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01/19/2024
Mulher Búfala Branca

TEXTO POR:

Mirella Faur

ESCRITO ORIGINALMENTE EM: 04/10/2008

Muito tempo atrás, a tribo nativa norte-americana Lakota (ou Sioux) vivia de forma simples, caçando búfalos nas campinas para sua sobrevivência. Um dia, dois jovens índios saíram a caminhar, atentos a qualquer movimento, quando vislumbraram no horizonte algo se movendo com rapidez. Chegando mais perto viram que era uma linda mulher, envolta por uma luz brilhante. Os jovens tinham índoles diferentes: um deles apenas apreciou a beleza da mulher, mas o outro dela se aproximou, com intenções de violentá-la. A mulher abriu seus braços e cobriu o conquistador com seu xale, ambos ficando dentro de uma névoa.

Quando a neblina se dissipou, o outro jovem viu com espanto, saindo do xale da mulher o esqueleto do seu companheiro, que logo se transformou em poeira soprada pelo vento. Comovido, o jovem se ajoelhou perante a misteriosa mulher e pediu-lhe que fosse com ele para ensinar à sua tribo os mistérios da vida e da morte. Ela concordou e pediu que preparassem uma grande tenda onde toda a tribo pudesse se reunir. Lá a mulher mostrou um cachimbo feito de argila vermelha com um longo cabo de madeira, e pediu que esse cachimbo fosse usado em ritos sagrados para lembrar e honrar a ligação dos seres humanos com todas as outras formas de vida, além de reverenciar a Mãe Terra, pois cada passo que fosse dado sobre seu solo seria como uma oração. Após estes ensinamentos a mulher se afastou e foi se transformando lentamente em uma vitela de búfalo branco. Foi por isso que esta misteriosa mestra foi denominada Mulher Búfala Branca, detentora do cachimbo sagrado e de seus mistérios.

Na antiga tradição Lakota a causa primeva de tudo, o princípio primordial da criação era Wakan, o ventre da Mulher Búfalo. Reverenciado como o vazio cósmico, um receptáculo de infinitas possibilidades de criação, Wakan era descrito como um grande recipiente estrelado, contendo inúmeras centelhas de vida adormecidas, esperando serem ativadas para se integrarem à realidade terrena. O principio ativo e co-procriador era Skan, que, semelhante a um relâmpago cósmico, mergulhava no receptáculo sagrado e acordava as centelhas para a luz da existência.

Nas tradições nativas a mulher era a representante de Wakan na Terra, responsável pela continuação da vida humana, sendo um ser sagrado e por todos respeitada. Ela também tinha a missão de preservar e cuidar da paz e da harmonia dos relacionamentos, entre os membros do clã, com as outras tribos e com os reinos da criação. Eram as mulheres que criavam e cuidavam da complexa teia das atividades e relacionamentos humanos, evitando conflitos e divisões e ensinando como “caminhar suavemente sobre a terra”. Mesmo quando a chegada dos conquistadores europeus despertou a cobiça, rivalidade e violência entre as tribos, os Conselhos das Matriarcas dos clãs e das Avós se empenhavam para restabelecer a paz e relembrar a suprema lei da Criação: ”viver em harmonia com todos os seres do círculo da vida”. Competiam às avós as decisões finais por desfrutarem de muito respeito e honra pela sua sabedoria ancestral e experiência de vida.

Desde tenra idade os meninos eram ensinados pelas mães a respeitar e vivenciar as qualidades femininas; eles viviam no meio das mulheres até os sete anos e aprendiam qualidades e artes femininas como gentileza, respeito, compaixão, cozinhar, costurar, plantar, colher, bem como manter as tradições e a harmonia, natural e humana. Quando passavam para o círculo dos homens aprendiam as atividades masculinas, mas jamais lhes era incutida a violência ou falta de respeito para com a Natureza, mulheres, crianças, idosos ou doentes. Um homem de respeito e autoridade era aquele que cuidava bem da sua família e da sua tribo, preservava os reinos da Criação e honrava as tradições e os ritos sagrados.

A mensagem que a Mulher Búfala Branca trouxe para o mundo contemporâneo é lembrar que todos nós humanos, independentemente de cor, origem, gênero ou situação social, fazemos parte da complexa teia da vida e somente vivendo com respeito, harmonia e paz, poderemos atravessar os períodos cruciais que nos aguardam. A lição da Mulher Búfala Branca foi: “viver em paz com todas as nossas relações” e “tudo o que fizermos à grande teia da criação faremos a nós mesmos, pois somos um só ser vivo”.

A expressão ”todas as nossas relações” é usada para representar o círculo da vida a qual todos nós pertencemos, simbolizado pelo cachimbo sagrado. Seu bojo feito de argila vermelha representa a Terra, no seu interior está gravado um búfalo, significando todos os seres de quatro patas, e também a abundância da Terra que sustenta toda a vida. O cabo ou tubo do cachimbo, feito de madeira, simboliza tudo o que cresce sobre a terra. As doze penas que o enfeitam são de águia e descrevem as criaturas que voam, enquanto as conchas representam o reino aquático. O ato de acender e fumar o cachimbo reúne os elementos (associados com as ervas, a chama e fumaça, as cinzas) e também todos os reinos da criação. A oração que acompanha o ritual do cachimbo é direcionada em benefício de todos e do Todo e é o objetivo principal deste rito sagrado.

A Mulher Búfala Branca continua se comunicando conosco através das visões e mensagens recebidas por muitas mulheres contemporâneas. Um comovente testemunho é encontrado nesta linda canção, recebida em uma visão pela xamã, compositora e divulgadora dos antigos rituais sagrados, Brooke Medicine Eagle. Vamos refletir e colocar em prática estes atuais e necessários conselhos:

 

Buffalo Woman is calling. Will you answer Her?
She’s calling light, she’s calling peace
She’s calling spirit, she’s calling you
Buffalo Woman is calling. Will you answer Her?
I will answer Her. We will answer Her!

03/17/2024
Ostara e o início do ano zodiacal
O nome em inglês e alemão para a Páscoa – Easter e Östern – foi “emprestado” da celebração pagã das deusas Eostre (celta) e Ostara (saxão ), regentes da Primavera e da fertilidade, celebradas na Lua Cheia mais próxima do equinócio de primavera. Ostara era a deusa da aurora e da vitalidade, regente da fertilidade (vegetal, animal e humana), equivalente a Eostre, a deusa anglo-saxã da Primavera. Ambas eram representadas como jovens coroadas com flores, segurando uma cesta com ovos e cercadas por lebres, celebradas com canções, danças e procissões de mulheres enfeitadas com guirlandas.
01/19/2024
Mulher Búfala Branca
A mensagem que a Mulher Búfala Branca trouxe para o mundo contemporâneo é lembrar que todos nós humanos, independentemente de cor, origem, gênero ou situação social, fazemos parte da complexa teia da vida e somente vivendo com respeito, harmonia e paz, poderemos atravessar os períodos cruciais que nos aguardam. A lição da Mulher Búfala Branca foi: “viver em paz com todas as nossas relações” e “tudo o que fizermos à grande teia da criação faremos a nós mesmos, pois somos um só ser vivo”.
08/06/2023
As dádivas da Deusa Hécate
Hécate Trivia ou Triformis era uma das mais antigas deusas da Grécia pré-helênica, associada com a noite, lua negra, magia, profecias, cura e os mistérios da morte, renovação e nascimento. ‘’Senhora das encruzilhadas” - dos caminhos e da vida - e do mundo subterrâneo, Hécate é um arquétipo primordial do inconsciente pessoal e coletivo, que nos permite o acesso às camadas profundas da memória ancestral. É representada no plano humano pela xamã que se movimenta entre os mundos, pela vidente que olha para passado, presente e futuro e pela curadora que transpõe as pontes entre os reinos visíveis e invisíveis.
06/13/2023
Rituais do solstício de junho
O solstício de junho era celebrado pelos antigos povos da Europa – principalmente os celtas, escandinavos e saxões – como o auge da trajetória anual do Sol. Nesse dia, considerado o mais longo e claro do ano, o nascer e o pôr do sol alcançam seus pontos máximos ao norte da linha do horizonte, marcando o auge do verão. Mas é importante ressaltar que, embora estejamos no hemisfério Sul, nada nos impede também de festejar o solstício de junho. Neste texto, Mirella Faur, além de rastrear a origem de rituais como o Sabbat Litha, comum entre os povos europeus, traz uma receita completa para o dia 21 de junho.

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