-se Onyá ou Oine), a regente da fertilidade e o deus Gwynn Ap Nudd (pronuncia-se guin ap niid), o “Senhor do Outro Mundo”.
   Aine é uma deusa arcaica da Irlanda, originariamente uma deusa solar, soberana da luz, da fertilidade da terra e do amor, cujo nome significava “prazer, alegria, esplendor”, celebrada no Solstício de Verão e que sobreviveu às perseguições cristãs ao ser transformada nas lendas em uma “Fada Rainha”. Apesar de deusa tutelar da província de Munster do Sudeste da Irlanda, muito pouco foi preservado das suas lendas; mesmo assim o seu culto perdurou até o século 20 mas ela jamais foi santificada ou mencionada pela igreja cristã. Os costumes a ela associados continuaram até 1970, preservando sua autêntica essência pagã, os camponeses caminhando com tochas acesas pelos campos plantados invocando o calor e a luz de Aine para a abundância das colheitas. As mulheres idosas queimavam ervas aromáticas para purificar as casas e afastar as doenças.
   Aine é irmã gêmea de Grian, a “Rainha dos Elfos” e também foi considerada como um dos aspectos da Deusa Mãe celta Ana, Anu, Danu ou Don. Grian e Aine alternavam-se na regência do ciclo solar na Roda do Ano, trocando de lugar a cada solstício. Aine foi mencionada pela primeira vez em 890-910 no dicionário Sanas Cormaic com explicações em latim da etimologia dos termos irlandeses. Mais tarde, apareceram menções no século XII no livro Táin Bó Cúailnge e no século XV em Cath Finntrágha sobre a relação da Deusa com os cairns e resquícios neolíticos encontrados em duas colinas, perto de Lough Gur, consagradas à Deusa, onde ainda hoje ocorrem ritos em honra à deusa Aine. Uma colina, a três milhas a sudoeste do lago é chamada Knockaine (em homenagem à deusa) e lá se encontra uma pedra que confere inspiração poética a seus devotos merecedores e leva à loucura àqueles que forem punidos pela falta de respeito com os lugares sagrados. Do topo da colina podem ser avistados inúmeros locais associados com seres míticos, detalhes topográficos do mito de Aine (como os castelos dos reis) e das batalhas reais entre conquistadores e nativos.
   Existem muitas controvérsias a respeito da sua origem, alguns pesquisadores a consideram filha de Eogabail, um rei dos seres míticos Tuatha de Dannan, que teria sido o filho adotivo do deus do mar Manannan Mac Lir, outras vezes como sendo esposa e algumas vezes filha dele. Como Rainha dos reinos encantados Aine pertencia aos Tuatha de Dannann e aos Sidhe e era conhecida como Lenan Sidhe, a amada ou Ain Cliar, a luminosa. Inúmeros lugares eram dedicados a Aine na Irlanda como Knoc Áine (Condado de Limerick), Tobar Áine (Condado de Tyrone), Dun Áine (Condado de Louth), Lios Áine (Condado de Derry). Com o nome de Aine Marine e Aine of Knockaine, ela é associada com Knoc Aine/Knockaine, a sua colina em Munster. Na literatura ela foi descrita como uma “Rainha das Fadas”, a mais famosa sendo Titânia, da peça “O sonho de uma noite de verão” de Shakespeare.
   Assim como outras deusas celtas, Aine tem diversos aspectos associados a diferentes coisas e atributos, sendo regente do Sol, junto com suas irmãs Fenne e Grainne e também das fases lunares. Como deusa tríplice, sua face de Donzela era tanto generosa, quanto vingativa, recompensando os devotos com o presente da inspiração poética ou os punindo com a loucura, se tivesse sido ofendida ou menosprezada. Ela era invocada geralmente para ajudar, mas se fosse desrespeitada, a sua vingança não tardava. Como Mãe, era associada aos lagos e poços sagrados, cujos mananciais possuem poderes curativos, a fonte dedicada a ela Tobar-na-Aine era renomada pelos poderes curativos. A sua intensa sexualidade a tornou inimiga da igreja cristã, sendo vista como uma ameaça ao matrimônio e à castidade. Mesmo que o simbolismo relacionado com a Deusa Mãe tenha sido esquecido quase por completo desde que começaram os ritos cristãos nas igrejas, o ato de invocação da vida nunca enfraqueceu e ela era reverenciada como protetora da gravidez e das mulheres, punindo aqueles que as tivessem ofendido, agredido, perseguido ou violentado. Como Deusa Escura e regente do teixo, Aine era considerada a “Anciã de Knockaine”, caridosa com aqueles que lhe pediam ajuda, mas vingativa com quem a explorava pela má fé. Por ser uma deusa detentora do poder da vida e da morte, Aine podia aparecer para os homens como uma mulher sábia de rara beleza, qualificada como sidhe leannan, ou seja, “uma amante-fada-fatal” que exercia tal atração sobre os homens, que eles sucumbiam aos seus encantos e muitas vezes não sobreviviam. As mais dramáticas e poéticas histórias do folclore celta são as que relatam o amor entre mortais e os seres sobrenaturais, mas que não perduram devido a certos tabus, maldições, diferenças de vibrações e costumes. Acredita-se que a “amante-fada-fatal” ainda se manifesta nos dias de hoje e quando escolhe um homem mortal, este está fadado à morte certa, pois esta é a única maneira viável para que os dois possam ficar juntos e concretizar seu grande amor.
   Existem muitas lendas sobre as escapadas amorosas de Aine, às vezes ela casava com jovens vigorosos e tinha filhos “encantados”, que dela recebiam o poder de ver o “Povo das Fadas” com a ajuda de um anel mágico. Quando ela se apaixonou pelo jovem e belo herói Fionn, ela jurou que jamais iria amar um homem com cabelos grisalhos. Mas uma das suas irmãs também amava Fionn e através de um encantamento conseguiu que seus cabelos ficassem grisalhos, mesmo ele continuando jovem. Fiel à sua geasa (promessa mágica) Aine afastou o herói. Segundo outra, entre tantas lendas, conta que Aine estava sentada nas margens do lago Lough Gur, penteando seus longos cabelos dourados, quando Gerold, o Conde de Desmond, a viu e sentindo-se fortemente atraído por ela, roubou-lhe o manto dourado e só o devolveu, quando ela concordou em casar-se com ele. Desta união nasceu Geroid Iarla ou Earl Gerald, denominado "O Mago"; após o nascimento do menino, Aine impôs ao Conde Desmond, um tabu que o impedia expressar surpresa a qualquer coisa que o filho fizesse. Entretanto, ele quebrou tal tabu, exclamando alto quando viu o filho entrando e saindo de um frasco, fato que desfez o encanto e Aine recuperou sua liberdade. Aine dirigiu-se para a colina de Knockaine, transformando-se em um cisne; dizem que é lá que ela ainda reside em seu castelo encantado, cercada por Fadas. Em outra versão, ela se recolheu na ilha Garrod no lago Lough Gur no condado de Limerick e Gerald depois transformou-se em um ganso selvagem que voou alto seguindo o rio Lough, encontrando repouso no castelo da mãe. Lough Gur era um antigo sitio sagrado pré-histórico, com reminiscências de câmaras subterrâneas, grutas e círculos de pedras do período neolítico ao seu redor, onde foram encontrados restos de oferendas votivas e grãos.
   Outra lenda descreve como Gerald vivia abaixo das águas do lago, de onde saia cada sete anos cavalgando ao redor do lago até gastar as ferraduras de prata do seu cavalo, dia em que ele voltará para expulsar estrangeiros e malfeitores da Irlanda. Dizia-se também que de sete em sete anos ele emergia das águas como um fantasma montado em um cavalo branco; o lago sumia dentro da terra aparecendo no seu lugar uma árvore sobrenatural, coberta com tecidos verdes e guardada por uma anciã, que tinha o poder de elevar as águas do lago se a árvore corresse perigo.
   Em outra lenda, o rei Ailill matou Egbal, o pai de Aine e a violentou, mas ela relutou e arrancou sua orelha, o que lhe ocasionou o apelido de Ailill-sem-orelha. Aine jurou se vingar e após um tempo, Ailill foi morto por ela com uma poderosa magia, da mesma forma como se vingou de outro rei, que também a ofendeu. Seu filho Egan - que nasceu após ela ser violentada por Aillil - se tornou rei de Munster e fundador de uma famosa dinastia. Muitas famílias de Munster com o sobrenome de O'Corra ainda acreditam que são descendentes de Aine, por eles venerada como a melhor e mais bondosa deusa. Existem muitas situações que se repetem ao longo da história celta, em que uma deusa ou rainha é violentada e conquistada por um rei, simbolizando o domínio dos invasores sobre a população nativa e a decorrente vingança da terra quando maltratada ou destruída. Em todas estas lendas percebe-se como a determinação, engenhosidade e paciência de Aine ou de outras deusas ou rainhas, as ajudaram se libertar das imposições patriarcais.
   Aine tinha o poder de metamorfose, se transformando tanto em um cisne branco, quanto em uma égua vermelha de nome Lair Derg, e que ninguém conseguia alcançá-la. Acreditava-se que na noite do Solstício de Verão, moças virgens, que pernoitassem na colina de Knockaine, poderiam ver a Rainha das Fadas passando com toda a sua comitiva. O mundo das fadas só se tornava visível pelos portais mágicos, chamados “anéis de fada”, círculos marcados na grama ou no meio de árvores, que eram indicados pela própria Aine. Uma gruta de Knockaddon supunha-se ser ligada a Tir na n’og (o “Outro Mundo” celta) e de lá Aine chegava no Lammas para dar à luz a um feixe de grãos, o seu filho Eithne (o termo gaélico para grãos). Três dias no ano eram dedicados à ela: a primeira sexta-feira, sábado e domingo após o Sabbat de Lammas. Era nestes dias que ela retornava como uma mulher sábia, que ensinava aos homens como caminhar em união e amor sobre a terra, domínio da sua mãe, a deusa Danu. No Sabbat Samhain dizia-se que Aine saia das suas colinas cavalgando um touro vermelho e era reverenciada com fogueiras acesas em todas as colinas sagradas. Sendo associada com os Sabbats, Aine podia se manifestar como a Donzela da primavera, a Mãe das colheitas e a Anciã do mundo subterrâneo. Como Donzela aparecia também como uma sereia, que penteava seus longos cabelos com um pente de ouro na margem do lago, continuando a fazer isso até o pente ia ser gasto e seu cabelos ficando brancos. Nos dias dedicados a Aine era proibido derramar sangue, para que a centelha vital não se esvaísse do corpo de outros animais ou doentes. Às vezes ela era vista numa barco junto com seu pai Manannan ajudando os marinheiros perdidos. Durante a grande fome ocasionada pela crise irlandesa das batatas, Aine aparecia no topo da sua colina entregando comida para os famintos.
   Aine era invocada no Solstício de verão na colina de Knockaine para ritos de amor, fertilidade e abundância das colheitas, prosperidade das pessoas, separações e desfechos dolorosos nas relações amorosas. Ela ampliava a visão e podia facilitar o contato com o mundo das Fadas, potencializando os poderes mágicos e extrassensoriais. Os camponeses saiam em procissão após acenderem as fogueiras na sua colina e caminhavam pelos campos com tochas acesas, feitas com feixes de palhas e ervas solares amarrados em postes. Eles purificavam os campos e o gado com as chamas, pedindo proteção e fertilidade e esperavam que Aine e os Sidhe aparecessem para eles, abrindo um portal para o Outro Mundo. As cinzas das fogueiras eram espalhadas depois nos campos para atrair fertilidade. Nas noites de lua cheia, os doentes eram levados para se banharem no Lough Gur; se até o nono dia eles não se curavam, as pessoas sabiam que em breve iriam ouvir o canto das ancestrais Banshee, prenunciando-lhes um sono profundo e sem dor, durante qual iam passar para o reino dos Sidhe. Após a sua passagem, havia uma vigília prolongada, quando os familiares se reuniam entoando os cantos de lamento chamados keenings, dádiva das banshees.
   As mulheres idosas honram ainda Aine no Samhain e Litha e queimam ervas aromáticas para purificar as casas e afastar as doenças. Elas acreditam que foi Aine que impregnou o aroma nas flores e frutos e que seu brilho aquece os corpos e ilumina as almas. Apesar da sua memoria ter se perdido na bruma dos tempos, os velhos costumes e tradições guardados no folclore são resgatados por pesquisadores e adeptos atuais das tradições celtas. Cada ano, um número maior de pessoas se reúne no solstício de verão na colina Knockaine, saúda o nascer do sol e homenageia Aine, “A Brilhante” com canções, orações e oferendas de flores, grãos e leite.
   A mensagem que Aine traz para as mulheres atuais é acreditar no seu próprio poder, firme e forte, mas envolto na cor diáfana da suavidade amorosa. Ela nutre o corpo e o espírito com calor e luz, sendo protetora da natureza vegetal, animal e humana. Aine confere fertilidade física, mental e espiritual, apoia e incentiva o alcance dos sonhos e ambições com palavras que poderiam ser resumidas nesta frase: ”arrisque-se e coloque o desejo do seu coração em ação!”. Mesmo quando os planos iniciais não se concretizaram, a mulher deve seguir adiante, com coragem e confiança, sem permitir que opiniões e movimentos alheios impeçam a busca dos seus objetivos. Ficar parada ou lamentar perdas e fracassos não leva a nada e o tempo passa sem perceber, deixando para trás lamentos, remorsos e inação. São as perdas e fracassos do passado que nos ensinam a viver melhor, não se pode julgar uma decisão passada com o discernimento do presente, pois as decisões são tomadas com a consciência do momento. É importante saber qual é a missão que a mulher veio realizar no mundo e se empenhar para cumpri-la, com todas as suas forças. “Confiar, se preparar e agir” é o legado deixado por Aine para as mulheres; após ter refletido, tomado uma decisão e estabelecido um plano de ação, deve ser dado inicio ao caminho escolhido, com pequenos e cautelosos passos, sem parar, titubear ou recuar. Com a ajuda de Aine, as mulheres podem resgatar, diversificar e expressar o ilimitado potencial da natureza e essência feminina.
   Aine pode ser invocada em ritos de amor, fertilidade, na gravidez, magia natural com a ajuda das fadas, abundância, prosperidade, separação dolorosa, para punir traições e ofensas das mulheres por homens, quebras de promessas e exploração da terra. Ela amplia nossa visão e pode facilitar o contato com os mundos sutis; por dominar as artes mágicas, Aine auxilia a potencializar os dons mágicos e extrassensoriais, sendo-lhe atribuído o poder da energia vital, a centelha sagrada que sustenta os seres vivos.
   Seus símbolos mágicos são: égua vermelha, lebre, gado, ganso selvagem, cisne, plantações férteis, bastão, sinos, flores, trevo de três folhas, madressilva, angélica, amoras, sabugueiro, linho, alho, artemísia, lavanda, urtiga, hera, visco, azevinho, bétula, freixo, teixo, carvalho, fitas multicoloridas e harpa.

A seguir algumas invocações tradicionais para Aine:

Senhora das Colinas, Filha do mar, Rainha radiante das Fadas,
Linda Aine Brilhante, Aine Chlair, que rege o calor do verão,
Venha a nós, estenda teu manto dourado e nos abençoe.
Deusa que ilumina os caminhos e orienta nossos passos
Traga alegria e harmonia para nossos corações,
Lavaremos nossos rostos com nove raios do sol
Encontraremos a paz envoltas pelo manto dourado de Aine,
Seremos abençoados ao acordar e quando deitar.
Durante o dia e à noite, quando chegarmos e sairmos,
A luz estará na nossa frente, atrás de nós, dentro de nós e fora de nós,
Pois o manto dourado de Aine Cil sempre nos envolverá.
Senhora da Luz, nós te louvamos,
Te reverenciamos e sempre respeitaremos o teu legado!

Aine, Grande Deusa da Irlanda
Deusa da Lua, do amor
Encorajadora da paixão no coração dos homens
Invoco o teu poder, vem até mim
Rainha das Fadas de Munster
Tu que governas a agricultura, a fertilidade, as colheitas e os animais
Sol dourado que se transforma em Lair Derg,
A égua vermelha que ninguém pode domar,
Me ensina teus mistérios, compartilha comigo tua sabedoria
Tu que és a Mãe, mostrando tua face curadora nos lagos e fontes
Tu que és a Anciã, Leannan Sidhe, que aparece aos mortais com tua grande beleza
Para levá-los ao Outro Mundo.

Eu te invoco Aine, Grande Mãe
Toque a cabeça dos meus filhos para crescerem fortes
Deixe teu pó dourado cobrir meus lábios
Para atrair os beijos do meu amado
Pare a mão daqueles que cortam as árvores,
Ajude-os a descobrir como tornar a terra verde
Fortalece a mão de quem planta sementes
Nos campos e terras áridas.
Ajuda as flores a se transformarem em frutos
Que sejam degustados por todos com gratidão por Ti
Faça ouvir teu canto suave até os cantos remotos da Terra
Nutra as águas da minha alma
Toque-me com Tua sabedoria
Ao despertar em cada dia
Para que a luz do teu brilho
Desperte a minha luz interior
Abençoada sejas
Aine Deusa dourada!

A Grande Mãe Brasileira

Mirella Faur

Brasil é o país que concentra o maior número de pessoas a cultuarem uma das manifestações da Grande Mãe, como Iemanjá, a deusa ancestral das águas, “A Senhora do Mar”. Só perde para a Índia, onde inúmeras deusas com diversos nomes e aspectos são cultuadas até hoje. Anualmente, às vésperas do Ano Novo e no dia dois de fevereiro, milhões de pessoas levam suas oferendas e orações para as praias brasileiras, ou saem em procissões marítimas ou fluviais, similares às antigas cerimônias egípcias e romanas – Navigium Isidi – dedicadas a Ísis, Deusa Mãe protetora dos viajantes e das embarcações.

Apesar da devoção brasileira a Iemanjá, seu culto não é nativo - ele foi trazido ao Brasil no século XIII pelos escravos da nação ioruba. Yemojá ou YéYé Omo Ejá, a “Mãe cujos filhos são peixes”, era o orixá dos Egbá, a nação ioruba estabelecida outrora perto do rio Yemojá, no antigo reino de Benin. Devido a guerras, os Egbá migraram e se instalaram às margens do rio Ogun, de onde o culto a Iemanjá foi levado pelos escravos para o Brasil, Cuba e Haiti.

Nesses países, Iemanjá passou a ser venerada como “Rainha do Mar”, orixá das águas salgadas, apesar da sua origem ter sido “o rio que corre para o mar”, sua saudação sendo Odo-Yiá, que significa “Mãe do Rio”. Analisando os nomes Ya/man /Ya  e Ye/Omo/Ejá conforme a “Lei de Pemba”– a grafia sagrada dos orixás, postulada pela Umbanda Esotérica-, encontram-se os mesmos vocábulos sacros que significam “Mãe das águas, Mãe dos filhos da água (peixes) e Mãe Natureza”.

Iemanjá é considerada pela Umbanda Esotérica como uma das sete “Vibrações Originais”, sendo o princípio gerador receptivo, a matriz dos poderes da água, o eterno e Sagrado Feminino. Portanto, Iemanjá personifica os atributos lunares e aquáticos da Grande Mãe, padroeira da fecundidade e da gestação, inspiradora dos sonhos e das visões, protetora e nutridora, mãe primeva que sustenta, acalenta e mitiga o sofrimento dos seus filhos de fé.

No entanto, por mais que Iemanjá seja reconhecida e venerada no Brasil, ela não representa a Mãe Ancestral nativa, que tenha sido cultuada pelas tribos indígenas antes da colonização e da chegada dos escravos. Infelizmente, muito pouco se sabe a respeito das divindades e dos mitos tupi-guarani. A cristianização forçada e a proibição pelos jesuítas de qualquer manifestação pagã destruíram ou deturparam os vestígios de Tuyabaé-cuáa, a antiga tradição indígena, a sabedoria dos velhos payés.

Segundo o escritor umbandista W.W. da Matta e Silva e seus discípulos Rivas Neto e Itaoman, a raça vermelha original tinha alcançado, em uma determinada época distante, um altíssimo patamar evolutivo, expresso em um elaborado sistema religioso e filosófico, preservado na língua-raiz chamada Abanheengá, da qual surgiu Nheengatu, a “língua boa”, origem dos vocábulos sagrados dos dialetos indígenas. Com o passar do tempo, a raça vermelha entrou em decadência e, após várias cisões, seus remanescentes se dispersaram em diversas direções. Deles se originaram os tupi-nambá e os tupi-guarani, que se estabeleceram em vários locais na América do Sul.

As concepções religiosas do tronco tupi eram monoteístas, postulando a existência de uma divindade suprema, um divino poder criador (às vezes chamado de Tupã) que se manifestava por intermédio de Guaracy (o Sol) e Yacy (a Lua) que, juntos, geraram Rudá (o amor) e, por extensão, a humanidade. O culto a Guaracy era reservado aos homens, que usavam os tembetá, amuletos labiais em forma de T, enquanto as mulheres veneravam Yacy e Muyrakitã, uma deusa das águas, e usavam amuletos em forma de batráquios e felinos, pendurados no pescoço ou nas orelhas.

Guaracy era a manifestação visível e física do poder criador representado pelo Sol. Apesar do astro ser considerado o princípio masculino na visão dualista atual, a análise dos vocábulos nheengatu do seu nome revela sentido diferente. Guará significa “vivente”, e cy é “mãe”, o que formaria a “Mãe dos seres viventes”, a força vital que anima todas as criaturas da natureza, a luz que cria a vida animal e vegetal. Também em outras tradições e culturas (japonesa, nórdica, eslava, báltica, egípcia, australiana e nativa americana), o Sol era considerado uma Deusa, o que nos faz deduzir que, para os  nativos tupi, a vida e a luz solar provinham de uma Mãe - Cy - que só mais tarde foi transformada em Pai. Yacy era a própria Mãe Natureza, seu nome sendo composto de Ya (senhora) e Cy (mãe), “a Senhora Mãe”, fonte de tudo, manifestada nos atributos da Lua, da água, da natureza, das mulheres e das fêmeas.

Cy - ou Ci - representa, portanto, a origem de todas as criaturas, animadas ou não, pois tudo o que existe foi gerado por uma mãe que cuida da sua preservação, do nascimento até a morte. Sem Cy (mãe), não existe, nem pode perdurar a vida, pois ela é a Mãe Natureza, o principio gerador, nutridor e sustentador da vida. Na língua tupi existem vários nomes que especificam as qualidades maternas: Yacy, a Mãe Lua; Amanacy, a Mãe da Chuva; Aracy, a Mãe do Dia, a origem dos pássaros; Iracy, a Mãe do Mel; Yara, a Senhora da Água; Yacyara, a Senhora do Luar; Yaucacy, a Senhora Mãe do Céu; Acima Ci, a Mãe dos Peixes; Ceiuci, a Mãe das Estrelas; Amanayara, a Senhora da Chuva; Itaycy, a Mãe do Rio da Pedra, e tantas outras mães – do frio e do calor, do fogo e do ouro, do mato, do mangue e da praia, das canções e do silêncio. As tribos indígenas conheciam e honravam todas as mães e acreditavam que elas geravam sozinhas seus filhos, sem a necessidade do elemento masculino, atribuindo-lhes a virgindade - o que também em outras culturas simbolizava sua independência e autossuficiência. Em alguns mitos e lendas, as virgens eram fecundadas por energias numinosas (sobrenaturais) em forma de animais (serpente, pássaro, boto), forças da natureza (chuva, vento, raios), seres ancestrais ou divindades.

A explicação da omissão na mitologia indígena do elemento masculino na criação era o desconhecimento do papel do homem na geração da criança, além do profundo respeito e reverência pelo sangue menstrual que, ao cessar “milagrosamente”, se transformava em um filho. Somente pela interferência dos colonizadores europeus e pela maciça catequese jesuíta que, na criação do homem, o Pai assumiu um papel preponderante, o Filho tornou-se o segundo na hierarquia, salvador da humanidade - como Jurupary, e à Mãe coube apenas a condição de virgem (como Chiucy). Porém, apesar do zelo dos missionários para erradicar os vestígios dos cultos nativos da cultura indígena e dos escravos, muitas de suas tradições sobrevivem nas lendas, nos costumes folclóricos, nas práticas da pajelança - e sua variante a encantaria - que estão ressurgindo, cada vez mais atuantes, saindo do seu ostracismo secular.

Outro arquétipo da Mãe Ancestral é descrito no mito amazônico da Boiúna, a “Cobra Grande”, dona das águas dos rios e dos mistérios da noite. Apresentada como um monstro terrível que vive escondido nas águas escuras do fundo do rio e ataca as embarcações e pescadores, a Boiúna ou “Cobra Maria” é, na verdade, a “Face Escura da Deusa, a Mãe Terrível, a Ceifadora”, que tanto gera a vida no lodo como traz a morte, no eterno ciclo da criação, destruição, decomposição, transformação e renascimento. Caamanha, a “Mãe do Mato”, é outro aspecto da “Mãe Escura” que protege as florestas e os animais silvestres, e pune, portanto, os desmatamentos, as queimadas, a captura e matança dos animais e a violência contra a natureza. Pouco conhecida, ela foi transformada em dois personagens lendários: Curupira e Caapora. Descritos como seres fantasmagóricos, peludos, com os pés voltados para trás, às vezes com um aspecto feminino, são os guardiões das florestas, que levavam os caçadores e invasores do seu habitat a se perderem nas matas, punindo-os com chicotadas, pesadelos, acidentes ou até mesmo com a morte.

Nas lendas guarani relata-se a aparição da “Mãe do Ouro”, que surge como uma bola de fogo ou manifesta-se nos trovões, raios e ventos, mostrando a direção da mudança do tempo. Em sua representação antropomórfica, ela torna-se uma linda mulher que reside em uma gruta no rio, rodeada pelos peixes e de onde se manifesta no ar como raios luminosos, ou então surge na forma de uma serpente de fogo, punindo os destruidores das pradarias. Em sua versão original, ela era considerada a guardiã das minas de ouro, que seduzia os homens com seu brilho luminoso, afastando-os das jazidas. Seu mito confunde-se com o do Boitatá, uma serpente de contornos fluídicos, plasmada em energia etérea com dois imensos olhos; ela guardava os tesouros escondidos, reminiscência dos aspectos punitivos da Mãe Natureza, defendendo e protegendo suas riquezas.

 A deturpação cristã do mito punitivo pode ser vista na figura da “Mula sem Cabeça”, metamorfose da concubina de padre, que assombra os viajantes nas noites de sexta-feira (dia dedicado, nas culturas pagãs, às deusas do amor, como Astarte, Afrodite, Vênus, Freyja) e do Teiniágua, lagarto encantado que se transforma em uma linda moça para seduzir os homens, desviando-os dos seus objetivos.

Quanto ao significado esotérico de Muyrakitã, devemos decompor seu nome em vocábulos para compreender sua simbologia feminina: Mura - mar, água; Yara - senhora, deusa; Kitã - flor. Podemos então interpretá-lo como “A deusa que floriu das águas” ou “A Senhora que nasceu do mar”. Esta divindade aquática, considerada a filha de Yacy, era reverenciada pelas mulheres que usavam amuletos mágicos chamados ita-obymbaé, confeccionados com argila verde, colhida nas noites de Lua Cheia no fundo do lago sagrado Yacy-Uaruá (“Espelho da Lua”), morada de Muyrakitã. Esses preciosos amuletos só podiam ser preparados pelas ikanyabas ou cunhãtay, moças virgens escolhidas desde a infância como sacerdotisas do culto de Muyrakitã - vetado, portanto, aos homens. Nas noites de Lua Cheia, as cunhãtay, devidamente preparadas, esperavam que Yacy espalhasse sua luz sobre a superfície do lago e, então, mergulhavam à procura da argila verde. A preparação das virgens incluía jejum, cânticos e sons especiais (para invocar os poderes magnéticos da Lua), além da mastigação de folhas de jurema, uma árvore sagrada que contém um tipo de narcótico que facilita as visões. Enquanto as cunhãs mergulhavam, as outras mulheres ficavam nas margens do lago entoando cânticos rítmicos ao som dos mbaracás (chocalhos). Depois de “recebida” a argila das mãos da própria Muyrakitã, ela era modelada em discos com formato de animais, sendo deixado um pequeno orifício no centro. Em seguida, todas as mulheres realizavam encantamentos mágicos, invocando as bênçãos de Muyrakitã e Yacy sobre os amuletos, até que Guaracy, o Sol, nascia solidificando a argila com seus raios.

Esses amuletos, que ficaram conhecidos com o nome de muiraquitã, tinham cor verde, azul ou de azeitona e eram usados no pescoço ou na orelha esquerda das mulheres. Acreditava-se que eles conferiam proteção material e espiritual e que podiam ser utilizados para prever o futuro, nas noites de Lua Cheia. Após serem submersos na água do mesmo lago, os amuletos eram colocados na testa das cunhãs e com orações eram invocadas as bênçãos de Yacy e Muyrakitã.

No nível exotérico, profano, o muiraquitã é conhecido como um talismã zoomorfo, geralmente em forma de sapo, peixe, serpente, tartaruga ou de felinos, talhado em pedra (nefrite, esteatita, jadeíta ou quartzito), bem polido, ao qual se atribuíam poderes mágicos e curativos. Foram encontrados vários deles na área do baixo Amazonas, entre as bacias dos rios Trombetas e Tapajós, sendo chamados de “pedras verdes das Amazonas”.

Esta denominação folclórica pode ser uma confirmação do mito das Amazonas ou Ycamiabas, as “mulheres sem homens”, como foram chamadas pelo padre Carvajal, da expedição de Francisco de Orellana, em 1542. Os relatos míticos as descrevem como mulheres altas, belas, fortes e destemidas, longos cabelos negros trançados e tez clara, que andavam despidas e utilizavam com maestria o arco e a flecha para guerrear e caçar. Diz a lenda que elas escolhiam anualmente homens adequados para serem os pais de seus filhos, presenteando-os com muiraquitãs. Outras fontes afirmam que elas usavam ornamentos de pedras verdes esculpidos em forma de animais como objetos de troca com visitantes ou tribos vizinhas. Os missionários atribuíam aos índios tapajós a origem dos muiraquitãs, mas eles eram apenas seus portadores, não os fabricantes, exibindo-os como símbolos de poder ou riqueza, ou ainda como compensação na realização de ritos fúnebres, nas cerimônias de casamento ou para selar alianças e acordos de paz entre as tribos.
Ocultos em mitos, lendas e crenças, existem ainda muitos resquícios das antigas tradições e cultos indígenas. Descartando as sobreposições e distorções cristãs e literárias, poderemos resgatar a riqueza original das diversas e variadas apresentações da criadora ancestral brasileira, Mãe da Natureza e de tudo o que existe, que existiu e sempre existirá. Cabe aos estudiosos e pesquisadores atuais desvendar os tesouros históricos do passado indígena brasileiro, com isenção de ânimo e sem distorções, em uma sincera dedicação e lealdade à verdade original, para oferecer às nossas mentes as provas daquilo que os nossos corações femininos sempre souberam, ou seja, "que a Terra é a nossa Mãe e devemos cuidar dela”.  

Cada vez mais temos provas científicas desta verdade que existe nos nossos corações, ou seja, que nos tempos antigos os seres humanos veneravam e oravam para uma Criadora, guardiã dos portais da vida e da morte, cujos templos eram a própria Natureza e cujos nomes estão ocultos nas nossas memórias ancestrais. Por sermos seus filhos, somos todos nós irmãos de criação, interligados, conectados e responsáveis por fazermos parte da teia cósmica e telúrica da Sua Criação. Como Filhas da Grande Mãe brasileira, devemos lembrar e honrar que cada árvore, animal, pedra ou planta tem uma mãe, que existem guardiões da natureza que observam e julgam nossas ações e que a única maneira de garantir nossa sobrevivência é respeitar, cuidar e amar o solo sagrado sobre qual caminhamos, que nos alimenta e sustenta. Porém não devemos esquecer que a Mãe Natureza tem sua Face Terrível e antes que ela a torne contra nós, precisamos mudar nossas ações e atitudes, curar as feridas que infligimos no corpo da Mãe Terra, expandir nossa consciência, refazer crenças, valores e propósitos e consagrar nossas vidas para deixar um melhor legado para nossos descendentes.

Que a Grande Mãe perdoe nossas faltas e erros e que nos ajude salvar a natureza e manter a paz sobre a Terra!

Versão em português do artigo em inglês publicado pela revista The Beltane Papers  #30 em fevereiro de 1998

Atualização do artigo A Grande Mãe brasileira.

NUT, A DEUSA EGÍPCIA REGENTE DO CÉU

 “Nut, minha divina mãe, estenda teus braços sobre mim, afastando as sombras e me protegendo enquanto brilharem no céu as imorredouras estrelas”.
       Inscrição sobre um peitoral encontrado no túmulo de Tutankhamon junto à sua múmia

“Eu sou Nut e vou abraçar e proteger aqueles que vierem a mim, afastando todos os males”.
                             Texto inscrito sobre a tampa dos sarcófagos

No começo dos tempos, quando nada ainda havia sido criado, existia somente uma massa aquosa que cobria o universo. O deus Khepera (o precursor de Ra, representado como um escaravelho e simbolizando o sol matutino) gerou-se a partir desta matéria primordial ao dizer seu próprio nome. Em seguida ele concebeu duas outras deidades, cuspindo-as de sua boca: o deus Shu, personificando o ar e a deusa Tefnut, simbolizando o orvalho. Ambos, por sua vez, geraram duas crianças gêmeas: Geb, o deus da terra, e Nut, deusa do céu. Com a criação das primeiras quatro divindades (Shu, Tefnut, Geb e Nut), estabeleceu-se o Cosmos. Geb e Nut deram à luz quatro crianças: Osíris e Ísis, Seth e Néftis cuja missão foi fazer a mediação entre os seres humanos e o Cosmos. Esses nove deuses compunham a enéade (palavra de origem grega designando um agrupamento de nove divindades, geralmente ligadas entre si por laços familiares) de Heliópolis, a mais importante congregação de deuses do panteão egípcio.
Existem várias versões do mito de criação egípcio e em todas Nut desempenha um papel importante. O mito que pertencia ao reino baixo do Egito afirmava que no começo dos tempos existia apenas o oceano, do qual apareceu de repente um ovo flutuando na sua superfície e do qual emergiu Ra, o deus solar. Ele gerou das suas secreções quatro filhos: os deuses Shu e Geb e as deusas Tefnut e Nut. Shu e Nut formaram a atmosfera, que pairava sobre Geb, a terra e Nut se elevou formando o céu, enquanto Ra era o governante supremo, regendo sobre o todo e todos. Geb e Nut tiveram dois filhos: Set e Osíris e duas filhas, Ísis e Néftis. Com o passar do tempo Ra envelheceu e cedeu seu lugar a Osíris, que passou a reger o mundo auxiliado por Ísis, sua irmã e esposa. Set odiava seu irmão Osíris e acabou matando-o; a partir deste evento, Osíris passou a personificar a bondade e Seth a maldade, estabelecendo assim os dois polos da moralidade. Ísis usou poderosas magias e ressuscitou Osíris, que se tornou “Senhor do Mundo Subterrâneo” e o rei dos mortos. O filho deles - Horus venceu Seth em uma grande batalha e assumiu o seu lugar como “Senhor da Terra”.
O mito do reino alto do Egito difere ligeiramente, descrevendo a existência de Nun, o oceano primordial, que continha em si os começos de tudo aquilo que poderia ser criado. Ra surgiu do oceano e gerou de forma partenogenética do seu esperma Shu (deus do ar) e Tefnut (a deusa da umidade); este casal gerou os gêmeos Nut, a deusa do céu e Geb, o deus da Terra. No universo físico assim criado, a humanidade surgiu das lágrimas de Ra. Geb e Nut nasceram abraçados, mas como Ra desaprovava este incesto, ordenou a Shu para se colocar entre eles, separando assim o céu da terra. Porém, eles permanecerem juntos, mesmo sem permissão, fazendo amor em um abraço ininterrupto. Ra enfurecido chamou Shu pedindo que os separasse em definitivo; Shu interveio e ergueu Nut para o alto segurando-a com seus braços e assim ela passou a ser a abóbada estrelada do céu, deixando Geb prostrado abaixo dela. Ra, sem saber que Nut estava grávida, a amaldiçoou para que ela não parisse em nenhum dia e em nenhum ano. Nut desesperada foi procurar ajuda com seu amigo Thoth, o deus da sabedoria, que também era filho de Ra. Thoth conseguiu achar um estratagema para contornar a maldição. Primeiro ele foi visitar Khonsu, o deus lunar e o desafiou para um jogo de damas; quanto mais o jogo durava, maiores eram as apostas. No final o vencedor foi Thoth e a aposta de Khonsu tinha sido uma quantidade de luz, suficiente para criar cinco dias adicionais. Thoth adicionou esses dias a mais no final do velho ano e no início do novo, dias estes que não faziam parte de nenhum dia e de nenhum ano. Graças à sabedoria de Thoth, a maldição de Ra foi anulada e Nut pariu seus filhos naqueles cinco dias antes inexistentes.
Em outra versão do mito Ra, o deus solar pediu a Nut para elevá-lo ao céu distante, tirando-o do mundo telúrico que ele detestava. Nut elevou Ra nas suas costas, mas ficou tonta com a altura e quase ia deixar Ra cair, se não fosse pelo suporte de quatro deuses que firmaram seus pés e Shu sustentou o arco do seu corpo. Estes deuses se tornaram os pilares celestes, Nut sendo o firmamento ao qual Ra prendeu as estrelas. O mito do deus solar Ra e da sua mãe Nut foi mais marcante e prolongado no baixo do Nilo, na região do delta, pois naquela latitude a visão da Via Láctea se assemelhava à imagem celeste de Nut com o seu corpo arqueado sobre a terra.
Os egípcios acreditavam que nos tempos pré-históricos o país tinha sido governado por deuses, que estavam fisicamente presentes. Algumas listas bem antigas de reis apresentam o terceiro faraó divino como tendo sido Geb. Rá e Shu governaram antes dele e Osíris, depois. O deus-terra teria defendido o direito de Hórus  de ocupar o trono quando da luta deste contra Seth e, por isso, era cultuado como divindade protetora do faraó, que era conhecido como o Herdeiro de Geb. Em homenagem à atuação de Geb como um grande rei e pela admiração que tinha alcançado como soberano, o trono do faraó era honrado como O Trono de Geb.
Nut, Nuit, Nith ou Neit representava o céu, simbolizado pelo seu corpo e nas suas imagens aparecia como uma mulher com pele negra, dourada ou azulada, com cabelos trançados e sua vestimenta ornada por estrelas. Outra imagem a representava como uma belíssima mulher nua, carregando uma vasilha com água sobre sua cabeça, uma alusão ao seu dom de verter a chuva sobre a terra e ao fato que das suas lágrimas teria nascido o rio Nilo.  Muitas vezes aparecia sob a forma de uma vaca (imagem comum a outras deusas) ou emergindo do tronco de uma árvore e oferecendo uma bandeja com água e pão aos falecidos. Nut representava a passagem das divindades pré-dinásticas - que expressavam os poderes divinos em forma de animais - para as divindades cosmogónicas.  Porém a sua imagem mais frequente era como abóbada celeste, o seu corpo alongado, coberto por estrelas, se estendendo sobre a terra, com a Lua sobre seu ventre enquanto a Via Láctea abrangia os seus seios. Era a representação mítica do abraço da deusa do céu sobre Geb sobre , o deus da Terra, uma metáfora do seu eterno amor e desejo pela união. O mito em que o céu e a terra são casados, e depois separados, existe como um tema universal em diversas culturas com uma larga gama de variações.
Do ponto de vista matrifocal, Nut é a toda-abrangente força feminina do oceano primordial, o fundamento da criação; ela guarda no seu corpo o Sol, a Lua e as estrelas como seus filhos transitórios e efêmeros, pois eles nascem e desaparecem com as marés do seu corpo. Do ponto de vista patriarcal - formulado pelos sacerdotes de Ra - o sol torna-se o foco, o ser primário que viaja no seu barco sobre o abismo aquoso do céu, descrito como o corpo da vaca celeste que o sustenta, mas não o gera. Assim Nut não é mais a mãe de Ra, mas sua neta, uma inversão do papel tradicional. As nuances avermelhadas do alvorecer não mais representam o sangue puerperal da mãe, mas o da serpente da escuridão, morta pelo Sol. No entanto, independente da forma como o Sol era descrito, Nut preserva seu papel central como o céu noturno, a mãe cuidadora dos mortos, que abraça e cuida das almas à espera do seu renascimento.
Vários mitos descrevem a trajetória do Sol no céu do leste ao oeste. De acordo com uma lenda egípcia, todas as noites, quando o Sol desaparecia no horizonte, Nut engolia o astro rei, que percorria o seu corpo durante a noite, descansando no seu ventre (“a gruta secreta”) e o dava à luz todas as manhãs como radiante disco solar. A manhã simbolizava a renovação de toda a criação, uma analogia com o rejuvenescimento e a ressureição dos mortos. As imagens do divino feminino reproduzem a experiência simultânea da união e separação. No pôr do sol no oeste, a Deusa é a mulher que recebe a semente de luz, que viaja pelo seu corpo e gera o deus no seu ventre. No leste, no alvorecer, a deusa é Mãe, que dá à luz seu filho e se separam depois. Quando a mãe se une ao pai (Nut com Geb ou Osíris e Ísis) os opostos se unem, a unidade abrange o Todo formado pela combinação da dualidade. O mistério do nascimento é um processo de fusão, gestação, união e individualização, tanto no macro como no microcosmo.
 Nut era uma deusa celestial, mas seu culto era associado ao contexto funerário devido à sua conexão com o renascimento do Sol e com a crença egípcia na ressureição dos mortos. Acreditava-se que ela estendia a mão aos que tinham morrido, consolando-os e os colocando como estrelas para iluminar o seu corpo. Nas ilustrações nos tetos de vários túmulos e templos, no Vale dos Reis, o corpo de Nut - cujas extremidades simbolizavam os pontos cardeais - aparecia arqueado sobre a terra, abraçando o seu irmão e esposo Geb. Segundo os “Textos das Pirâmides”, a sua função era de "cobrir o corpo do deus", de tal modo que no interior das tampas dos sarcófagos e na parte interna da base, Nut era representada com uma imagem virada para baixo, a outra para cima, simbolizando a recepção dos defuntos com o seu abraço materno, cobrindo-os para sua proteção e auxiliando o seu renascimento. Em todo o Egito foram encontradas imagens do corpo nu da Mãe Celeste, pintadas nos tetos dos templos e dos sarcófagos em azul anil ou decoradas com lápis lazuli. Às vezes seu corpo é dourado com estrelas brilhando sobre ele representando seus filhos, as almas dos mortos ou daqueles que ainda não nasceram. Outras imagens a mostram engolindo - na forma de um globo dourado - a semente do Sol morrendo ao anoitecer, que renasce do corpo materno no alvorecer do outro dia com a ajuda de Khepera, o escaravelho dourado. A celebração do nascimento do deus solar honrava também a Grande Mãe como “Vaca Celeste”, de cujas tetas nascia a Via Láctea.
 Geb desempenhava um papel de destaque na mitologia egípcia e era citado em vários textos como Seb, Keb, Kebb, Qeb ou Gebb, sendo originário de uma linhagem antiga de deuses e representando a terra. Era descrito como um homem barbudo, sua cabeça sustentando um ganso ou uma coroa branca com adornos, conhecida por “Coroa Ritual” (atef). Também podia ser retratado simplesmente como um ganso, palavra cuja grafia em egípcio também era geb, esta ave sendo seu símbolo, seu animal sagrado e que fazia parte da grafia de seu nome em hieróglifos. Por essa associação com o ganso ele é denominado o “Grande Cacarejador” e sua filha Ísis às vezes recebia o epíteto de ”Ovo do Ganso”. Geralmente aparecia como um homem com a pele verde ou preta, a cor das coisas vivas, da vegetação e do lodo fértil do Nilo, respectivamente. Frequentemente era desenhado deitado de lado sobre a terra, apoiado sobre seu cotovelo ou com os joelhos dobrados e elevados tocando o céu, com plantas brotando de seu corpo. Nesta imagem dizia-se que Geb representava os vales e colinas do país, enquanto o pai Shu segurava o corpo de Nut com seus braços elevados, da mesma forma que o ar segurava o céu. Este posicionamento tem uma grande importância mítica, pois quando Shu elevou Nut (o céu) acima de Geb (a terra) ele colocou um fim ao caos; se ele deixasse de segurar Nut, o mundo voltaria ao caos primordial. A terra era chamada de A Casa de Geb, assim como o ar era chamado de A Casa de Shu, e o céu A Casa de Nut. Outra crença era a de que ele era a divindade supridora dos minerais e das pedras preciosas e, por isso, também era o deus das minas. Em síntese, era um deus provedor de tudo: pedras, alimentos e plantas que cresciam às margens do Nilo.
A cidade de Heliópolis, situada poucos quilômetros a nordeste do atual Cairo, era tida como o local do nascimento dos nove deuses e onde realmente se iniciou a obra da criação do mundo. Diversos papiros ilustram o primeiro ato da criação ocorrido quando o deus-Sol apareceu no céu pela primeira vez e iluminou a terra com seus raios. Em uma ilustração de um papiro do Livro dos Mortos datado da XXI dinastia (c. 1070 a 945 a.C.) Geb aparece deitado sobre o solo com o pênis ereto, como se tentasse manter relações sexuais com Nut - para enfatizar sua característica de deus da fertilidade -, com uma das mãos voltadas para o chão e a outra estendida em direção ao céu. Um dos joelhos geralmente está flexionado, bem como um dos cotovelos, simbolizando as montanhas e vales da terra. As montanhas eram consideradas como sendo seus ossos, ou o resultado dos seus esforços infrutíferos de unir-se à deusa Nut..
Em hinos e outras composições o deus Geb é denominado de erpa, ou seja, pai ou chefe hereditário dos deuses, numa alusão aos seus quatro filhos. Originalmente deus da terra e da fertilidade, mais tarde Geb passou a ser uma divindade dos mortos, já que é no seio da terra que os mortos são depositados. Nesse sentido ele desempenha papel muito importante no Livro dos mortos onde aparece como um dos deuses que assistem à pesagem do coração do defunto no “Saguão das Duas Verdades”. As pessoas com integridade moral, conhecedoras das palavras mágicas necessárias, eram capazes de se evadir da terra e Geb as guiava para o céu, dando-lhes alimento e bebida. Os maus, entretanto, seriam presas fáceis de Geb, que os aprisionava em seu próprio corpo — a terra. Na tampa dos ataúdes, Geb era representado embaixo e Nut acima, de maneira que o defunto ficava contido entre as duas divindades.
Geb tornou-se um rei poderoso e ganhou o título exclusivo de Herdeiro dos Deuses. Não existia um distrito ou cidade dedicada especificamente a essa divindade, nem se sabia em que localidade ela foi cultuada pela primeira vez. Sabe-se, entretanto, que uma extensão do templo em Apolinópolis Magna foi dedicada a esse deus e que um dos nomes da cidade de Dendera era a Casa dos filhos de Geb. Mas o seu principal centro de culto parece ter sido Heliópolis, onde ele e sua esposa Nut produziram o “Grande Ovo” do qual se originou o deus-Sol na forma de um pássaro conhecido pelos egípcios como Ave Benu e pelos gregos como Fênix.  O ovo sempre foi, para os antigos egípcios, um símbolo de renovação, simbolismo que até hoje persiste por ocasião da celebração do Sabbat celta Ostara e da páscoa cristã.
Com o passar do tempo a influência de Nut cresceu e ela passou a personificar não somente o céu diurno, mas o firmamento inteiro e tudo o que era contido entre o nascer e o pôr do sol. Como deusa do período histórico mais recente do Egito, Nut absorveu uma variedade dos atributos das deusas mais antigas, incluindo os da deusa Hathor, quando era representada por uma belíssima mulher, com o disco solar adornando sua cabeça. Invocada como “A Grande protetora, O horizonte infinito ou A Mãe dos deuses”, Nut era festejada no “Festival das Luzes”; nos seus inúmeros templos serviam apenas mulheres, que cuidavam dos seus altares e rituais, na esperança de que após sua morte iam brilhar como “estrelas no corpo da Deusa celeste”. Mesmo com a diminuição do poder divino feminino nas dinastias mais recentes, Nut continuou a ser reverenciada, principalmente devido à sua importância nos ritos funerários e nas representações das tampas dos sarcófagos, tanto dos reis, quanto das pessoas humildes, assegurando assim a sua proteção após a morte e a certeza do renascimento.
“Grande Deusa, Tu que te tornaste céu, Tu és poderosa e forte, bela e bondosa e a própria Terra se prosterna aos Teus pés. Tu abranges toda a criação nos Teus reluzentes braços e recebes as almas, tornando-as estrelas que embelezam a vastidão do Teu corpo”.

Cerridwen - A Guardiã do Caldeirão da Transmutação

Mulher sábia, anciã, mãe e mestra,

Você diminui a escuridão do céu e parteja o nascer do sol,

Possuidora de energia e sabedoria,

Criadora do movimento e do significado,

Dai-me da sua força, ensine-me sua sabedoria.

No seu grande caldeirão Awen,

Eu experimento sua magia e conheço seu poder,

Eu transformo minha forma e aprendo com seu conhecimento.

Assim, eu começo a minha busca e ouço a sua inspiração,

Para um novo começo, o fim e a inevitável morte,

Meu renascimento sendo guiado por você, Grande Cerridwen!

Michelle Skye: Goddess alive

Um dos símbolos mais antigos da mitologia celta é o "caldeirão da transmutação" honrado como mistério central da religião por simbolizar o renascimento do ventre da Deusa Escura (o ventre representado pelo caldeirão). Sua magia se devia à capacidade da transmutação, processada através de mudanças, experiências, desafios e o recebimento final da inspiração divina (denominada grael). Acreditava-se que o caldeirão era capaz de transformar a forma material em essência espiritual e de favorecer a preparação da bebida da imortalidade e da inspiração.

Denominado Awen no mito da deusa Cerridwen, o caldeirão era o receptáculo sagrado da sabedoria divina e do dom da inspiração, o meio mágico para a regeneração no ventre escuro da Deusa Anciã. Ele foi o precursor do Santo Graal, considerado uma fusão do caldeirão mágico do paganismo celta e do cálice do cristianismo. Cerridwen era uma deusa galesa, guardiã do caldeirão, dotada com a habilidade da metamorfose (assim como outras divindades celtas), profetisa e regente dos processos de vida, morte e regeneração. O elo entre a deusa Cerridwen e o caldeirão mágico foi descrito em um manuscrito do século XIII - “O livro de Taliesin” (que descrevia a vida do grande poeta galês do século VI) e também mencionado no poema épico galês Mabinogion. Em ambas as fontes, o nascimento do poeta é associado com circunstâncias sobrenaturais e elementos mágicos, ligados ao mito de Cerridwen.

Cerridwen representa a “Face Anciã” da Deusa Tríplice celta; seu nome tem como origem os termos galeses ceryd “admoestar com amor” e gwen “branco e abençoado”. Apesar da sua representação habitual como uma mulher velha, chamada de “A anciã da criação” ou simplesmente “A anciã”, ela era uma deusa que mudava sua forma, passando de jovem à mulher madura ou velha, incluindo também sua metamorfose em animais. Como deusa da fertilidade e abundância, ela era chamada de “Deusa soberana dos cereais”, a porca sendo seu animal totêmico e representando a fecundidade do mundo subterrâneo, bem como o poder materno (criador e destruidor, que dá e tira a vida).

Cerridwen é associada com a Lua, os dons de inspiração, a poesia, as profecias, a habilidade da metamorfose, o ciclo de vida e morte, sendo a guardiã da sabedoria e do conhecimento. É ao mesmo tempo Deusa parteira e protetora dos mortos, pois o mesmo poder que conduz os corpos para a morte traz a vida. No seu ventre gera-se a vida, mas a vida antecede a morte. Seu aspecto de Anciã representa o conhecimento de todos os mistérios que só a idade e a experiência podem proporcionar. Cerridwen é ao mesmo tempo uma Deusa do caos e da paz, do início e do fim, da harmonia e da desarmonia. Ela é a Deusa que devemos reverenciar nos momentos de dificuldades e para a transmutação dos desafios e malefícios.

No seu mito conta-se que ela vivia no meio do lago Bala, no Norte do País de Gales, junto com seu marido Tegid Foel e dois filhos gêmeos, a filha Creirwy (cujo nome significava luz, beleza) e o filho Morfran (“o corvo”) equivalente de Afagddu (feio, escuro). Enquanto a moça era de cor clara, alegre e dotada de uma beleza estonteante, o rapaz era deformado, feio, mal-humorado, com pele escura e corpo peludo. Os irmãos eram evidentes representantes das polaridades: luz e sombra, dia e noite, verão e inverno, céu e mundo subterrâneo.

Preocupada com a aparência do filho – que ela não podia mudar mesmo sendo uma deusa - e desejando que ele fosse aceito pela sociedade, Cerridwen decidiu preparar uma poção mágica no seu caldeirão, que lhe conferisse os dons da inspiração e sabedoria, tornando-se assim um renomado bardo. Como costumeiro nas magias celtas, a poção devia ferver e ser misturada sem parar durante um ano e um dia, condensada finalmente para três gotas que continham a sabedoria do mundo, o resíduo sendo apenas veneno. Para auxiliar nesta tarefa Cerridwen chamou duas pessoas: um rapaz chamado Gwion Bach para mexer no caldeirão e um velho cego- Morda para cuidar do fogo. Ambos assumiram suas tarefas sem reclamar, enquanto Afagddu não quis participar de nada.

Cerridwen começou a estudar manuscritos antigos sobre as propriedades das plantas e as configurações planetárias benéficas para favorecer o preparo da poção mágica. Ela juntou no caldeirão água de fontes sagradas, espuma do oceano, ervas e raízes mágicas colhidas em diferentes lugares, horas e estações, que iam favorecer o despertar da intuição e da inspiração. No final do período de um ano e um dia, Cerridwen colocou seu filho Afagddu na frente do caldeirão pedindo-lhe que ficasse atento quando o elixir ficasse concentrado e pronto para que as três gotas saltassem para fora. Desinteressado, Afagddu adormeceu, enquanto Cerridwen entrou em transe após recitar os encantamentos mágicos (ou em outra versão adormeceu exausta pelo trabalho demorado). Enquanto isso, Gwion mexeu com tanta força no caldeirão, que o líquido borbulhante espirrou e as três gotas caíram na sua mão; em seguida o caldeirão explodiu. Sentindo a dor da queimadura, o rapaz colocou instintivamente a mão na boca para buscar aliviar, mas no mesmo momento, ele adquiriu o conhecimento e toda a sabedoria do mundo, compreendendo todos os segredos do passado e do futuro. Outras fontes citam uma história diferente, em que Gwion empurrou Afaggdu que estava vigiando a poção e pegou as preciosas gotas ele mesmo, antes que o caldeirão explodisse devido ao resíduo do líquido transformado em veneno.

Enfurecida pela perda do precioso elixir que conferiu o dom de sabedoria para Gwion e não ao seu amado filho, Cerridwen correu atrás do rapaz, perseguindo-o sem cessar, mesmo depois da sua metamorfose em diversos animais. Cada vez que ele assumia a forma de um animal, ela se transformava no predador dele. A caça tornou-se uma guerra entre poderes mágicos, cada um dos oponentes se metamorfoseando em vários animais.

Gwion transformou-se numa lebre que fugiu rapidamente, enquanto Cerridwen assumiu a forma de um galgo ágil e correu atrás dele, quase conseguindo abocanhá-lo. Gwion conseguiu escapar e correu para um rio onde se tornou peixe, enquanto Cerridwen assumiu a forma de uma lontra, que o perseguiu sob a água até que ele se viu forçado a transformar-se num pássaro e alçou voo. Ela, transformada em falcão com garras fortes e visão aguçada, o seguiu sem parar e não lhe deu descanso no ar. E quando estava prestes a alcançá-lo, cansado da perseguição e temendo pela própria vida, Gwion avistou um monte de trigo peneirado no solo de um celeiro e mergulhou no meio da pilha, transformando-se num dos grãos, certo de que Cerridwen não ia reconhecê-lo. Porém ela, sem sentir cansaço e atiçada pela caça, aguçou sua vista e se transformou numa galinha negra, que ciscou no trigo, encontrou o fugitivo e o engoliu.

Nove meses e dez lunações depois, da semente engolida e gestada no ventre de Cerridwen, nasceu um lindo menino. Apesar da decisão de matá-lo assim que nascesse Cerridwen ficou tocada pela sua beleza e seu ar radiante; comovida o embrulhou em uma bolsa de pele de foca e depois o jogou no mar. Alguns dias depois, o príncipe celta Elphin passeando na beira mar ouviu um choro de criança e salvou o belo menino; impressionado pela sua aparência radiante deu-lhe o nome Taliesin, que significava “testa alta e brilhante”. Quando adulto Taliesin tornou-se o legendário bardo galês, dotado de uma fantástica sabedoria e inspiração, sendo conselheiro de reis, exímio mago e honrado como a genuína encarnação da sabedoria druídica. Sendo ao mesmo tempo um arquétipo sobrenatural amalgamado com uma figura histórica, Taliesin considerava sua sabedoria como um dom divino, uma coletânea de memórias de todas as suas encarnações anteriores.

A caça e as metamorfoses seguidas têm intrigado durante séculos estudiosos de história e mitologia. Uma das teorias interpreta os obstáculos como o empenho e a determinação do discípulo para alcançar as metas do treinamento mágico imposto pelo mestre. O período de um ano e um dia era o tempo de estudo exigido pelos mestres celtas antes da iniciação ou passagem de grau dos seus discípulos. Era também um prazo usado em vários trabalhos mágicos e em determinados procedimentos legais na antiga sociedade celta. Cerridwen na realidade estava treinando Gwion, testando o seu real valor e potencial, superando sua própria raiva e frustração para melhor conhecer e aceitar o futuro papel de Gwion nas lendas celtas. Outra explicação encontrada em algumas fontes associa os animais da caça com alguns dos totens dos clãs celtas, simbolizando força e habilidade dos guerreiros nas batalhas. O peixe - ou melhor, o salmão - a lebre, o falcão, a lontra e os pássaros são animais mágicos celtas. Os grãos são a essência do deus agrícola, que se sacrifica e entrega seu poder e força para que as espigas cresçam. Todavia, o galgo e a galinha não possuem poderes mágicos, portanto esta teoria é desprovida de fundamento mítico. Uma prática celta para adivinhação que constava em fazer oferendas para as divindades, comer carne crua e depois chupar o polegar - chamada Imbas Forosnai-, talvez tenha sido inspirada pelo mito de Cerridwen e Gwion. No relato mítico do herói irlandês Finn Mc.Cool, conta-se que ele adquiriu a sabedoria lambendo seu dedo queimado enquanto assava um salmão (o animal totêmico celta detentor da sabedoria).

A sacerdotisa e pesquisadora Jhenah Telyndru - no seu livro Avalon within - compara a caça com os diferentes estágios da transformação da alma, progredindo das sombras do inconsciente para a vontade consciente. Neste cenário cada par de animais é associado a um elemento. A lebre e o galgo pertencem à terra, o peixe e a lontra, à água, o pássaro e o falcão ao ar e a galinha e o grão, ao fogo. As transformações e seus elementos correspondentes simbolizam o desenrolar da vida individual. Ar seria o nascimento, fogo, a juventude, água, a maturidade e a terra, velhice e morte. Por ter renascido do ventre de Cerridwen após a sua morte, Gwion simboliza a crença celta na reencarnação ou a volta do espírito para a terra, assumindo outro corpo e forma.

O prazo de um ano e um dia é uma referência ao calendário pagão formado de 13 meses lunares de 28 dias cada, somando 364 dias e acrescentando mais um dia para o total de 365. Este mesmo prazo aparece em muitas outras lendas, mitos e contos de fadas e levou à perseguição cristã do número 13, considerado de mau augúrio e associado à bruxaria. No entanto, a tradição pagã persistiu em muitos nomes e símbolos como os famosos “13 Tesouros da Bretanha”, possivelmente símbolos lunares, associados às constelações zodiacais e descritos como: espada, cesto, chifre para beber, carruagem, faca e pedra para afiar, caldeirão, tacho, corda, travessa, tábua de xadrez, vestuário, manto. Os treze meses do calendário menstrual eram representados nas paredes do templo de Tarxien em Malta como uma porca com 13 tetas, semelhante à descrição celta de Cerridwen como “a Porca Branca”.

O mito de Cerridwen e o seu caldeirão mágico retrata a crença galesa de que, para que a verdadeira inspiração divina se manifestasse no mundo, era necessária a morte e o renascimento. O ventre de Cerridwen, assim como o seu caldeirão, tinha o potencial de gerar todas as manifestações da criação, sendo o começo e o fim da vida. Cerridwen é ao mesmo tempo uma criadora e iniciadora, na realidade ela é o próprio receptáculo do renascimento, pois engoliu Gwion e depois lhe deu a vida; o simbolismo do grão comido pela galinha é uma alegoria da semente enterrada na terra para renascer. Ao beber as três gotas proibidas, Gwion teve a visão perfeita da divindade representada por Cerridwen. Perseguido e castigado pela Deusa ele não pode morrer realmente pois tem o conhecimento perfeito; por isso a deusa o ingere na forma de grão de trigo e ele se integra à divindade de Cerridwen. Quando Gwion se apodera dos segredos de Cerridwen representados pelas três gotas se produz um caos comparável ao do nascimento. A partir desse momento, aparece a necessidade de reconstruir a unidade perdida, a necessidade de voltar atrás, até a mãe, e dessa forma se produzirá um "novo nascimento". Gwyon Bach não morre, ele volta para o ventre da mãe para um novo amadurecimento, fecunda a própria mãe e renasce pela segunda vez como Taliesin, o bardo que conhece os segredos do mundo e da divindade.

Essa narração, embora seja da época cristã, é baseada na crença arcaica de que o homem nada tem a ver com o fenômeno do parto, que é função específica da mulher. O homem não era considerado pai dos filhos no sentido que nós damos agora a esse termo, pois antigamente se desconhecia a paternidade fisiológica e o pai era completamente alheio ao nascimento dos filhos. Característica de uma sociedade que consideramos primitiva (no sentido pejorativo da palavra) na verdade esta crença representa um estágio de uma civilização que não era pior do que o paternalismo da civilização romana, ou os nossos conceitos atuais. Na sociedade matrilinear, o pai não desfrutava de nenhum privilégio em relação aos filhos e não tinha, portanto, direito ao seu afeto, precisando se empenhar para ganhá-lo. Por outro lado, não tendo as responsabilidades financeiras que envolviam uma família, se sentia mais livre para deixar que seus instintos paternais se desenvolvessem. Na sociedade paternalista que insiste sobre o papel biológico do pai, se reforçam todos os conflitos de natureza edípica, destruindo o equilíbrio da sociedade matrilinear que promovia para o pai uma relação desinteressada, isenta de toda autoridade e buscando o amor. Além disso, as sociedades paternalistas consideram até hoje a mulher como uma máquina de prazer ou de procriação e insistem sobre a sacrossanta virgindade das jovens.

A caça mágica enfatiza o papel de Cerridwen no ciclo natural de nascimento, morte e renascimento. Seu movimento não é caótico, mas medido e em forma de círculos. Ela e seu caldeirão representam o começo e o fim, a madrugada luminosa e a escuridão da noite; ela é a força que nos ajuda nascer de novo, superando decepções, frustrações, doenças e morte. Espiralando eternamente, Cerridwen lembra-nos que de cada fim nasce um começo e que cada começo tem um fim, vida e morte sendo apenas aspectos do cosmos rodopiando e mudando eternamente. A sua mensagem é: “cada fracasso contém em si um sucesso”. Um antigo canto celta para a invocação de Cerridwen - usado até hoje - é originário da Escócia, sem que se saiba a data exata ou o significado das palavras. Sua finalidade visava invocar o poder de Cerridwen no corpo, na alma e no espírito, para que a pessoa se tornasse um canal aberto para deixar passar a energia da deusa:

Amores Cerridwen

Calami carbones stultorum moenia chartee

Calami carbones stultorum moenia chartee

A aparição de Cerridwen na vida de alguém (em sonhos, presságios ou visões) prenuncia situações de morte e renascimento, algo deve morrer e deve ser deixado para trás, para que o novo possa renascer; a matéria não pode ser criada ou destruída, mas é sujeita a transformações. A dança das estações nos ensina como viver plenamente, aceitando todas as faces da existência, que incluem a morte e o renascimento. A plenitude é vivida quando temos a consciência de que cada passo que damos na vida é também um passo para a morte e o renascimento. Seremos plenos e conscientes quando aceitarmos a nossa dança com a morte e o renascimento. Fazemos parte do processo cósmico de reciclagem e devemos aceitar que o fim faz parte da nossa vida, assim como o começo. Precisamos ter coragem para o desapego (de medos, hábitos, situações ou emoções negativas); iremos receber de volta aquilo que deixamos ir, transmutado para uma forma mais benéfica e abundante, o que irá aumentar o nosso poder e expandir a nossa consciência.

Mergulhando no caldeirão de Cerridwen poderemos alcançar nossos objetivos, encontrar a força para superar adversidades, transmutar os bloqueios e os medos e encontrar a luz no momento da morte. Não devemos encarar a morte como o fim, mas como um renascimento. Quando aprendermos a abrir mão de certas coisas e situações, estaremos aprendendo a morrer espiritualmente, de várias pequenas maneiras ao longo da vida. No momento da morte, o ato de abrir mão se multiplica milhares de vezes e a liberação proporciona uma conexão divina totalmente nova. Os místicos ensinam que para poder mergulhar na presença divina é necessário exercitar o desprendimento A totalidade só é conquistada no momento em que aceitarmos entrar na dança da morte e do renascimento.

Eu lhe dou a vida e lhe dou também a morte,

Fases que fazem parte de tudo o que vivencia ao longo da espiral,

O caminho espiralado é a própria existência,

Sempre seguindo, sempre crescendo e mudando,

Nada morre que não renascerá, nada existe que não vá morrer.

Quando você vem a mim, eu lhe dou as boas vindas,

E depois a recebo no meu ventre, o caldeirão da transmutação,

Onde você será mexida e virada, fervida e triturada,

Derretida e amassada, reconstituída e reciclada.

Você sempre voltará a mim e seguirá o seu ciclo, renovada.

Morte e vida são apenas pontos de transição

Ao longo da Senda Eterna e Espiralada!

“Oráculo da Deusa” Amy Marashinski

Brigid, Deusa e Santa

BRIGID, DEUSA E SANTA.

“Brigid, mulher excelente, chama espontânea dourada e flamejante, brilho do sol radiante, conduza-nos para o reino divino”.
Do hino irlandês Brigid be Bithmaith

Não há como duvidar do extenso culto – antigo e atual – dedicado a Brigid. Ela é um arquétipo poderoso no mundo contemporâneo, que ultrapassa barreiras religiosas ou filosóficas. Seu poder alcança tanto os adeptos do neopaganismo (druidismo, Wicca, seguidores da Tradição da Deusa) que a cultuam no Sabbat Imbolc como uma Deusa Tríplice, padroeira das artes, cura e magia, bem como os cristãos, que a reconhecem como uma mulher real, santificada e venerada, cujos milagres continuam a acontecer até hoje.

A deusa Brigid foi descrita em mitos, lendas, biografias e histórias como uma mulher extraordinária, poderosa, amorosa e enérgica, com traços contraditórios, mesclando fogo e água, determinação e compaixão, cura e combate, virgindade e maternidade, centrada e dedicada na sua missão de proteger e cuidar do seu povo. Para os seus seguidores pagãos, ela é a Deusa Tríplice, padroeira da arte, cura e magia, Senhora do fogo sagrado e das fontes curativas. Para os cristãos, ela é Santa Brigid, uma mulher simples, mas que pela sua vida pura, sua fé e a doação irrestrita para auxiliar doentes e pobres, pode vir a alcançar a santidade. Para os poetas e artistas, ela é a Musa, que os inspira e conduz para a fonte da criatividade. Para os camponeses, ela era a protetora dos rebanhos e da fertilidade da terra, regente da prosperidade, associada às colheitas e ao gado.

A data exata do início do seu culto pagão é desconhecida, acredita-se que foi há milênios, sendo uma das deusas mais antigas, “contemporânea” com Inanna, Ishtar, Ísis, Hera, Gaia, Freyja. A Irlanda pagã foi formada por uma amalgamação de povos indígenas, os construtores dos monumentos neolíticos e as tribos celtas, que chegaram em várias ondas migratórias entre o século VII a.C. e o primeiro d.C. Não se sabe ao certo qual é a sua verdadeira origem, nem a antiguidade do seu culto. Porém, independentemente das suas raízes históricas ou geográficas, seu culto floresceu na Irlanda, Escócia e Bretanha e seu nome imortalizado em várias fontes na França, Espanha, Suécia. Adaptado para a figura cristã da santa, este culto persiste até hoje e centenas de lugares e pessoas na Irlanda guardam seu nome e seus costumes.

A tradição oral celta preservou muitos mitos, lendas e poemas, mas com o passar do tempo e as contínuas guerras, muito do legado ancestral foi perdido. Suas lendas permaneceram ao longo de gerações, transmitidas pelos bardos e poetas (filid) e, mesmo truncadas ou distorcidas pelos monges e historiadores cristãos, preservaram fragmentos da sua esquecida sabedoria e poder. Muitas das lendas da Santa são compilações dos mitos da Deusa, mescladas com elementos cristãos, com o propósito de atrair os pagãos celtas para o cristianismo. Referências escritas apareceram apenas séculos depois da sua morte, reunindo histórias confusas sobre sua suposta identidade, considerando-a ora como a parteira e madrinha de Jesus (que nasceu séculos após) e invocada pelas parturientes, ora a própria Maria. A Deusa foi transformada em Santa a fim de legitimar e promover a conversão para a nova religião, um passo importante para estabelecer a mudança de costumes. O antigo templo de fogo de Kildare da deusa na Irlanda, destruído pelas guerras e os saques, foi recuperado e transformado em catedral da santa. A sua chama sagrada, depois de extinta pela perseguição reformista, foi acesa novamente e continua sendo mantida até hoje pelas freiras da ordem Brigidina.

Os inúmeros nomes da deusa Brigid originaram-se nos vários lugares do seu culto, assim como suas representações: Breo Saighit, a “Flecha Ardente” celta (o nome que melhor representa o poder da sua chama sagrada), a escocesa Bride, a irlandesa Brigid , Brighd ou Bhrid, a gaélica Brighid (pronuncia-se Breed), a inglesa Brigantia, cultuada nas terras do Norte da Inglaterra e parte da França e Espanha (o seu aspecto de Guerreira, com flecha e cetro, mas também mediadora da paz), Brigandu na Gália, Bridget na Suécia, Briid ou Brede na Ilha de Man, Ffraid no País de Gales e Mary of the Gael nos poemas.  Tão diversos quanto os nomes são os seus títulos, que descrevem seus atributos: Brigid, a Vitoriosa, Guerreira imortal, Rainha do Povo das Fadas, Mãe das canções e poesias, Senhora das fontes, Chama do coração das mulheres, Fogo que arde sem deixar cinzas, Mãe da sabedoria, A mais elevada, Deusa da cura com manto verde e cabelos vermelhos.

Em algumas lendas Brigid aparece como filha dos deuses arcaicos da terra Dagda e Danu (ou Boann), fazendo parte do povo sagrado Tuatha de Dannan. Em outros mitos é considerada consorte de Dagda ou de Bres, o “Lindo Guerreiro” (descendente dos Fomorians, a raça que regeu a Irlanda antes dos Tuatha de Danaan), ou sendo “Senhora do mar”, filha do deus do oceano Lir. Da sua união com Bres teria tido um filho - Ruadan- que representava a mescla das energias dos seus genitores: Danaan e Fomorian. Na maioria dos mitos prevalecem, no entanto, suas características de deusa virgem, guardiã da tocha e da lareira, protetora das mulheres e dos caminhos, sua energia sendo ígnea, direta, rápida, iluminadora e vitalizadora.

Brigid é o raio do relâmpago ou a chama do fogo que ilumina a terra, deixando atrás um rastro de luz ou clareza nas mentes e corações humanos. Às vezes é vista como a face jovem da Deusa, Danu ou Cerridwen sendo a Mãe e Cailleach a Anciã, que cede seu lugar para Brigid no Sabbat Imbolc, substituindo o frio do inverno pelas promessas da primavera, trocando o cetro de gelo pelo ramo verde. O seu aspecto de regente das fontes permaneceu no culto da deusa Sulis, adotada pelos romanos como Sulis Minerva e cultuada nas antigas termas de Aquae Sulis, atual cidade inglesa de Bath, onde a energia dela ainda pode ser percebida na fonte subterrânea, repleta de oferendas dos visitantes.

Brigid foi equiparada a várias deusas: com Juno pela tribo dos Brigantes, com Minerva, Hécate, Héstia, Vesta, Ártemis, Diana, Tanit e Sulis pelos romanos. Existem semelhanças entre o mito de Brigid e os de algumas deusas solares como Lucina, a padroeira romana da luz, a báltica Saule e a nórdica Sunna. Algumas lendas celtas atribuem a Brigid uma dupla apresentação: donzela e anciã, Brigid e Cailleach, primavera e inverno, dualidade semelhante às gregas Perséfone e Deméter. Como uma Tuatha de Danaan ela era ligada aos Sidhe, o “Povo das Fadas”, sendo a sua rainha; ela usava como emblema um manto verde, um cinto mágico e uma coroa de ouro. Foi ela quem implantou o keening, os lamentos das vigílias irlandesas que pranteavam os mortos. Nas lendas arturianas, Brigid é descrita como a Guardiã da macieira sagrada de Tir nan Gog, “a terra das mulheres ou da juventude” e a maga artesã que forjou a espada Excalibur. Ela era descrita como doadora da vida e parteira, poeta e artesã, curadora e guerreira, fada e soberana, maga e profetisa, uma figura mítica e multifacetada, que transita entre realidade e fantasia. O arquétipo complexo e múltiplo de Brigid - a mais cultuada das deusas celtas – também amalgamou vários aspectos das antigas deusas irlandesas como Boann, Danu, Macha, Morrigan. Mas ela é uma divindade tão intensamente relacionada com a sacralidade feminina, que a nenhum homem era permitido ultrapassar a cerca ao redor do seu santuário.

Deusa soberana e provedora da terra, guardiã do fogo celeste e telúrico, regente das fontes e ervas curativas, ficou mais conhecida como uma “Deusa Tríplice”, regente das artes (poesia, canto, artesanato, tecelagem, metalurgia, joalheria), da cura, fertilidade, purificação e renovação pela água (pelas fontes e os mistérios das ervas), da magia, oráculos e profecia. Como “Senhora do Fogo Tríplice” ela regia a inspiração (sendo a Musa), a forja (padroeira da metalurgia e das artes marciais), a tocha e a lareira (protetora das casas, das mulheres, famílias e dos viajantes). Nas imagens, Brigid aparece como uma jovem com cabelos ruivos, segurando uma chama, junto de seus animais totêmicos (vaca branca com orelhas vermelhas, cisne, peixe, ovelha, javali ou serpente) ou perto de uma fonte. Outra apresentação é como uma tríade de deusas, cada uma segurando o símbolo dos seus dons (tocha ou chama, ferramentas, cálice cercado com serpentes entrelaçadas ou ervas curativas).

Brigid era honrada como “Senhora dos Bardos” pelos seus dons de inspiração, criatividade, encantamento, fluidez e graça. Para os antigos celtas o fogo era a fonte da inspiração, a iluminação divina procurada pelos poetas, bardos e magos. As suas criações – poemas, canções, histórias, lendas - eram compartilhadas com os demais ao redor de fogueiras, para assim lembrar e honrar os antigos caminhos, mantendo viva a memória da tribo e a reverência dos ancestrais. No fim do inverno, a família ou o clã se reunia próximo ao fogo ou à lareira (buscando o aconchego da chama de Brigid, deusa mãe e protetora do lar), quando o músico, poeta ou o contador de histórias reanimava as pessoas enfraquecidas pelo frio com canções, poemas, relatos e sagas de heróis. Por serem faladas e não escritas, estas histórias eram transitórias na sua natureza e assim como o fogo, não podiam ser dominadas por aqueles que não tinham preparo; o uso das palavras exigia reverência e competência, habilidades além do alcance dos não iniciados. Por isso Brigid foi associada com as propriedades etéreas de todos os tipos de fogo (Imbas) - da forja, da lareira e fogueira, do sol, da transmutação, da cura e do sopro mágico. O fogo era visto pelos celtas como uma energia espiritual latente em todas as coisas e inerente a certos processos cognitivos do intelecto humano, bem como a alguns estados emocionais como paixão, caridade, amor, etc.

A inspiração e a poesia eram associadas pelos celtas também com a água, outro domínio de Brigid, reverenciada como “Senhora das fontes sagradas”, que uniam simbolicamente o mundo subterrâneo, mediano e o superior, por nascerem na escuridão da terra, fluírem para a superfície e refletirem a luz do céu. Da mesma forma, as ideias e visões ocultas do subconsciente podiam ser reveladas pela inspiração e intuição, energias sutis que fluíam livremente para a mente consciente e racional.

Uma composição de personagens dos mitos irlandeses e galeses deu origem à Santa, cujo principal título era ”Brigid, a santa do manto verde e cabelos de ouro (ou fogo)”, traços marcantes das imagens da Deusa. Ela supostamente nasceu entre 439-452 e morreu entre 518-525 da nossa era,  sendo filha de um druida e uma escrava pagã. Seu nascimento foi cercado de fenômenos estranhos (a presença de dois sois no céu) e aconteceu quando sua mãe passava pela soleira da casa, trazendo a ideia dos limiares e fronteiras, considerados lugares sagrados para os celtas. Os que presenciaram o nascimento deste bebê de mística beleza puderam relatar que da sua cabeça surgiam chamas de cor vibrante, como se fosse uma coroa de raios solares.  Alguns dias depois, os vizinhos alarmados viram labaredas saindo da casa em que os pais de Brigid moravam; mas chegando lá, encontraram a menina dormindo tranquila no seu berço e sem nenhuma marca do fogo. Enquanto criança, Brigid recusava qualquer tipo de comida além do leite de uma vaca branca com orelhas vermelhas (cores atribuídas aos animais do “povo das fadas”). Quando jovem ela era uma moça generosa, doando seus pertences e comida aos pobres, sem se interessar em namorar ou casar, almejando apenas a vida religiosa. Era amiga e seguidora dos ensinamentos de São Patrício (o missionário que cristianizou Irlanda). Quando o seu pai permitiu que se dedicasse à vida monástica, foi consagrada diretamente como abadessa em lugar de ser ordenada como simples freira, devido a uma falha inexplicável do oficiante, que recitou o juramento errado (sendo vista nesta hora uma coroa de chamas cercando a cabeça de Brigid).

Brigid se empenhou em criar uma comunidade de mulheres, junto com outras dezenove noviças em Cill Dara, “a igreja de carvalho” (atual Kildare), na Irlanda, que foi crescendo até se transformar em um grande mosteiro, o primeiro centro irlandês de estudos e artes, que incluía trabalhos com metais e ilustração dos manuscritos antigos. Lá, as mulheres dos arredores aprendiam como cuidar de pobres e doentes, auxiliar as gestantes e parturientes, curar com ervas e a energia das mãos, fiar, tecer, bordar, abençoar, fazer encantamentos e predições. A vida de Brigid foi repleta de milagres como: a cura de doenças com o toque das suas mãos, a multiplicação da comida (leite, manteiga, grãos, cerveja), o encontro de animais extraviados e a descoberta dos ladrões; o mais famoso fato mágico foi quando pendurou seu manto molhado sobre um raio de sol. Quando Brigid foi pedir mais terra para sua comunidade ao rei, ele lhe concedeu uma área que o seu manto pudesse cobrir. Brigid tirou seu manto e quando o estendeu, ele cobriu uma enorme área ao redor, que lhe foi depois concedida pelo rei, impressionado com este milagre. Como ferrenha defensora das mulheres, Brigid educava as jovens para seguirem uma profissão, libertava escravas, incentivava esposas maltratadas para pedirem divórcio, auxiliava nos partos ou abortos. Todos estes atos de poder reproduziam os atributos da Deusa: fertilidade, abundância, cura, comunicação com animais, auxílio permanente dado às mulheres e parturientes, aos pobres e doentes.

Após a sua morte, o fogo do seu templo continuou aceso, guardado cada dia por uma das dezenove sacerdotisas ou freiras da sua ordem; na vigésima noite era a própria Brigid que o cuidava. O fogo requeria muita lenha, porém as cinzas dele não aumentavam jamais. A preservação da chama sagrada de Brigid foi mantida pelas freiras até que o seu culto foi proibido mil anos depois. Ela foi enterrada num caixão de ouro e prata em Kildare, mas depois, devido aos saques das incursões Vikings, seus ossos foram levados para o túmulo do Santo Patrício, porém despareceram algum tempo depois. Algumas das suas relíquias ainda existem em igrejas e museus como seu manto verde na Bélgica, seus sapatos no museu de Dublin e outros objetos em lugares mais distantes, que a santa viva jamais percorreu. Santa Brigid é padroeira da Irlanda (junto com São Patrício), das ordens das freiras irlandesas e de Nova Zelândia. Mesmo como santa, ela continua sendo - assim como a deusa - protetora dos agricultores, fazendeiros e criadores de gado, ferreiros, curandeiras e parteiras, crianças e mulheres, poetas, artistas e escritores (que começavam seus escritos com a frase gaélica Adjuva Brigitta, “ajude Brigid”).

A sua representação como Santa tem elementos reais e míticos, alguns historiadores negam a sua real existência, mas foi através dela que a Igreja cristã celta permitiu a perpetuação - de maneira velada e modificada–do culto da deusa Brigid, que, por não poder ser erradicado, foi readaptado pela igreja e transformado para a reverência atual da Santa. Na Irlanda, 1500 anos depois da morte de Brigid, sua memória permanece viva nos corações dos seus fiéis e seus símbolos continuam sendo confeccionados e usados, mesmo que nem todos os que os confeccionam e usam conheçam seu significado sagrado. Tendo feito a transição da condição de Deusa para Santa, preservando o nome, os símbolos e costumes antigos, a figura de Brigid representa uma ponte (bridge em inglês) entre paganismo e cristianismo, continuando como guardiã da sacralidade feminina.

O Sabbat Imbolc da Roda do Ano celta se originou de um antigo ritual de bênção da terra (honrada como ”o ventre da deusa”), feito na chegada da primavera, antes do campo ser semeado, para propiciar fertilidade e proteção. Grãos e espigas da colheita anterior eram usados como oferendas nesta celebração e depois de abençoados com água de uma fonte sagrada, eram misturados com as sementes destinadas ao próximo plantio. Imagens de Brigid eram levadas em procissão para abençoar os campos e atrair a fertilidade, costume preservado mesmo após a cristianização e perpetuado até hoje pelos padres cristãos. Atualmente inúmeros peregrinos buscam as bênçãos de Brigid nos seus lugares sagrados como: Kildare (onde ainda existe sua antiga fonte, a catedral e uma nova igreja), Faughart (o lugar onde ela nasceu e onde vários locais são a ela associados), ambos na Irlanda e as Ilhas Hébridas (cujo nome é associado à Deusa). Glastonbury - na Inglaterra - é um lugar sagrado muito ligado ao arquétipo de Brigid, a forma do seu relevo topográfico parece um cisne (animal sagrado da Deusa), enquanto a pequena colina de Bride’s Mount e a gravura da Deusa (ao lado da sua vaca) sobre o portal da igreja na colina do Tor lembram a estadia da Santa durante algum tempo na cidade. Na fonte sacra de Chalice Well sacerdotisas do Goddess Temple realizam rituais e bênçãos no Sabbat Imbolc. Existem inúmeras fontes (chamadas Tobar Brighde e Clootie Wells) na Irlanda, Escócia, Grã-Bretanha, onde colares, rosários, tranças de fitas, cruzes de palha e pedaços de roupas dos doentes amarrados nas árvores ao redor, comprovam a continuidade do culto de Brigid, como Deusa e Santa, até hoje.

A conexão com Brigid no Sabbat Imbolc pode ser feita individualmente nas margens de um rio, cachoeira, córrego ou simplesmente em casa perto de uma fonte usada na decoração; visualiza-se a purificação pelo poder da água e pede-se à deusa a cura para algum problema específico (seu ou de familiares). Antigamente, as mulheres abriam as portas e janelas das casas pedindo para que Brigid entrasse e as abençoasse, o que pode ser feito também agora. No final da meditação, após agradecer à Deusa pela ajuda recebida, deve-se abençoar-se com água, riscando o símbolo sagrado de triskelion sobre si mesma. Uma antiga tradição irlandesa recomenda deixar um pedaço de pano de algodão (branco ou verde) perto da sua imagem no dia dedicado à celebração do Sabbat Imbolc (primeiro de fevereiro) pedindo à deusa para impregnar o pano com suas energias curadores. Guarda-se depois o pano envolvido em papel de seda para usá-lo quando precisar, colocando-o sobre a parte doente do corpo.

Um símbolo tradicional de Brigid pode ser confeccionado com palha seca ou espigas de trigo em forma de triskelion ou cruz de Brigid (Cros Bhrid), cujos modelos e técnicas de trançar se encontram na internet. Um antigo costume irlandês recomenda confeccionar uma figura feminina de palha para representar a Bhrid Doll. Esta boneca, feita tradicionalmente com as últimas espigas (de trigo
ou aveia) colhidas, era colocada perto da lareira na véspera de Imbolc, em uma cama de palha ou lã de ovelhas, junto com um bastão enfeitado com fitas, tudo cercado por velas acesas. Convidava-se assim a presença da Deusa para abençoar a casa e seus moradores. Antigamente esta boneca era depois enterrada junto com as sementes durante o plantio, mas atualmente, em Glastonbury, as mulheres que reverenciam e celebram Brigid guardam as bonecas por elas confeccionadas (Bride Doll) no Goddess Temple depois de abençoá-las na fonte sagrada de Chalice Well. A fileira de Bride Doll mostra as diversas representações  da inspiração e sabedoria femininas.

Nos grupos e círculos de mulheres Brigid é invocada para conferir criatividade, inspiração, poder mágico e a capacidade de manifestar ideias no mundo material. Para honrá-la, ou pedir sua ajuda ou proteção, usam-se velas laranja, que devem ficar acesas durante dezenove dias, reservando em cada dia um tempo para orar e visualizar seu projeto, sendo então abençoado por Brigid. Durante a meditação, podem aparecer visões e mensagens de Brigid; no final deste período deve ser feita uma oferenda de gratidão para ela (grãos, sementes, pão, mingau de aveia, mel, manteiga, leite, cerveja).

Os círculos de mulheres que seguem a Tradição da Deusa costumam realizar seus rituais de dedicação e iniciação na senda da sacralidade feminina em torno da data de Imbolc (conforme descrito no livro Círculos sagrados para mulheres contemporâneas).  Esta data representa um tempo propício para o plantio de novas sementes: da criatividade, dos novos projetos e realizações, de cura e renovação energética, de atração ou mudanças nos relacionamentos e das bênçãos nos caminhos espirituais. Podem ser abençoadas nesta data dezenas de velas para usar durante o ano, preparados altares com a imagem da Deusa, uma vela de cera, um cálice ou fonte com água, ervas aromáticas ou incenso, um pote com terra, símbolos (lua, cruzes solares, triskelion, pentagrama), objetos associados com a sua profissão, vocação e projetos futuros, oferendas de pão, grãos, leite, manteiga, mel e cerveja. Invoca-se Brigid na sua qualidade de protetora com esta simples oração, que pode ser repetida diariamente:

Brigid, deusa vitoriosa da luz,
Cubra-me com teu manto sagrado,
Vigie-me sempre com teus olhos,
Proteja-me com teu cajado,
De manhã e até anoitecer,
Por onde eu andar ou estiver,
De dia ou de noite, que eu seja sempre protegida,
Honrada, acolhida e favorecida,
Brigid, Deusa poderosa e protetora,
Fique ao meu lado e seja a minha companheira,
Minha conselheira, guardiã e defensora!

A Naoimh Bhrid Gui Orainn
(pronuncia-se A Nem Brid Gui Orin que significa “Santa Brigid ore por nós”!)

A Grande Mãe brasileira

Mirella Faur

O Brasil é o país que concentra o maior número de pessoas a cultuarem uma das manifestações da Grande Mãe como Iemanjá, a deusa ancestral das águas, Senhora do Mar. Só perde para a Índia, onde inúmeras deusas são cultuadas até hoje.

Anualmente, às vésperas do Ano Novo e no dia 2 de fevereiro, milhões de pessoas levam suas oferendas e orações para as praias brasileiras, ou saem em procissões marítimas ou fluviais, similares às antigas cerimônias egípcias e romanas – Navigium Isidi – dedicadas a Ísis, Deusa Mãe protetora dos viajantes e das embarcações.

Apesar da devoção brasileira a Iemanjá, seu culto não é nativo - ele foi trazido ao Brasil no século XIII pelos escravos da nação ioruba. Yemojá ou YéYé Omo Ejá, a “Mãe cujos filhos são peixes”, era o orixá dos Egbá, a nação ioruba estabelecida outrora perto do rio Yemojá, no antigo reino de Benin. Devido a guerras, os Egbá migraram e se instalaram às margens do rio Ogun, de onde o culto a Iemanjá foi trazido pelos escravos para o Brasil, Cuba e Haiti.

Nesses países, Iemanjá passou a ser venerada como a “Rainha do Mar”, orixá das águas salgadas, apesar de sua origem ter sido “o rio que corre para o mar”, sua saudação sendo Odo-Yiá, que significa “Mãe do Rio”.

Analisando os nomes Ya / man / Ya e Ye / Omo / Ejá conforme a “Lei de Pemba” – a grafia sagrada dos orixás, postulada pela Umbanda Esotérica, encontram-se os mesmos vocábulos sagrados que significam “Mãe das águas, Mãe dos filhos da água (peixes) e Mãe Natureza”.

Iemanjá é considerada pela Umbanda Esotérica como uma das sete Vibrações Originais, o princípio gerador receptivo, a matriz dos poderes da água, a representação do eterno e Sagrado Feminino. Portanto, Iemanjá personifica os atributos lunares e aquáticos da Grande Mãe, de padroeira da fecundidade e da gestação, inspiradora dos sonhos e das visões, protetora e nutridora, mãe primeva que sustenta, acalenta e mitiga o sofrimento dos seus filhos de fé.

No entanto, por mais que Iemanjá seja reconhecida e venerada no Brasil, ela não representa a Mãe Ancestral nativa, que tenha sido cultuada pelas tribos indígenas antes da colonização e da chegada dos escravos.

Infelizmente, muito pouco se sabe a respeito das divindades e dos mitos tupi-guarani. A cristianização forçada e a proibição pelos jesuítas de qualquer manifestação pagã, destruiu ou deturpou os vestígios de Tuyabaé-cuáa, a antiga tradição indígena, a sabedoria dos velhos payés.

Segundo o escritor umbandista W.W. da Matta e Silva e seus discípulos Rivas Neto e Itaoman, a raça vermelha original tinha alcançado, em uma determinada época distante, um altíssimo patamar evolutivo, expresso em um elaborado sistema religioso e filosófico, preservado na língua-raiz chamada Abanheengá, da qual surgiu Nheengatu, a “lingua boa”, origem dos vocábulos sagrados dos dialetos indígenas.

Com o passar do tempo, a raça vermelha entrou em decadência e, após várias cisões, seus remanescentes se dispersaram em diversas direções. Deles se originaram os tupi-nambá e os tupi-guarani, que se estabeleceram em vários locais na América do Sul.

As concepções do tronco tupi eram monoteístas, postulando a existência de uma divindade suprema, um divino poder criador (às vezes chamado de Tupã) que se manifestava por intermédio de Guaracy (o Sol) e Yacy (a Lua) que, juntos, geraram Rudá (o amor) e, por extensão, a humanidade. O culto a Guaracy era reservado aos homens, que usavam os tembetá, amuletos labiais em forma de T, enquanto as mulheres veneravam Yacy e Muyrakitã, uma deusa das águas, e usavam os amuletos em forma de batráquios e felinos, pendurados no pescoço ou nas orelhas.

Guaracy era a manifestação visível e física do poder criador representado pelo Sol. Apesar deste astro ser considerado o princípio masculino na visão dualista atual, a análise dos vocábulos nheengatu do seu nome revela sentido diferente. Guará significa “vivente”, e cy é “mãe”, o que formaria a “Mãe dos seres viventes”, a força vital que anima todas as criaturas da natureza, a luz que cria a vida animal e vegetal. Também em outras tradições e culturas (japonesa, nórdica, eslava, báltica, australiana e nativa americana), o Sol era considerado uma Deusa, o que nos faz deduzir que, para os tupi, a vida e a luz solar provinham de uma Mãe - Cy - que só mais tarde foi transformada em Pai.

Yacy era a própria Mãe Natureza, seu nome sendo composto de Ya (senhora) e Cy (mãe), a senhora Mãe, fonte de tudo, manifestada nos atributos da Lua, da água, da natureza, das mulheres e das fêmeas.

Cy - ou Ci - representa, portanto, a origem de todas as criaturas, animadas ou não, pois tudo o que existe foi gerado por uma mãe que cuida da sua preservação, do nascimento até a morte. Sem Cy (mãe), não há nem perdura a vida, pois ela é a Mãe Natureza, o principio gerador e nutridor da vida.

Na língua tupi existem váris nomes que especificam as qualidades maternas: Yacy, a Mãe Lua; Amanacy, a mãe da chuva; Aracy, a mãe do dia, a origem dos pássaros; Iracy, a mãe do mel; Yara, a mãe da água; Yacyara, a mãe do luar; Yaucacy, a mãe do céu; Acima Ci, a mãe dos peixes; Ceiuci, a mãe das estrelas; Amanayara, a senhora da chuva; Itaycy, mãe do rio da pedra, e tantas outras mães – do frio e do calor, do fogo e do ouro, do mato, do mangue e da praia, das canções e do silêncio.

As tribos indígenas conheciam e honravam todas as mães e acreditavam que elas geravam seus filhos sozinhas, sem a necessidade do elemento masculino, atribuindo-lhes a virgindade - o que também em outras culturas simbolizava sua independência e autossuficiência. Em alguns mitos e lendas, as virgens eram fecundadas por energias numinosas em forma de animais (serpente, pássaro, boto), forças da natureza (chuva, vento, raios), seres ancestrais ou divindades.

A explicação da omissão, na mitologia indígena, do elemento masculino na criação era o desconhecimento do papel do homem na geração da criança, além do profundo respeito e reverência pelo sangue menstrual que, ao cessar “milagrosamente”, se transformava em um filho. Somente pela interferência dos colonizadores europeus e pela maciça catequese jesuíta que, na criação do homem, o Pai assumiu um papel preponderante, o Filho tornou-se o segundo na hierarquia, salvador da humanidade - como Jurupary, e à Mãe coube apenas a condição de virgem (como Chiucy).

Porém, apesar do zelo dos missionários para erradicar os vestígios dos cultos nativos da cultura indígena e dos escravos, muitas de suas tradições sobrevivem nas lendas, nos costumes folclóricos, nas práticas da pajelança e encantaria que estão ressurgindo, cada vez mais atuantes, saindo do seu ostracismo secular.

Outro arquétipo da Mãe Ancestral é descrito no mito amazônico da Boiúna, a Cobra Grande, dona das águas dos rios e dos mistérios da noite. Apresentada como um monstro terrível que vive escondido nas águas escuras do fundo do rio e ataca as embarcações e pescadores, a Boiúna ou Cobra Maria é, na verdade, a Face Escura da Deusa, a Mãe Terrível, a Ceifadora, que tanto gera a vida no lodo como traz a morte, no eterno ciclo da criação, destruição, decomposição e transformação.

Outro aspecto da Mãe Escura é Caamanha, a “Mãe do Mato”, que protege as florestas e os animais silvestres, e pune, portanto, os desmatamentos, as queimadas e a violência contra a Natureza. Pouco conhecida, ela foi transformada em dois personagens lendários: Curupira e Caapora. Descritos como seres fantasmagóricos, peludos, com os pés voltados para trás, às vezes com um aspecto feminino, são os guardiões das florestas, que levavam os caçadores e invasores do seu habitat a se perderem nas matas, punindo-os com chicotadas, pesadelos ou até mesmo a morte.

Nas lendas guarani relata-se a aparição da “Mãe do Ouro”, que surge como uma bola de fogo ou manifesta-se nos trovões, raios e ventos, mostrando a direção da mudança do tempo. Em sua representação antropomórfica, ela torna-se uma linda mulher que reside em uma gruta no rio, rodeada pelos peixes e de onde se estende nos ares como raios luminosos, ou então surge na forma de uma serpente de fogo, punindo os destruidores das pradarias.

Em sua versão original, ela era considerada a guardiã das minas de ouro, que seduzia os homens com seu brilho luminoso, afastando-os das jazidas. Seu mito confunde-se com o do Boitatá, uma serpente de contornos fluídicos, plasmada em luz com dois imensos olhos, guardando tesouros escondidos, reminiscência dos aspectos punitivos da Mãe Natureza, defendendo e protegendo suas riquezas. A deturpação cristã do mito punitivo pode ser vista na figura da “Mula sem Cabeça”, metamorfose da concubina de padre, que assombra os viajantes nas noites de sexta-feira (dia dedicado, nas culturas pagãs, às deusas do amor, como Astarte, Afrodite, Vênus, Freyja) e do Teiniágua, lagarto encantado que se transforma em uma linda moça para seduzir os homens, desviando-os dos seus objetivos.

Quanto ao significado esotérico de Muyrakitã, devemos decompor seu nome em vocábulos para compreender sua simbologia feminina: Mura - mar, água; Yara - senhora, deusa; Kitã - flor. Podemos então interpretá-lo como “A deusa que floriu das águas” ou “A Senhora que nasceu do mar”. Esta divindade aquática, considerada a filha de Yacy, era reverenciada pelas mulheres que usavam amuletos mágicos chamados ita-obymbaé, confeccionados com argila verde, colhida nas noites de Lua Cheia no fundo do lago sagrado Yacy-Uaruá (“Espelho da Lua”), morada de Muyrakitã. Esses preciosos amuletos só podiam ser preparados pelas ikanyabas ou cunhãtay, moças virgens escolhidas desde a infância como sacerdotisas do culto de Muyrakitã - vetado, portanto, aos homens.

Nas noites de Lua Cheia, as cunhãtay, devidamente preparadas, esperavam que Yacy espalhasse sua luz sobre a superfície do lago e, então, mergulhavam à procura da argila verde. A preparação das virgens incluía jejum, cânticos e sons especiais (para invocar os poderes magnéticos da Lua), além da mastigação de folhas de jurema, uma árvore sagrada que contém um tipo de narcótico que facilitava as visões. Enquanto as cunhãs mergulhavam, as outras mulheres ficavam nas margens do lago entoando cânticos rítmicos ao som dos mbaracás (chocalhos). Depois de “recebida” a argila das mãos da própria Muyrakitã, ela era modelada em discos com formato de animais, sendo deixado um pequeno orifício no centro. Em seguida, todas as mulheres realizavam encantamentos mágicos, invocando as bênçãos de Muyrakitã e Yacy sobre os amuletos, até que Guaracy, o Sol, nascia, solidificando a argila com seus raios.

Esses amuletos, que ficaram conhecidos com o nome de muiraquitã, tinham cor verde, azul ou cor de azeitona e eram usados no pescoço ou na orelha esquerda das mulheres. Acreditava-se que eles conferiam proteção material e espiritual e que podiam ser utilizados para prever o futuro, nas noites de Lua Cheia, depois de submersos na água do mesmo lago e colocados na testa das cunhãs, invocando-se as bênçãos de Yacy e Muyrakitã.

No nível exotérico, profano, o muiraquitã é conhecido como um talismã zoomorfo, geralmente em forma de sapo, peixe, serpente, tartaruga ou de felinos, talhado em pedra (nefrita, esteatita, jadeíta ou quartzito), bem polido, ao qual se atribuíam poderes mágicos e curativos. Foram encontrados vários deles na área do baixo Amazonas, entre as bacias dos rios Trombetas e Tapajós, sendo chamados de “pedras verdes das Amazonas”. Poderia ser uma confirmação do mito das Amazonas ou Ycamiabas, as “mulheres sem homens”, como foram chamadas pelo padre Carvajal, da expedição de Francisco de Orellana, em 1542.

Os relatos míticos as descrevem como mulheres altas, belas, fortes e destemidas, longos cabelos negros, trançados, tez clara, que andavam despidas e utilizavam com maestria o arco e a flecha para guerrear e caçar. Diz a lenda que elas escolhiam anualmente homens para serem os pais de seus filhos, presenteando-os com muiraquitãs. Outras fontes afirmam que elas usavam ornamentos de pedras verdes esculpidos em forma de animais como objetos de troca com visitantes ou tribos vizinhas.

Os missionários atribuíam aos índios tapajós a origem dos muiraquitãs, mas eles eram apenas seus portadores, não os fabricantes, exibindo-os como símbolos de poder ou riqueza, ou ainda como compensação na realização de ritos fúnebres, nas cerimônias de casamento ou para selar alianças e acordos de paz entre as tribos.

Ocultos em mitos, lendas e crenças, existem ainda muitos resquícios das antigas tradições e cultos indígenas. Descartando as sobreposições e distorções cristãs e literárias, poderemos resgatar a riqueza original das diversas e variadas apresentações da criadora ancestral brasileira, Mãe da natureza e de tudo o que existe, existiu e sempre existirá.

Cabe aos estudiosos e pesquisadores atuais desvendar os tesouros históricos do passado indígena brasileiro, com isenção de ânimo e sem distorções, em uma sincera dedicação e lealdade à verdade original, para oferecer às nossas mentes as provas daquilo que os nossos corações femininos sempre souberam, ou seja, "que a Terra é a nossa Mãe, que nos tempos antigos os seres humanos veneravam e oravam para uma Criadora, que abria os portais da vida e da morte, cujos templos eram a própria Natureza, que somos todos irmãos por sermos seus filhos, interligados por fazermos parte da teia cósmica e telúrica da Sua Criação”.

Este artigo foi atualizado para A Grande Mãe brasileira.

A Influência da Lua na Vida da Mulher

Mirella Faur

Desde a antiguidade, a Lua tem sido venerada como a personificação do princípio divino feminino. Os cultos da Grande Mãe originaram-se na Era de Câncer (8.600 a.C.) e, no decorrer dos milênios, várias culturas e civilizações veneraram Deusas Lunares, conhecidas sob diversos nomes e representações, conforme o país de origem. Os estudos das antigas tradições e mitologias revelam que a interpretação da Grande Mãe como Deusa Tríplice (Donzela, Mãe, Anciã) foi baseada no ciclo das fases da Lua (crescente, cheia, minguante). Desde a antiga Babilônia, três era um número sagrado simbolizando início, meio, fim - nascimento crescimento, morte - infância, idade adulta, velhice - corpo, mente, espírito - pai, mãe, filho.

Como símbolo do princípio feminino, a Lua representa os estados da alma, os valores do inconsciente, as emoções e o psiquismo, a receptividade, sensitividade, fertilidade, inspiração e intuição. As fases lunares caracterizam aspectos psicológicos e estágios de transformação que acompanham a trajetória mensal e anual da vida da mulher.

A Lua influencia o desenvolvimento e o crescimento das plantas, o movimento das marés e dos fluidos corporais, o ciclo menstrual, a concepção, geração e nascimento do todos os seres vivos.

Ao longo da história, a Lua e suas faces mutáveis têm sido o foco central de cultos e rituais, fonte de inspiração para poetas e trovadores, origem primordial dos calendários (baseados nos ciclos menstruais da mulher), marcador do momento certo para atividades agrícolas, considerada um dos luminares da astrologia (juntamente com o Sol) e assunto de inúmeras pesquisas e explorações científicas e tecnológicas atuais.

À medida que as culturas antigas matrifocais centradas na Deusa e nos valores por ela representados foram desaparecendo, sendo substituídas por hierarquias e estruturas patriarcais, o princípio lunar feminino foi sendo sobrepujado pelo princípio solar masculino. A Lua passou a ter conotações sombrias, ligadas aos aspectos instintivos, inconscientes e ocultos do ser humano, um sinônimo de inconstância e instabilidade emocional femininas e das práticas mágicas e atividades ocultas.

No entanto, as últimas décadas do século XX têm trazido uma mudança cada vez mais acentuada nos conceitos e nas escalas de valores da humanidade. Aumentou a busca para o conhecimento e transformação interior, para a integração com a natureza e os seus elementos e seres, para a expansão da consciência e a realização espiritual. Ressurgiram as antigas tradições, práticas e conhecimentos esotéricos e a dimensão mágica e oculta da deusa Lua está sendo reativada no mundo inteiro pelos movimentos esotéricos, ocultistas, feministas e ecológicos. A Deusa está se tornando cada vez mais presente no nosso mundo e a conexão com os atributos e significados lunares contribuem para criar um canal de recepção e difusão da Sua energia inspiradora, criadora e transformadora.

As exigências impostas pelo mundo solar masculino obrigaram as mulheres a ignorar e se distanciar do seu lado lunar. Em uma sociedade que venera o pensamento científico, a razão e a ação, a intuição passou a ser ignorada, a emotividade reprimida e a sensibilidade – quando aumentada durante o ciclo menstrual – é considerada uma síndrome doentia e abafada com remédios. Ignorando a intuição, trocando a contemplação pela ação, negligenciando o Eu interior, escondendo as emoções, desistindo da criatividade em favor da produtividade, abriram-se as portas para o desequilíbrio emocional e mental, os erros de avaliação, as armadilhas afetivas, o afloramento do material psíquico desordenado e o distanciamento dos valores e práticas espirituais. Apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, não se pode impunemente banir de nossa existência, centrada em parâmetros materiais, os sutis aspectos e influências lunares. Os valores solares prevaleceram na nossa sociedade, mas o lado lunar e as necessidades a ele relacionadas não podem ser apagados ou anulados. Por isso, é benéfico e importante encontrar soluções práticas para contrabalançar de forma consciente as polaridades lunares e solares da nossa natureza.

Conhecer as características do seu signo lunar facilita compreender a estrutura emocional, reconhecer as motivações subconscientes e evitar as respostas instintivas ou racionais com a ajuda da intuição. A Lua rege a intuição, a memória, a relação com a mãe, os comportamentos familiares, os hábitos – tanto bons quanto maus – a expressão da feminilidade e o padrão emocional. Observar as fases lunares e suas influências sobre seu comportamento, saúde, humor, sensibilidade, sexualidade, apetite ou compulsões pode tornar-se um auxiliar precioso para detectar – e evitar – atitudes instintivas, reações exageradas ou hábitos perniciosos. A Lua exerce sobre a mulher uma influência determinante na sua constituição física e emocional, nos seus ciclos biológicos e hormonais, no seu equilíbrio psíquico e mental. Dezenas de estudos médicos e de estatísticas policiais comprovam o aumento do estresse emocional durante a Lua cheia e nova, levando ao aumento de internações psiquiátricas, violências, acidentes, crimes e suicídios.

As meditações em grupo, na Lua nova e, principalmente, na cheia, são recursos simples e práticos para equilibrar e reintegrar os hemisférios e equilibrar a polaridade soli-lunar. Por todo o mundo, centenas de grupos espiritualistas, escolas ocultistas, organizações eco-feministas recomendam e realizam meditações lunares. Durante a Lua cheia, a nossa psique se abre mais facilmente para as energias cósmicas e espirituais, amplificadas pelo magnetismo lunar. Ao se reunirem durante a Lua cheia, as mulheres, além de se harmonizarem, criam um cálice luminoso que pode irradiar energias positivas para toda a humanidade e para o próprio planeta. Nos rituais de plenilúnio invoca-se a Deusa no seu aspecto de Mãe, atraem-se as suas bênçãos por meio de invocações, gestos, cânticos e danças, direcionando depois o poder mágico assim criado para benefícios pessoais, coletivos ou globais. A energia da Lua cheia é perfeita para manifestar idéias, concretizar objetivos, expandir intenções e contactar a Deusa interior, reafirmando, assim, a ligação ancestral e espiritual com a Lua, eterna governanta do corpo feminino e reflexo prateado do brilho da Mãe Divina.

fonte: http://sitioremanso.multiply.com

Livros


O Anuário da Grande Mãe
Mirella Faur
Editora Gaia
ISBN: 8585351748

O Legado da Deusa:
Ritos de Passagem para as Mulheres.

Mirella Faur
Editora Record
ISBN: 8501065854

Mistérios Nórdicos:
Deuses. Runas. Magias. Rituais

Mirella Faur
Editora Pensamento
ISBN: 9788531514937

Ragnarök - O Crepúsculo dos Deuses
Uma Introdução à Mitologia Nórdica

Mirella Faur
Editora Cultrix
ISBN: 8531611253

Círculos Sagrados
para mulheres contemporâneas

Mirella Faur
Editora: Pensamento
ISBN: 9788531517570

Outros:
A Luz Da Deusa - Rae Beth - Ed.Nova Era
A Deusa - Teresa Moorey - Ed.Pensamento
Mistérios do Feminino - Sonia Maria Milano - Ed.Allinhar
Tendas e Clãs do Sul - Jornadas Femininas de Amor e Cura - Lúcia Torres - Ed.Da Casa
A Idade do Poder. Transformação, Saúde e Beleza para a Mulher - Márcia De Luca - Ed.Tornado
Fiando Palha, Tecendo Ouro. O que os contos de fada revelam sobre as transformações na vida da mulher - Joan Gould - Ed Rocco
Mulheres, Mitos e Deusas. O feminino através dos tempos - Amrtha Robles - Ed.Aleph
O Livro das Deusas - Grupo Rodas da Lua. Ed Publifolha
A Arte de Criar seu Espaço Sagrado - Peg Streep- Ed Bertrand Brasil
A Dança Cósmica das Feiticeiras - Starhawk- Ed Nova Era
A Deusa Interior - Roger J. Woolger e Jennifer Barker Woolger. Ed Cultrix
A Deusa no Escritório - Zsuzsanna E. Budapest
A Deusa Tríplice - Ed. Pensamento
A Influência da Lua na Nossa Vida Diária - Sasha Fenton- Ed Cultrix
A Mulher em Busca da Feminilidade Perdida- Connie Zweig- Ed. Cultrix
A Viagem Mitológica Através da Astrologia - Lucia Scavone
As Deusa e a Mulher- Jean Shinoda Bolen
O Milionésimo Círculo - Jean Shinoda Bolen - Ed Trion
As Deusas, As Bruxas e a Igreja - Mª Nazareth Alvin de Barros
Guia do Crescimento Espiritual da Mulher - Nelly Kaufer- Ed Ágora
Na Casa da Lua-Jason Elias e Katherine Ketchan - Ed Objetiva
O Cálice e a Espada - Riane Eisler
O Caminho de Avalon - Jean Shinoda Bolen
O Corpo da Deusa - Rachel Pollack
O I Ching da Deusa - Barbara Walker
O Livro da Lua – Márcia Matos
O Livro Mágico da Lua - D. J. Conway- Ed Gaia
O Novo Despertar da Deusa - Shirley Nicholson- Ed Rocco
Os Mistérios da Mulher - M. Esther Harding
Mulheres que Correm com os Lobos - Clarissa Pinkola Estes- Ed Rocco